Prêmio Argos

Sábado passado os melhores do ano na Ficção Científica e Fantasia no Brasil foram premiados com o Argos – o nosso equivalente do Hugo, votado pelos membros do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC).

O melhor romance é Octopusgarden (Draco), do veterano Gerson Lodi-Ribeiro. É uma homenagem explícita à sequência Uplift do americano David Brin, em que golfinhos são transformados em uma espécie inteligente pelos humanos. Ao tentar colonizar um planeta aquático, os golfinhos (ou dolfinos como chamados aqui) entram em choque com uma espécie de polvo superinteligente – que também tem uma espécie de padrinhos espaciais. É uma FC hard, e bota hard nisso, com longas e detalhadas explicações técnico-científicas, mas que também lida com grandes ideias.
Eu pessoalmente torcia por Ninguém Nasce Herói (Editora Seguinte), de Eric Novello, em que um grupo de jovens tenta sobreviver num Brasil do futuro próximo em que milícias ligadas ao presidente de extrema-direita perseguem minorias…

Entre os indicados também estavam A Alcova de Morte (Avec), de Enéas Tavares, Nikelen Witter e A.Z. Cordenonsi, uma aventura steampunk no Rio de Janeiro de 1892; Araruama: O Livro das Sementes (Moinhos), de Ian Fraser, uma fantasia indígena; e a fantasia épica Ordem Vermelha: Filhos da Degradação (Intrínseca), de Felipe Castilho.


O melhor conto foi A Última Balada de Bernardo, de Fabio M. Barreto, uma novela sombria, a segunda do autor ambientada na cidade fictícia de Pedraskaen.


E a melhor coletânea foi Magos (Draco), editado por Ana Lúcia Merege.

A premiação é um bom momento para dar um panorama da produção fantástica no Brasil.
Logo de cara, a comparação que eu fiz com o Hugo é meio cruel: No Argos tivemos 73 fãs votando; no Hugo foram 2.828 – e olha que a participação aqui é gratuita, enquanto a inscrição para votar no Hugo é paga.
Para ter uma ideia melhor, conversei com Cesar Silva, do CLFC. Todos os anos, ele publica um anuário com todos os lançamentos em Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil. As notícias não são boas: o mercado tem tido uma retração de cerca de 20% ao ano. Em 2016, foram 321 lançamentos de autores brasileiros, em 2017 apenas 252. Longe do pico de 600 registrado em 2012. O crescimento do gênero acompanha a economia, e a crise tem afetado todos – editoras grandes e pequenas, grandes e pequenas livrarias.
Recuamos ao patamar de 2005, mas Cesar Silva ressalta que ainda estamos muito à frente do vazio que havia nos anos 1980 e 1990.
Muitos desses lançamentos nacionais vêm de editoras pequenas, com poucos recursos. Falta um pouco mais de profissionalismo tanto na edição quanto na promoção. A divulgação é inexistente, embora todos estejam facilmente disponíveis como e-books, como disse o Cesar, primeiro você tem que saber que ele existe e que está lá pra comprar. A impressão que fica é que é um mercado mantido apenas por fãs, dos dois lados da balança: autores, editores e leitores mantêm o gênero vivo na base da paixão, não do profissionalismo.

Só tem um jeito de fazer isso evoluir: é ir lá e comprar, ler, comentar.

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