Tenho tido pesadelos horríveis.

 

Tenho tido pesadelos horríveis.

Toda a noite, durante horas, caio em um mundo perverso habitado por truques da memória.

Lá fora uma criança grita. É dia e o sol está incurável. Ela berra e não consigo levantar, chegar até a janela – “meu pé!”, ela grita, e talvez tenham sido os peixes.

Ouço água escorrendo por todos os cantos, filetes enferrujados escorrem das dobras das paredes e bolhas leitosas inflam atrás da tinta.

 

Eu deveria fugir.

Sair correndo sem olhar para trás, apenas com a roupa do corpo.

Tenho sonhado com as eleições e tentado imaginar, num exercício infrutífero, como foi que aconteceu há 50 anos. É sempre assim, nessa complacência silenciosa e grotesca? Penso em fugir pelo menos três vezes por dia. E lembro daquela cena daquele filme, da mulher se arrastando por raízes lamacentas enquanto um outro planeta vem em direção ao nosso.

 

As pessoas deveriam estar nas janelas.

Mas estão em outras janelas líquidas, gritando para vizinhos distantes, arrumando os cílios e a boca, exibindo os dentes para o vidro redondo e escrevendo críticas de 140 caracteres.

A criança ainda berra – acho que os peixes de plástico, essa nova espécie, devoraram seu pé.

 

O Brasil é o país que mais mata a população LGBTQI – 1 cada 25 horas.

Todo dia uma das nossas desaparece. Saio de casa num misto de medo e coragem – todo dia. Beijo o cara num bar com medo de sair sozinho. Os soldados estão nas esquinas, nos banheiros, nos táxis, nos ônibus. A psicologia fala de “pesadelos persecutórios”. Querido… se eu sou perseguido todo dia santo (e outros dias também), vou sonhar ou ter pesadelos com o quê?

 

Sobreviver é uma arte.

Mas não essa arte aí, higienizada, exposta nas galerias brancas e minimalistas. Sobreviver é uma arte suja, abjeta, quase uma espécie de… algo que chamam de artesanato. Tecer, moldar, costurar, inventar espaços, inventar formas, driblar a falta, a necessidade, a fome; beira de estrada, chão, calçadas; se abaixar, juntar tudo e sair correndo quando a polícia chega.

Juntar tudo o que der e sair correndo.

 

Habita em nós esse constante senso de urgência.

Construímos nossas casas, nossas redes de afeto, nossos espaços de segurança; fazemos nossas armas, nossos dentes e facas com nossos ossos, com os ossos dos nossos ancestrais; não raramente vestimos nossas capas de invisibilidade, passamos pelo mundo assim, para tentar chegar com alguma vida do outro lado – de qual lado?

Nos RPGs da vida, em geral, a invisibilidade é truque das ladras e dos ladrões – esses ladrões romantizados, com códigos de ética, robin hood e a porra toda. Nos desenhos animados dos anos 80 e 90, Caverna do Dragão e Thundercats, lembro de me alinhar às personagens que podiam ficar invisíveis – Sheila e o humanoide/tigre Tiger/Tygra, respectivamente.

Tygra tinha um chicote que o fazia ficar invisível – algo de um fetichismo latente. E a arma encantada de Sheila era um imensa capa roxa que, ao vestir o capuz, a tornava invisível. A invisibilidade é uma estratégia não para o desaparecimento e sim para o truque, para se fazer passar despercebido, entrar e sair sem ser visto; é uma estratégia, uma espécie de aprendizado do corpo: somos “tornados invisíveis” pelo Estado, pela Família, pela Heteronorma e aprendemos a fazer “isso” – é quase um desejo, porque nossa presença é um alarme, uma ameaça, um grito, um espanto.

Quando entramos no bar, no jantar, de mãos dadas ou vestidos de outra forma, apontam para a gente, olham enviesado, riem, debocham…

Como eu desejava ter uma capa, vestir o capuz, ficar invisível e sair correndo.

Ficar invisível, acionar o mecanismo contra fogo, inundar o jantar, estragar a comida, arruinar a noite; ficar invisível, explodir essa porra toda e sair correndo.

Com o tempo, com a raiva – “angry gets shit done” – passei do desejo da invisibilidade para a potência da destruição.

 

Explodir essa porra toda.

Carrie, Jean Grey, Willow, Cersei, Ripley, Anya, Sidney, Nancy… Minhas guias, meus fios de Ariadne num labirinto de opressões, repressões, machismos e preconceitos. Montar no Minotauro e sair enquanto Roma queima.

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Nota: comecei a escrever esse texto hoje de manhã, uma espécie de fluxo, continuidade, avalanche. Duas despedidas, hoje, me foram anunciadas. As pessoas estão indo embora. As pessoas não estão suportando o Rio de Janeiro. Em seus corpos, em suas vidas, em suas lutas.

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