Space Opera – Catherynne M. Valente

E se a sobrevivência da raça humana dependesse de um cantor decadente, daqueles que tiveram um sucesso que nunca mais conseguiram repetir?

Humor na Ficção Científica pode não ser tão raro quanto se pensa, mas é difícil de fazer. Segundo o enciclopédico John Clute, geralmente é um humor pessimista, feito em cima de personagens comuns atormentados pelas circunstâncias, tentando encontrar sentido e justiça num Universo indiferente. Space Opera, de Catherynne M. Valente (ainda sem edição em português), tem isso tudo, mas em primeiro lugar é divertidíssimo.

O título já é um trocadilho: é o nome do sub-gênero de aventuras espaciais, e ao mesmo tempo remete à música. No universo de Valente, depois de várias guerras espaciais entre diferentes espécies, decidiu-se implantar um teste pasra determinar quais são as espécies realmente inteligentes: um concurso galáctico da canção! A espécie que ficar em último lugar será simplesmente eliminada, seu planeta devastado para que outra espécie possa se desenvolver ali. A disputa é inspirada no cafonérrimo concurso da vida real Eurovision, que todos os anos escolhe os “melhores” da canção europeia.

Para defender a Terra e a sobrevivência da raça humana, os alienígenas escolhem uma banda (fictícia) já esquecida de glam-rock, Decibel Jones and the Absolute Zeros. É uma referência direta a David Bowie na fase Ziggy Stardust (o sobrenome verdadeiro de Bowie é Jones). Só que a banda já foi desfeita, o vocalista tentou carreira solo sem sucesso, e as chances dos terráqueos não parecem muito boas…

Cat Valente

Impossível não comparar com O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, que também gira em torno de um terráqueo levado a conhecer um universo que ele nem imaginava, com situações e criaturas absurdas. A narrativa de Cat Valente é delirante, a ponto de às vezes me fazer voltar e reler um parágrafo pra conseguir acompanhar os voos de imaginação da autora. Ela realmente incorpora no texto os delírios lisérgicos do glam rock em volume máximo.

Mas nem tudo é glitter: as injustiças da nossa história pesam, e perto do clímax Valente descortina um futuro próximo sombrio, consequência direta da nossa política atual, e de repente o livro dá um salto pra um outro patamar. Nossos vizinhos na galáxia não são muito melhores: no fundo são todos igualmente egoístas e hipócritas. E a possível redenção do cantor esbarra num drama pessoal e na perda que havia destruído a carreira dele no passado. Todos – o cantor e Humanidade – dependendo de uma música, uma performance perfeita, pra ter uma segunda chance.

Pena que Bowie não esteja mais aqui no planeta pra gravar “Everything Just Gets So Fucked Up Sometimes.”

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