Prêmio Hugo – Parte 3

Passando os olhos na lista dos indicados ao prêmio Hugo de Ficção Científica, a gente vê como o gênero é mal distribuído por aqui. Nenhum dos romances saiu por aqui até agora. Alguns dos autores têm um ou outro livro publicado no Brasil, outros nem isso. Fica até difícil comentar as indicações. Leitor de FC tem que saber inglês, é isso? 

                                                      

N. K. Jemisin tem que ser a favorita. Ela ganhou dois anos atrás com A Quinta Estação (Editora Morro Branco, trad. Aline Storto Pereira), repetiu ano passado com o segundo volume da trilogia, The Obelisk Gate, e se ganhar de novo com The Stone Sky vai ser um tricampeonato inédito na história do Hugo. The Stone Sky já ganhou o prêmio Nebula este ano. Merece totalmente, é uma obra-prima. Uma mescla de fantasia e ficção científica em que a magia tem um tratamento coerente, até com insinuações de que se trata no fundo de ciência avançadíssima (como diria Arthur Clarke). É o meu voto. Em breve nas telinhas.

John Scalzi também é razoavelmente conhecido por aqui, com Guerra do Velho, As Brigadas Fantasma e Encarcerados (todos Editora Aleph, trad. Petê Rissatti). Já ganhou em 2013 com Redshirts, uma homenagem a Jornada nas Estrelas. Agora volta com o divertidíssimo primeiro volume de mais uma série de Space Opera, The Collapsing Empire.

A terceira a ter pelo menos um livro publicado aqui é Ann Leckie, que ganhou quase todos  os prêmios possíveis com Justiça Ancilar (Aleph, trad. Fábio Fernandes). Provenance não é uma continuação direta, mas é passado no mesmo universo. Interessante, mas sem a complexidade da trilogia Ancilar.

                                                       

O veterano Kim Stanley Robinson já ganhou duas vezes, com uma brilhante trilogia sobre a colonização de Marte. Em New York 2140, ele mostra uma Nova York alagada pós-mudanças climáticas. Mas o alvo mesmo é a ganância do mercado financeiro capaz de lucrar com a catástrofe global.

Yoon Ha Lee é um novo nome muito promissor. Foi indicado já pelo primeiro romance, Ninefox Gambit, ano passado. Também Space Opera, a continuação, Raven Stratagem, mostra o general psicopata ressuscitado no primeiro volume começando uma rebelião contra o governo autoritário que controla vários sistemas solares.

A novata (mas já ganhadora do prêmio John W. Campbell de Melhor Escritora Nova em 2013) é Mur Lafferty, com Six Wakes. É um mistério a bordo de uma nave que transporta 2 mil passageiros congelados para uma nova colônia. Os seis tripulantes – ou melhor, os clones deles – são despertados antes da hora, depois que os originais são assassinados. A nave está fora de rumo, e a inteligência artificial teve grande parte da memória apagada. O mistério serve para levantar discussões interessantes sobre as complicações éticas da clonagem, num futuro em que as pessoas podem fazer backup da memória e transferir para um clone mais jovem, garantindo praticamente vida eterna. Um thriller inteligente e altamente filmável (Netflix, por favor…)

Se nos romances a vida do leitor brasileiro já é limitada, a situação fica ainda mais complicada nas categorias menores (novela, noveleta, conto), só disponíveis em inglês mesmo. É uma pena, porque a safra é ótima e a competição promete ser apertadíssima.

     

Não vou detalhar cada um, mas entre as novelas destaco All Systems Red, primeiro de uma série de Martha Wells. Corporações disputam violentamente a exploração de outros planetas, e a sobrevivência de uma expedição depende de um ciborgue assassino que prefere passar o tempo assistindo a novelas… Já ganhou o Nebula, e é o favorito. Pessoalmente, gostei mais de Down Among the Sticks and Bones, de Seanan McGuire, segundo de uma série sobre um orfanato que reúne crianças que um dia já foram transportadas pra dimensões paralelas (como as que entraram no armário de Narnia), e que ao voltar foram rejeitadas pelos pais. Essa segunda história foca em duas irmãs que vão parar num mundo de terror gótico clássico e logo separadas: uma criada por um vampiro, a outra por um cientista louco… Delicioso, sombrio, e ao mesmo tempo tocante.

     

Nos contos, também parada duríssima. Tem um favorito, o brilhante The Martian Obelisk, de Linda Nagata. Mas o meu voto vai para uma escritora também candidata ao prêmio Campbell para Novos Escritores, Rebecca Roanhorse, uma escritora indígena americana, com Welcome to Your Authentic Indian Experience (TM). Um descendente de índios trabalha como guia pra turistas que querem experimentar em realidade virtual o que era a vida dos nativos. Mas questões sobre identidade acabam levantando dúvidas sobre a própria realidade dele. O romance de estreia dela, Trail of Lightning, um futuro pós-apocalipse misturado com o misticismo Navajo, é um dos próximos na minha lista de leitura.

Nessas três categorias mais curtas, o que chama a atenção é a origem dos indicados. O site Tor.com é um gigante. É o braço online da editora Tor, uma das principais do gênero, e tem 7 das 18 indicações. No extremo oposto, a revista online Uncanny, semi-profissional, tem 6, com mais uma pra Semiprozine (tipo uma fanzine que paga os autores). Recomendo: tem artigos ótimos também, além de perfis e entrevistas com os escritores. Ambos têm indicações também pros editores.

Na categoria de não-ficção, livros sobre escritores como Iain M. Banks, Octavia Butler e Harlan Ellison; uma coletânea de artigos de Ursula K. LeGuin e outra de Liz Bourke; e um livro expondo o Gamergate – uma terrível campanha de ameaças contra mulheres que defendem mais representatividade e inclusão nos videogames. 

Entre os filmes, vou votar em Blade Runner 2049, que merecia ter alcançado mais reconhecimento e bilheteria. Mas é uma escolha difícil, porque tem A Forma da Água e ainda Os Últimos JediCorra, Thor: Ragnarok e Mulher Maravilha completam a lista. É uma categoria que às vezes surpreende, com ganhadores mais sérios frequentemente desbancando os aparentemente mais populares. Ano passado, A Chegada e Estrelas Além do Tempo (que nem era ficção…) deixaram Rogue One em terceiro lugar, e Stranger Things em quarto (temporadas completas de séries concorrem como longas; episódios individuais concorrem como “curtas”).

Eu volto pra comentar a premiação.

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