Coluna

Sobre pontos cegos e privilégio

“Um futuro antirracista exige um presente autorreflexivo. Livros me ensinaram isso”, escreveu o autor Mychal Denzel Smith em uma coluna para o PublisherWeekly.

O que Mychal Denzel Smith falou me tocou, mas não foram as palavras dele que me fizeram escrever esta coluna. Foram as minhas: palavras antigas que não condizem mais com a pessoa que eu sou hoje. Precisei entender, pelas palavras de outros, que eu precisava rever as minhas.

Estamos em um momento de mudança, e isso é algo desconfortável para os privilegiados. Eu sou uma mulher branca, hétero, cis. Tudo isso me descreve, mas não me define. Só aí já está uma grande vantagem: não ser definida pelo tom da minha pele. O problema – além do óbvio! – é que eu não entendia que isso era um privilégio, e aí está o meu racismo velado. Pois é, gente… doeu escrever isso quase tanto quanto entender que era uma realidade na qual eu não queria acreditar.

Não sou racista!”, minha voz grita internamente na minha cabeça. Mas a cor da minha pele é um privilégio que permitiu que minha criação estivesse repleta de pontos cegos, lacunas, que eu só fui começar a preencher agora, quando notei que elas estavam lá, abertas.

Quando as pessoas me diziam que eu deveria ler mais autores não-brancos, eu entendia que não precisava, porque, ao meu ver, éramos todos iguais e o que importa mesmo é o talento de nos transportar para histórias incríveis, sejam elas quais forem. Mas hoje eu entendo que esse modo de pensar também é um ponto cego, que desvaloriza a história, a vivência, a etnia de cada autor não-branco que já li (ou deixei de ler). Eu não entendia que as oportunidades são diferentes, as vivências são diferentes… tudo é diferente e essa diferença não pode ser abafada, mas sim compreendida.

Demorei quase uma década para levar duas autoras e profissionais do mercado editorial negras ao Clube do Livro que coordeno. Mas aí não foi o meu privilégio falando, foi puro medo! Eu ficava apavorada ao pensar em falar alguma besteira, ou em ofender alguém. Na boa, eu estou morrendo de medo neste momento, enquanto escrevo este texto, mas preciso encarar, porque meu medo não ajuda na solução, só alimenta o problema. Então, eu me eduquei (ou melhor, eu comecei a me educar), e as maravilhosas Stephanie Borges e Ana Rosa aceitaram o convite de ir ao Clube conversar sobre seu trabalho, e acho que nunca aprendi tanto em tão pouco tempo só de ouvi-las falar. E não, não era o papel delas me ensinar, mas era o meu de ouvir.

Porque é fato: eu não estava ouvindo. E esse é um grande e grave problema. Aliás, a Ana Rosa publicou uma série de stories no seu #CaféComAnaRosa que foi sensacional, na qual ela abordou o erro de quem comete uma falha. Porém, há duas opções quando essa falha é revelada (por si ou por outros): entender e melhorar ou ser agressivo e tentar se justificar. Eu fazia parte do segundo grupo por puro medo de ser mal compreendida. Agora, busco integrar o primeiro grupo, o que ouve, reflete e procura se aprimorar. Porque a gente não nasce sabendo, mas nasce e se cria em uma sociedade que tem na estrutura o racismo e o preconceito com outras minorias. E identificar isso e começar a desconstruir isso é trabalhoso, incômodo, mas essencial.

Eu quis escrever este texto não apenas para pontuar que Vidas Pretas Importam, porque elas importam, e importam demais, e é um absurdo que ainda tenhamos que destacar isso, e que nossa sociedade que tanto progrediu ainda viva no racismo. Mas também decidi escrever para ressaltar que brancos precisam reavaliar muitas coisas. Eu achava que dizer que eu era privilegiada era ignorar o duro que meus pais batalharam para pagar minha escola, ou como eu ralei para chegar onde cheguei. Eu achava que dizer que eu era privilegiada era negar a batalha minha e da minha família. Afinal, sou neta de imigrantes e não, não foi nada fácil. Mas a cor da pele não foi um agravante, não tornou tudo mais difícil, não limitou oportunidades. E sim, eu fui e sou privilegiada nesse sentido e em tudo que ele acarreta.

Tenho pensado muito sobre todas as nossas diferenças e cada vez fica mais claro que é importante buscarmos informação. Não posso achar que só o que ouvi pela Stephenie e a Ana está valendo. Não, elas me mostraram o lado raso da piscina. Agora eu tenho que mergulhar e me virar. Porque a luta por um mundo mais igualitário também é minha. Eu posso não ter poder, autoridade ou influência, mas o pouco que tiver, eu tenho o dever de ajudar outros a preencherem essas lacunas, a identificarem seus pontos cegos. Porque eu não sou mais a mesma pessoa e, por mais que o incômodo seja grande, muito pior é me manter no conforto da ignorância e, ao fazer isso, permitir que outros sejam feridos.

Este texto gigantesco é um desabafo de quem se deu conta de que, mesmo de maneira inconsciente, era parte do problema e que quer fazer parte da solução. No lugar de apontar o dedo nas redes sociais e berrar acusações, que tal olharmos para dentro e buscarmos melhorar para ajudar lá fora? Não sou perfeita e nunca vou ser, vou seguir errando, mas quero melhorar. E não vou começar hoje, amanhã ou na segunda-feira. Já comecei… o desafio é não parar, porque o racismo não vai se resolver este ano, ou no ano que vem. Vai demorar, mas vai demorar muito mais se a gente seguir alimentando pontos cegos, ignorando o privilégio, permanecendo inertes.

Comecei o texto com aspas de um autor que ainda não li. Preciso mudar isso. Mas só ler trabalhos de autores negros não vai resolver o problema. É um começo, porém. Porque o que esses autores têm a dizer não é voltado apenas para ouvidos negros, mas para todos. E precisamos ouvir. Ouvir e mudar. 

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