Sobre abandonar livros

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Não me forço a terminar  um livro desde que no colégio tive que ler “O Mulato”, de Aloizio de Azevedo, para uma prova. O trauma é daqueles que só se adquiri na juventude e  a obra inaugural do naturalismo na literatura nacional tornou-se o primeiro na minha lista de livros detestados. Depois dessa experiência, ou talvez por causa dela, passei a não ter medo ou vergonha de abandonar uma leitura no meio. Você se sente obrigado a ler um livro até o final? Você abandona livros pelo meio?

A tortura de ler  “O Mulato” até o final teve sérias consequências na minha vida como leitora, a primeira, e mais clara, é uma certa desconfiança com Aloizio de Azevedo, era horror ao seu trabalho, mas depois de ter que ler “O Cortiço” e ter gostado ele subiu um pouco no meu conceito. O segundo efeito foi mais ou menos um problema no colégio e merece uma coluna só pra ele: não ler os livros obrigatórios do colégio. O terceiro é a razão dessa coluna: não ter vergonha de colocar um livro de lado, de desistir de uma leitura e não se sentir culpada. Foram muitos os livros que deixei de lado ao longo da vida, os motivos foram os mais variados, alguns me reencontraram mais a frente no caminho e outros foram deixados de lado para sempre (ou pelo menos até agora). O único elemento em comum entre todos eles é o fato de ter lido pelo menos 10 paginas de cada um. Só depois de ter dado essa chance de ser conquistada pelo autor que coloquei o livro de lado e o considerar abandonado.

Tenho uma estante inteira de livros para serem lidos e vários clássicos que ainda não tive a oportunidade de ler e isso pesa no momento que decido abandonar uma leitura. Olho a pilha de livros, avalio se aquele esforço de continuar a ler algo de que não estou gostando ou se é melhor pegar outro livro. Volta e meia pegar um novo livro ganha, algumas vezes me arrependo de não ter abandonado um livro que se mostra ruim até o final, outras vezes o livro melhora, não tem regra. Abandonar uma leitura é decisão pessoal de cada leitor.

Eu acredito cegamente que existe momento para se ler cada livro e isso é decisivo para se gostar ou não dele. A primeira vez que peguei “O Pacto” para ler não passei da página 10, na segunda vez fui até a página 20. Ele ficou lá na estante esperando a sua vez. Demorou mais de ano, mas quando peguei pela terceira vez fui fisgada pelas mesmas páginas que não me diziam nada meses antes. Devorei o livro em menos de uma semana e adorei cada página. A explicação para essa mudança? Não era o momento de ler esse livro, dei outras oportunidades e no final das contas deu certo, reencontrei o livro mais na frente e era exatamente o que queria ler.

É verdade que posso perder grandes livros com essa atitude de não ter problema em abandona-los, mas sei que insistir em algo que não estou gostando é o caminho mais fácil de desenvolver uma certa ojeriza por um autor. Prefiro colocar um livro de lado e uns meses depois dar uma segunda chance. Não é uma decisão fácil e mesmo assim favorece a minha vida como leitora e faz com que o CdL tenha resenha mais equilibradas. Você acha fácil abandonar um livro? Acha isso um crime?

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