SHERLOCK

Esse post contém spoilers dos seriados SHERLOCK e Elementary. Estejam avisados.

Autores “sérios” vivem um dilema complexo: aceitar a montanha de dinheiro que vem quando seu livro “comercial” ganha fãs e notoriedade ou escrever algo “mais relevante” e “com mais consistência” e ficar tentando ser notado pela “crítica” enquanto paga os boletos atrasados?

Pois é, autores “sérios” às vezes esquecem que a escrita que é considerada comercial – ou seja, que tem grande apelo à massa leitora e não somente a um número de “intelectuais” (sentiu o nível da utilização de aspas nesse post, néam?) – também tem relevância e precisa ser consistente para manter seus fãs/leitores. Argumentar que Sherlock Holmes não tem relevância ou consistência é dizer algo incoerente, errado. Mas foi isso (de um certo modo) que Arthur Conan Doyle pensava de sua criação.

Mas eu não vou entrar em detalhe aqui sobre a obra Sherlockiana ou a vida e posicionamento de Conan Doyle – que faria 160 anos em 22 de maio de 2019 -, porque simplesmente não é o ponto deste post e porque não sou a pessoa mais indicada para tal. Fico #chatiada por Arthur (olha a intimidade!) se sentir assim sobre os personagens e histórias que criou, mas fica a lição para todos nós: o que é comercial faz sucesso por um motivo e esse motivo é que move pessoas. E se move pessoas é real, é relevante e merece muito respeito.

Sempre achei Sherlock Holmes muito bom, muito interessante, mas nunca fui fã. Isso mudou quando assisti ao seriado da BBC “SHERLOCK”, estrelado por Benedict MARAVILHOSO Cumberbatch e Martin Freeman. A contemporaneidade desse leitura de Sherlock me cativou mais do que o americano “Elementary”, que também tem seu valor e fez algumas adaptações muito interessantes (inclusive transformando Watson em uma mulher asiática, interpretada pela sensacional Lucy Liu, e mesclando os personagens de Irene Adler e Moriarty em uma única pessoa, interpretada pela eterna rainha de High Garden, Natalie Dormer). E o engraçado é que os dois atores que interpretam Sherlock – Benedict e Jonny Lee Miller – atuaram juntos em uma montagem de “Frankenstein” na qual eles trocavam de lugar entre ser o médico e a criatura. Interessante, né? Adoro como a vida imita a arte que imita a vida que … Sherlock … vamos voltar para o post!

Quando vi SHERLOCK da BBC, a segunda temporada tinha acabado de ser finalizada. Fiz uma maratona um tanto quanto curta: cada temporada tem três episódios, mas cada um tem uma hora e meia de duração.

Durante a primeira temporada, embora cada episódio seja resolvido individualmente, uma linha mestra surge para alinhavar todos e é Moriarty (interpretado por Andrew Scott) que está por trás dela. O que leva a segunda temporada, que é a minha favorita! Enquanto a primeira tem início como começou o primeiro livro de Holmes, com “Um Estudo em Vermelho” (na série é Rosa), a segunda faz releituras de “Escândalo em Bohemia”, “O Cão de Baskervilles” e finaliza com a “queda” de Holmes. E foi o final dela que destruiu o coração dos fãs, mas uniu o fandom. Porque entre a segunda temporada e a terceira aconteceu um hiato de dois anos, o que é praticamente solo fértil para o fandom se fortalecer. Aconteceu o mesmo em Harry Potter: no hiato entre a publicação de “Cálice de Fogo” e “Ordem da Fênix” foi quando o fandom cresceu mais. Uma das razões é a equação tempo + ganchos abertos = teorias + fanfiction. Embora tenha sido o mesmo espaço de tempo entre o final da primeira temporada e a segunda, como o gancho da segunda é “como Holmes sobreviveu?”, o pânico foi maior.

Aí, a terceira temporada trouxe os maiores problemas para SHERLOCK. Embora o personagem de Mary, a esposa de Watson, seja bem desenvolvido na série e interpretado pela maravilhosa Amanda Abbington, o vilão deixou a desejar. Com Moriarty fora do caminho, o próximo vilão foi Charles Magnussen (aqui interpretado por Lars Mikkelsen), mas ele poderia ter sido muito mais bem aproveitado e ficou meio méh…

Entre a terceira e a quarta temporada, tivemos o especial de Natal que foi um presente para os fãs de Holmes, pois foi ambientado na época Vitoriana. Então temos Cumberbatch como o Holmes da literatura, com chapéu e sobretudo característico e cachimbo e Freeman com o farto bigode de Watson. Mas se você acha que esse episódio não tem vínculo com a linha temporal de SHERLOCK, está enganado.

Finalmente, chegamos à quarta e última temporada de SHERLOCK. FAN SERVICE (em capslock mesmo!) do início ao fim, esses três episódios mostraram tudo que nós, fãs, queríamos, mas deixou muito a desejar em termos de roteiro. E o vilão …, bem, foi meio “do nada” (meio, porque teve menção a ele em temporadas anteriores, mas méh também), mas não se compara com a piada que foi o final de Game of Thrones, então tudo bem.

Vale lembrar que em cada episódio de SHERLOCK, temos dicas e “easter eggs” de outras aventuras de Holmes, o que torna assistir mais de uma vez uma delícia e quase uma caça ao tesouro (e ver Benedict várias vezes também é excelente!).  

Além de ter um roteiro incrível e atuações sensacionais de Cumberbatch e Freeman, os coadjuvantes também arrasam e a química entre todos da série é tangível! Una Stubbs de Mrs. Hudson é uma graça, Louise Brealey como Molly Hooper é outra querida e Mark Gatiss e Rupert Graves como Mycroft e Lestrade respectivamente são igualmente excelentes. Embora goste muito do Moriarty de Andrew Scott, queria menos chiliques da parte dele. Mas nada que abale o meu fangirling.

Outro aspecto que gosto demais em SHERLOCK foi como adaptaram não somente as histórias como também os hábitos dos personagens. Na literatura, Holmes é viciado em cocaína porque não aguenta o tédio entre os casos que soluciona (uma das falhas do personagem, mas que é coerente com sua caracterização e o torna ainda mais fascinante). Na série, ele usa vários adesivos antitabaco porque é um fumante inveterado e, na quarta temporada, usa drogas pesadas. Não que isso seja bom, gente! Até porque é sempre – em ambas as mídias – fonte de discussões entre os personagens. Mas gera mais camadas para o personagem e isso é ótimo de acompanhar. Já para Watson, enquanto o da literatura mantém diários que contam as aventuras de Holmes, sua versão televisiva atualiza um blog que serve como meio de contato para pessoas contratarem o detetive. Embora Conan Doyle tenha escrito Watson como um homem de físico mais forte, veterano de guerra, ele quase sempre (uma das exceções é Watson de Jude Law) aparece como alguém mais baixo ou até gordo. Acho que isso acontece porque Holmes precisa se destacar. No caso de SHERLOCK, Freeman é mais baixo do que Cumberbatch (que é alto e esguio como a descrição de Doyle), mas ele é assertivo, tem humor mas não é bonachão e é um médico do exército. Em suma: os dois funcionam muito bem juntos e eu não gostaria de ter esse Watson contra mim!

SHERLOCK é um exemplo de que é possível ter um seriado comercial e com muito conteúdo e ainda fazer um favor para a literatura: após assistir, dá vontade de saber mais e a gente corre para a livraria para ler sobre Sherlock e Watson (além de ver mais filmes e ler fanfiction, claro). Então, se você quer conhecer Holmes, mas não sabe por onde começar, comece pelo seriado e caia dentro dos livros e contos na sequência. E depois volte para o seriado e você vai encontrar mais menções do que antes.

SHERLOCK foi criada por Steven Moffat e Mark Gatiss e co-produzida por Sue Vertue e Elaine Cameron. E para quem é fã da série e planeja visitar Londres, além do museu localizado em 221 Baker Street (a estação de metrô tem uma estátua de Holmes na frente e vários painéis de azulejos dentro que rendem fotos lindas), dê uma passada em North Gower Street, no Speedy’s Cafe. É onde gravam a entrada do apartamento de Holmes e Watson em SHERLOCK e além de render fotos ótimas, a comida é excelente e os atendentes são uns amores (o dono é grego!).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo
%d blogueiros gostam disto: