Sobre adaptações, racismo e a nova série Bridgerton da Netflix

Adaptar: do latim adaptare

modificar (algo) para que se acomode, se ajuste ou se adeque (a uma nova situação, um determinado fim, um meio de comunicação etc.).

Toda vez que algum estúdio compra os direitos de um livro para fazer uma adaptação, seja para o cinema ou para a TV, invariavelmente isso causa um rebuliço entre os fãs da obra. De início a maioria das pessoas fica feliz por ver seus personagens queridos ganhando vida. Mas assim que são divulgados elenco, locações e detalhes do roteiro, começam as reclamações.

“A cor dos olhos do mocinho era diferente!”

“Não foi assim que eu imaginei esse personagem!”

“Isso não acontece no livro!”

Existe uma cultura tóxica em muitos fandoms que faz com que as pessoas acreditem ser donas do entretenimento que consomem e qualquer representação diferente daquilo que imaginaram se torna uma desvirtuação do material original. Suponhamos que um livro tivesse 500 mil leitores. Seriam 500 mil versões da mesma história. Mesmo que seguissem à risca a obra original, seria impossível agradar todas essas pessoas. Adaptar pressupõe modificar. Esperar que uma adaptação seja a transposição para a tela do filme que passou na sua cabeça durante a leitura é garantia de frustração.

Além disso, livros, filmes e séries são produtos muito diferentes, cada um com sua linguagem própria. O que funciona em um não necessariamente funcionaria no outro. É preciso tirar, acrescentar e modificar certos elementos para fazer dar certo. O grau de modificações vai variar de acordo com cada produção, mas até as adaptações mais fieis precisam mexer na história. Em “E o vento levou…”, por exemplo, mesmo com 4 horas de duração, o filme acaba deixando de lado uma série de personagens e situações do livro. Algumas adaptações conseguem inclusive fazer alterações tão certeiras que superam a obra original, como é o caso do filme “Memórias de uma Gueixa”.

Isso mostra que mudanças não são ruins por si só. Muitas vezes elas consertam aspectos problemáticos do livro e adequam histórias escritas há muito tempo aos padrões do público atual. Numa época em que se fala tanto sobre consentimento, por exemplo, talvez não fosse inteligente manter uma cena em que a mocinha se aproveita do estado do mocinho alcoolizado para conseguir algo que sabe não ser da vontade dele quando sóbrio.

O recente anúncio sobre a adaptação da série de romances de época Os Bridgertons de Julia Quinn para uma série da Netflix produzida por Shonda Rhimes reacendeu essa polêmica. Bastou que divulgassem o elenco para que as fãs mais puristas se alvoroçassem.

No caso da nova série – ainda sem título confirmado – a maior controvérsia do momento é a respeito das características físicas dos personagens. Como é de praxe nas produções de Rhimes, o elenco conta com vários atores não-brancos (no caso, até agora são quatro atores negros confirmados), o que é excelente para corrigir a falta de representatividade na obra de Quinn, mas desagradou a quem fazia questão dos olhos azuis do mocinho.

Nesse caso, o purismo típico de quem não entende o conceito de adaptação disfarça algo ainda mais problemático: o racismo. Em nome da defesa de uma suposta fidelidade histórica, as pessoas não aceitam que seu duque de olhos azuis seja interpretado por um ator negro. Não importa que já se tenha provado que a presença de pessoas não-brancas na aristocracia europeia não era tão surreal assim. Não importa que a própria autora já tenha declarado o quanto gostou do elenco e que nem mesmo se lembrava de que os olhos do personagem eram azuis. Não importa que o gênero dos romances de época esteja mais próximo dos contos de fada do que de ficção histórica. As pessoas estão totalmente dispostas a aceitar um século XIX em que todos têm dentes perfeitos. Os nobres lindos, ricos, charmosos e de boa índole são abundantes. Uma mãe coloca oito crianças no mundo e vê todas chegarem à idade adulta, se casarem por amor e viverem para sempre. Ah, e ninguém tem sífilis ou tuberculose. Mas um duque negro já é demais. E o mais triste de tudo isso é ver que a rejeição à negritude do personagem parece ser maior entre o público brasileiro, um povo que se diz tão miscigenado e sem preconceitos, do que entre as fãs americanas e europeias da autora.

Adaptações devem ser vistas com uma mente aberta. As mudanças devem ser bem-vindas, afinal, que graça teria ver exatamente a mesma história que você já leu? É preciso esperar o produto final sair antes de julgá-lo. E depois julgá-lo pelo que é e não pelo que a gente acha que deveria ser. Pode ser que no final das contas fique tudo uma droga e a gente queira esquecer que um dia resolveram filmar a história. Não tem problema. Os livros vão continuar aí. Adaptação nenhuma tem o poder de destruí-los.

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