Tempos Extremos

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Mírim Leitão se aventura pela ficção.

O primeiro livro de ficção da jornalista Míriam Leitão fala sobre a incapacidade do Brasil de lidar com seu passado. “Tempos Extremos” parte de uma reunião de família para falar da escravidão e da ditadura militar. É uma estreia interessante de Míriam na ficção.

Uma das frases que mais gosto sobre escrever é de Ana Maria Machado, ela respondeu a uma criança que “leu tanto que transbordou”. Essa frase me veio a cabeça não só porque Míriam cita Ana Maria no livro mas também porque a quantidade de citações que compõem “Tempos Extremos” é um dos charmes do romance. A incorporação de Antigona e do realismo fantástico na narrativa funciona.  Tem um parágrafo no início do livro, quando a protagonista fala sobre livros, que é o deleite dos bibliófilos, tantas referências em tão poucas linhas.

Tenho que avisar ao leitor que tenho muito respeito pelo realismo fantástico, mas ele me irrita ao extremo. Com isso o fato de Larissa, a protagonista, conversar com fantasmas de um outro tempo e tentar, de certa forma, mudar algo que já ocorreu, não me agrada na narrativa. Acho que a mesma história teria o mesmo impacto sem esse artifício, mas entendo que Macondo e seus encantos tem influência diferentes nos seus leitores. Larissa conversa com um pai e seus dois filhos, todos escravos, cada um com uma ideia de liberdade e como conquista-la. Constantino, Bento e Paulina têm histórias trágicas, como a de qualquer escravo no Brasil. É sempre bom lembrar que nosso país prefere sempre não ver quão devastadora foi a escravidão, e que, como está no livro, foi um holocausto.

O que me levou ao livro e o fez esperar pouco na minha pilha de não lidos foi que ele fala também da ditadura militar. Esse é um tema que muito me interessa. Nasci ainda na ditadura, mas quando me fiz gente ela já era história. Sempre achei que era um passado que precisava ser remexido, é necessário jogar luz nesse passado para que se construa algo melhor para o Brasil. Voltando ao livro, Larissa é filha de um desaparecido político, um pai que morreu nos porões da ditadura e que nunca conheceu. A dor dos filhos de desaparecidos é um aspecto do horror que foi a repressão que nunca tinha lido sobre, são as vítimas inocentes. Míriam constrói muito bem a dor de Larissa, a sua busca pelo pai, não só o pai militante, mas o homem que ele foi. Essa é a historia que mais me interessou no livro e acho que poderia ser mais aprofundada, a busca de uma filha pelo pai, temos apenas algumas pinceladas, bem dadas, mas apenas pinceladas.

O drama familiar é um pouco maior no enredo de Míriam, Alice, mãe de Larissa, foi presa e torturada na ditadura, Hélio, seu irmão mais velho, é militar. Uma reportagem sobre desaparecidos políticos mostra que Hélio esteve presente quando o pai de Larissa foi torturado. São os dois lados de uma guerra que se travou aqui, dois lados que continuam, de certa forma, em suas trincheiras pelo simples motivo de que não jogamos luz nessa guerra. Decidimos jogar o manto da Anistia em todos e não deixamos feridas cicatrizar, não permitimos que ódios fossem aplacados. É um legado duro que o Brasil tem e que Míriam debate nas páginas de seu livro. Um debate importante e que poderia ter sido mais aprofundado no romance.

Como primeira investida no mundo da ficção “Tempos Extremos” é uma boa estreia. Como leitora acho que poderiam ser dois livros distintos com duas boas histórias melhor lapidadas. A história de Paulina é ótima e fica no meio do caminho, a disputa de Alice e Hélio tem o mesmo problema. Larissa poderia ser protagonista de ambas as e em ambas ser explorada com mais detalhes. É uma boa leituras.

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Um pensamento em “Tempos Extremos”

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