Revoltada

“O Conto da Aia” precisa ser visto, debatido e evitado de se tornar realidade.

Estou revoltada.

O cursor ficou piscando na página em branco durante um bom tempo antes de eu conseguir começar esse texto pelo simples fato de eu ter muito a dizer, mas não saber por onde começar tamanha a minha revolta.

Antes de mais nada, esse texto é sobre a primeira temporada de “O Conto da Aia” e eu não vou perder tempo explicando a obra prima que é essa história, porque a Carol Pinho mandou muito bem nessa resenha aqui. Vai ter muito spoiler então estejam avisados.

Revolta é a palavra que ficou no meu peito durante nove episódios da primeira temporada de “O conto da aia”. Eis algumas das razões:

  • Revoltada ao ter homens decidirem sobre o corpo de mulheres;
  • Revoltada ao ver homens utilizarem o corpo de mulheres como bem quiserem e ainda acharem que isso é seu direito;
  • Revoltada ao ver mulheres categorizadas basicamente como “tem ou não dinheiro”, “é ou não é fértil”, “sabe ou não cozinhar”.
  • Revoltada ao ver homossexuais brutalizados e tratados como “traidores de gênero” sendo que todos têm o direito de amar quem quiser.
  • Revoltada ao ver mulheres julgando outras com base na sua capacidade de gerar filhos.
  • Revoltada ao ver o conceito da fé deturpado como lei e não como crença.
  • Revoltada ao ver liberdades básicas – como a de ir e vir, de ler, de terem direito ao próprio corpo – serem proibidas.
  • Revoltada ao ver famílias separadas violentamente.
  • Revoltada ao ver mulheres sendo negociadas como gado reprodutor e não respeitadas como seres humanos.
  • Revoltada que tudo isso listado acima está assustadoramente próximo da realidade.

“O Conto da Aia” foi escrito por Margaret Atwood em 1985 no qual o futuro próximo seria o pior possível. O problema é que esse futuro horrível, no qual mulheres têm seus direitos revogados, seus corpos violentados, sua identidade destruída está muito, MUITO perto. E além de revoltada eu fiquei apavorada!

Mas isso tudo aconteceu durante os 9 dos 10 episódios da série. Em todos eles, pude ver também um suspiro de amizade entre aias, de homens que querem ajudar, de mulheres que entendem o quão injusto tudo isso é, de resistência e luta e esperança. E no último episódio, vi união, vi irmandade, vi mulheres que entenderam que juntas são mais fortes e que é possível sim derrubar um sistema totalitário extremista e louco.

“O Conto da Aia” é aquele tipo de livro que eu não consigo ler, mas que tenho que ler porque preciso lutar para que histórias assim fiquem apenas na ficção distópica e não histórica. Então, para me forçar a passar por isso, sugeri que todos no Clube do Livro Saraiva do Rio de Janeiro lessem o mesmo livro para o evento de novembro, que fechará o ano. Geralmente, abordamos no Clube vários livros dentro de um mesmo tema, mas sugeri que fechássemos o ano com o modelo clássico de clubes de leitura, com todos lendo e comentando a mesma obra. Quando escolhi “O Conto da Aia” para fechar 2018, pensei em tempo hábil para todos lerem e como uma desculpa para eu me forçar a ler e a assistir a série. Mas agora, depois de ter visto 10 episódios e prestes a assistir a segunda temporada e a ler o livro, vi que o timing é excelente.

Estamos em um ano eleitoral e, em pleno século XXI, estamos enfrentando uma enorme crise política, econômica e moral no país. Eu não sei quem será eleito presidente do nosso Brasil em 2018 para nos governar nos próximos quatro anos. Eu não sei o que será de nós nem nos próximos quatro meses. Mas a minha única certeza é que a luta pela igualdade, por respeito e por todos os tipos de liberdade precisa seguir em frente e forte e SEMPRE. Com livros nas mãos, ideias na cabeça e argumentos na ponta da língua – independente de partido – podemos mudar o rumo do nosso país … juntos.

Espero vocês no Clube do Livro Saraiva.

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