Rei Arthur: A Lenda da Espada

Antes de sentar na sala de cinema para ver Rei Arthur: A Lenda da Espada (King Arthur: Legend of the Sword, EUA/Reino Unido, 2017) li uma matéria que já me avisava, entre várias coisas, que as personagens femininas do filme não tinham quase nenhuma força e as que se destacavam um pouco mais, nem nome ganharam. Vindo do diretor Guy Ritchie que já tinha destruído Sherlock Holmes (Sherlock, como sabemos, só existe um e se chama Benedict Cumberbatch), sinceramente já não esperava nada de excepcional. O problema é que com esse filme ele praticamente insulta quem curte a lenda do Rei Arthur, porque o filme é um grande “o que está acontecendo?” da primeira cena a última.

Para poder explicar exatamente o que me ofendeu com tanta força nesse filme vou precisar soltar alguns spoilers, então se você quiser parar por aqui, eu entendo. Veja o filme e volte para a conversa. Se não se importar, vamos em frente. Prometo que você vai se divertir com a minha indignação.

Bom, o filme abre com uma cena de batalha até que, de repente, elefantes gigantes surgem na tela. ENORMES ELEFANTES que destroem tudo: pontes, torres, partes de um castelo, que pisoteiam pessoas, estão no meio de uma batalha entre soldados em Camelot. Por um segundo fiquei na dúvida se aquele realmente já era o filme ou se ainda era algum trailer. Mas também lembrei que um pouco antes houve uma explicação da luta entre o Rei Uther e o Mago Mordred por Camelot. Literalmente uma luta entre o bem e o mal acontece na tela com ares de Senhor dos Anéis, como se o canal SyFy resolvesse que seria uma ótima ideia fazer um mashup Rei Arthur nas Terras Médias, só que com grana para os efeitos, elenco conhecido e uma trilha sonora moderninha. Vale lembrar que Highlander misturou aventura medieval com Queen, lá na década de 1980, e ficou maravilhoso. Ritchie não teve a mesma sorte. Mas vamos em frente em nossa jornada por esse filme que se diz sobre a Lenda do Rei Arthur.

Jude Law é Vortigern, irmão do Rei Uther (Eric Bana) e tio de Arthur. Ele tem um conchavo com as forças do mal porque quer o trono de Uther, claro. E se a essa altura você tá reconhecendo os nomes mas eles não estão fazendo muito sentido dentro dessa história é porque, provavelmente, Ritchie e seus amigos pescaram nomes na Wikipedia e decidiram usar em seus personagens. A partir desse ponto, ainda no início da história, é melhor abstrair porque piora. Seguindo com o filme, acontece uma traição, Vortigern liberta as forças do mal conseguindo matar seu irmão e a esposa (que não tem nome e é chamada de “mulher”). Nessa confusão, Arthur, pequenininho, foge em uma canoa pelo rio, no melhor estilo Moisés, acabando em um bordel em Londinium. Mas não, ele não é resgatado pelo Asterix.

Arthur cresce no bordel, assistindo e sendo vítima de vários tipos de violência, aprende a lutar nas ruas e com lutadores asiáticos. Tudo através da famosa lente nervosa de Guy Ritchie. Por fim ele chega a vida adulta e se torna Charlie Hunnam, única razão para se ver o filme. Ele passa a gerenciar o bordel e vira um típico babaca inglês que não liga pra nada. Só que um fugitivo do Rei Vortigern se esconde em seu estabelecimento, chamando atenção pra ele, que tenta fugir mas acaba preso e levado para Camelot.

É então que Guy Ritchie comete a maior heresia do filme. Vortigern obriga que todos os jovens da região, que tenham mais ou menos a idade de Arthur, tentem retirar de uma pedra a espada de Uther – lembra de Moisés e tal? Então, ele insiste – Arthur, que se acha melhor que todo mundo, passa frente e tenta tirar a espada da pedra. A cena piora, porque eis que surge David Beckham como guarda do rei para explicar como que tem que ser feito. Claro que Arthur consegue, no maior anticlímax da história de filmes baseados na lenda do Rei Arthur. Como assim o momento em que ele tira Excalibur da pedra é uma cena ridícula que ele divide com David Beckham? Se Ritchie quis desconstruir a história, ele decidiu ir além e destruir, porque a partir daí é ladeira abaixo.

Vortigern decide executar Arthur por razões óbvias e como um bom rei britânico resolve decapita-lo em uma cerimônia pública. Em mais um momento Senhor dos Anéis, uma águia gigante, comandada por uma maga que não tem nome durante todo o filme, mas que desconfio ser Morgana, o salva junto com cavaleiros fieis ao Rei Uther.

Ah, esqueci de contar que Vortigern está construindo uma Torre muito parecida com a de Sauron. Guarda essa informação, ela é importante.

Aí esse é o momento que Arthur descobre o seu destino, Percival conta a história de Uther e sua amizade com Merlim (olha, lembraram do Merlim), sobre a Dama do Lado e Excalibur, mas tudo muito rápido, muito confuso, que parece mais que o Ritchie se tocou que tinha que enfiar tudo isso em algum momento do filme. Arthur fica dividido, não quer ser Rei e essa coisa toda. Daí faz a louca e joga a espada no lago. Adivinha quem devolve a espada pra ele? Isso mesmo, a Dama do Lago. Acontece também uma iniciação maluca que a maga que deve ser a Morgana, faz ele passar, onde ele enfrenta cobras, ratos e morcegos gigantes, nas Terras Negras. Acho que foi aí que o Ritchie lembrou que precisava enfiar seres mágicos no filme de novo pra poder justificar os elefantes do início. Ou ele tomou ácido, sei lá.

Arthur volta pra Londinium e tem um momento Thor com a Excalibur, onde ele derrota uma grande parte do exército de Vortigern com muita facilidade e sem entender como. Daí eles levam pra frente o plano de derrotar o Rei, com muita briga e luta pra todo lado, como o Ritchie gosta, com câmeras nervosas em volta do Arthur e muitos planos em câmera lenta para minha irritação. Impressionante ver o cara que já foi considerado inovador na linguagem cinematográfica não conseguir inovar mais nem um pouquinho e continuar usando os mesmos recursos de seu primeiro filme de 1998, quase 20 anos se passaram já.

Por fim, Arthur enfrenta Vortigern, que virou Sauron, em sua Torre, numa luta bem clichezenta e quase tediosa, ele ganha e se torna Rei da Inglaterra. Ainda tem uma cena final engraçadinha com ele construindo a Távola Redonda, talvez numa esperança de Ritchie do filme ganhar uma continuação. Pois é, acho que não. O filme foi um fracasso de bilheteria no seu primeiro fim de semana de exibição nos EUA. Ele até é bem produzido, tem uma trilha sonora ótima, mas perde muito por causa da arrogância de seu diretor, ela está bem clara em todo o filme. Ritchie peca ao jogar no lixo toda mitologia incrível sobre o Rei Arthur e usar sem escrúpulos seus personagens. Não vou nem falar sobre as personagens femininas porque o filme inteiro é patético e exigir respeito nesse sentido é até tolice. Em uma época que uma série épica como Game of Thrones, que consegue ser moderna sem apelar para arrogância ou clichês, não cabe mais uma produção do nível que é esse Rei Arthur. Ritchie merecia que Bernard Cornwell fosse até sua casa e batesse nele com seus livros. Não dá mais pra fazer qualquer coisa, encher de referências pobres e achar que o público vai engolir.

Um pensamento em “Rei Arthur: A Lenda da Espada”

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