Reencontros

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Leitores se modificam com a idade e muitos livros lidos no colégio merecem uma segunda chance

Minha melhor matéria na escola era literatura, tinha um professor, Marco Antonio, que dava pontos extras se entregássemos uma resenha sobre livros lidos fora do currículo escolar e que dialogassem com o que estávamos estudando. Essas resenhas escolares são, provavelmente, a gênese do blog, as primeiras que escrevi na vida, mais do que isso, me fizeram ler Clarice Lispector, Machado de Assis, José de Alencar, Guimarães Rosa e tantos outros.

Passados quase duas décadas dos anos de colégio eu tive a oportunidade de me reencontrar com muitos dos livros que me forcei a ler no colégio para ter mais nota. “Senhora” continua ótimo, Aurélia é uma personagem que adoro da mesma forma que adorei na primeira vez que li. O amor de Bentinho por Capitu se transformou em obsessão em uma segunda leitura, enfim, reler esses clássicos mais velha me deu uma nova perspectiva, tem sido um reencontro com esses textos.

Eu adolescente leitora conseguia perceber quão bom esses textos eram, mas nem sempre conseguia apreciar o que estava lendo. “A Paixão Segundo G.H.” foi uma tortura terminar para o meu eu de 16 anos, é um dos livros que me namora da estante pedindo uma segundo leitura. Machado de Assis não me custou tanto para ler a primeira vez mas agora ganhou tantas novas camadas de compreensão. São livros e autores que estou redescobrindo aos poucos e degustando com novos olhos, lendo por prazer e interesse e não por nota.

Sei que todo o estudante tem que ser exposto a esses grandes nomes da nossa literatura mas sempre me pergunto se não há uma forma de fazer isso causando menos traumas literários. Tenho muitos amigos que não chegam perto de um Jose de Alencar por que tem horror a “Iracema” ou “Guarani”, que não falam nem o nome de Aluísio de Azevedo por trauma causado por “O Mulato”. Tenho um ódio irracional de “O Mulato” gerado em sala de aula, mas nem isso me impediu de ler “ O Cortiço” e adorar. Essa segunda chance que dei a Azevedo é bem raro, traumas literários gerados em sala de aula costumam gerar cicatrizes eternas nos leitores e isso é um problema grave.

Todos esses escritores citados nesse texto e tantos outros merecem edições melhores de seus textos e não só aquelas com cara de colégio, merecem se reencontrar com leitores mais maduros. Acredito piamente que há idade para se ler certos livros e muito do que somos obrigados a ler no colégio não dialogam conosco naquela idade e passado alguns anos dizem tanta coisa. Clássicos merecem ser reencontrados ao longo da vida, posso afirmar por experiência.

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