Rocketman

Eu tava morrendo de medo de me decepcionar com esse filme, mas Taron Egerton abre a porta com força, vestido como um demônio em laranja, vermelho, plumas, lantejoulas e plataformas. Senta em uma roda de um grupo de ajuda e “The Bitch is Back” começa a tocar. Ali, naquele momento, quando o pequeno Reginald Dwight surge na tela cantando But the fever’s gonna catch you when the bitch is back, que o filme me ganhou.

Rocketman (EUA, 2019) é um musical como um musical deve ser, com números musicais grandiosos, algumas licenças poéticas e muito talento. Não há uma preocupação em reproduzir momentos inteiros da carreira de Elton John ou shows. Nem mesmo Taron Egerton, que está monstruoso nesse filme, tenta mimetizar o cantor. Ele canta em seu próprio tom de voz e canta muito. Não imita trejeitos, nem forma de falar, mas ali, naquelas duas horas, ele é Elton Hercules John. Dexter Fletcher, diretor do filme, deixa bem claro que não dá pra contar a história de um dos cantores mais performáticos do mundo de outra forma. Tem que ser grande, tem que ser com muita música e tem que parecer que saiu direto da Broadway ou do West End pra tela do cinema.

Duas horas ou 21 números musicais, assim é contado o tempo durante essa cinebiografia que usa com perfeição a música de Elton John para contar a sua história. Desde a infância, quando o pequeno, tímido e ruivo, Reginald só queria o amor do pai e uma mãe mais presente. Mas que teve total atenção da avó ao perceber o potencial do pequeno para tocar piano. Ele tocava de ouvido, começou a ter aulas e acabou na Royal Academy of Music. A partir daí assistimos a carreira de Elton John deslanchar. Sua parceria com Bernie Taupin (interpretado por Jamie Bell) nascer e o resto, como dizem, é história.

Um pouco antes do lançamento do filme para o público, durante o Festival de Cannes desse ano, houve uma rápida discussão sobre a censura do filme. Acabou qualificado como R-Rated (censura 16 anos no Brasil). O próprio Elton John comentou que não haveria outro jeito de contar sobre sua vida, já que ela não foi “PG-13”. E sim, todas as drogas e todo álcool estão presentes no filme. Infelizmente esses foram vícios que o acompanharam por boa parte da sua vida adulta e o filme mostra exatamente como ele caiu nesses vícios e conseguiu se livrar deles, se tornando o Elton John que conhecemos atualmente. A sexualidade de Elton também é comentada e debatida durante o filme, de forma aberta e natural. Seu relacionamento com John Reid (Richard Madden) que leva a uma das cenas mais comentadas do filme e uma das mais belas, porém nem de longe uma das mais importantes. Pode ser importante por ser uma cena de sexo entre dois homens em uma grande produção comercial, mas há momentos mais marcantes dentro do filme, como quando Elton coloca a melodia em “Your Song”, no piano da sala de sua mãe, de forma casual. Ou quando ele desiste de viver e pula na piscina encontrando a sua versão criança sentada no fundo da piscina, vestido de astronauta.

O Elton John de Taron Egerton é adorável e ingênuo. Ama música, quer ser um rock star e ama, também, toda a atenção que ganha. Pode não ser condizente com a realidade. Pode ser que Elton seja uma diva insuportável, mas para o filme essa versão é perfeita. Você quer ir ao cinema e se apaixonar por ele, quer torcer para que ele fique famoso, quer se emocionar com os momentos tristes e quer chegar ao final do filme gostando dele mais ainda do que já gostava no início. Tarefa que Dexter Fletcher cumpre muito bem. Há um momento em que Elton vai se apresentar e tanto cantor quanto a plateia saem do chão. Essa é a sensação, assim que deve ser quando vemos um musical, sentir sair do chão, flutuar com a música e se deixar envolver pela história.

Os números musicais são perfeitos, as escolhas das músicas encaixam muito bem com cada momento que é mostrado e contado. Jamie Bell e Richard Madden brilham em seus papeis assim como Egerton. Além de Bryce Dallas Howard que faz a mãe de Elton e Steven Mackintosh, como o pai distante e frio. Mas o figurino precisa de total destaque. Primeiro porque Elton John não o seria sem suas roupas espalhafatosas, seus óculos extravagantes e suas botas plataforma super diferentes. Assinado por Julian Day, o figurino é preciso, deixa a plateia curiosa por qual roupa aparecerá na próxima cena, mas não ofusca Taron Egerton. As 21 músicas apresentadas durante o filme ganharam arranjos novos para funcionarem melhor em um musical e na voz de Egerton. Os arranjos foram assinados por Giles Martin, filho de George Martin, o grande produtor musical dos Beatles. E para quem conhece bem o trabalho de George, vai perceber semelhanças no trabalho do filho.

Elton John é o Rocketman, ele voa alto, até o espaço sideral, e nos leva junto. Seu filme é espalhafatoso, exagerado, emocional, divertido. Não tem como fazer um filme linear, convencional sobre um artista que construiu seu nome em não ser convencional. Sua história é rica e, para alívio de todos os seus fãs, ganhou um filme tão rico quanto. Suas músicas permanecem até o fim dos créditos e continuam enquanto voltamos a realidade, felizes de ter passado pela experiência que é Rocketman.

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