Traumas literários escolares

Essa semana me vi defendendo José de Alencar mais uma vez. Não sou uma ardorosa fã de Alencar, mas “Senhora” figura entre os meus 10 mais e isso faz com que sempre que alguém reclame dele eu parta em defesa. Tenho que concordar que “O Guarani” e “Iracema” são chatíssimos e traumatizaram muita gente nos tempos de colégio. Alias, muitas leituras obrigatórias no colégio traumatizaram e criaram ódios contra grandes escritores, Alencar é só um deles. . Quantos livros fomos obrigados a ler no colégio que nos fizeram ter horror a escritores clássicos brasileiros?

Dentre as leitura obrigatórias escolares a que mais me traumatizou foi “O Mulato” de Aluisio de Azevedo, li até o fim mas foi duro. Tão difícil que quase não li “O Cortiço”, esse sim um ótimo livro de Azevedo. Aqui na redação não sou a única que foi traumatizada por esse livro. Não posso ser parâmetro já que nos meus últimos anos de colégio existiam uns pontos extras para quem apresentasse resenhas de livros dos autores sugeridos e eu li um mar de coisas. Esse projeto, na verdade, foi o que me salvou de ter um ódio mortal de José de Alencar. A leitura obrigatória era “O Guarani”, li me arrastando, querendo acaba página atirar o livro na parede. Para garantir os pontos extras fui buscar outros livros de Alencar, acabei lendo “Lucíola”, “Cinco Minutos” e “Senhora”, todos romances urbanos e todos bons. Alencar acabou me conquistando. Sei que “Iracema” e “O Guarani” traumatizaram muito amigos, não consigo convencê-los até hoje de dar uma chance a Alencar.

Outro grande escritor que sofre bastante é Machado de Assis, no colégio o obrigatório era uma série de contos. Foi fácil de ler, mas mesmo assim alguns de meus colegas de turma não gostaram muito. Eu fiz um curso extra sobre Machado, dentro de uma série ministrada pelos professores de português e literatura, onde li “Dom Casmurro”. Tive um pouco de dificuldade em certos trechos mas apreciei a leitura como um todo. Tenho certeza que o fato de passar 4 horas por semana numa sala com outros 10 alunos e um professor debatendo o livro ajudaram bastante. Só fui realmente apreciar o talento de Machado muitos anos depois quando reli o livro. Ler Machado no colégio é importante para conhecermos e estudarmos a sua obra, mas ao mesmo tempo é um sacrilégio, somos muito novos para entender a genialidade e a sofisticação de seus livros.

Tenho que admitir que depois de um tempo abandonei por completo as leituras obrigatórias no colégio. Estava lendo outras coisas, outros autores. Li muito nos últimos anos de colégio, mas li pouco das leituras obrigatórias. Isso não prejudicou minhas notas, lia os mesmos autores mas obras diferentes, embromava um pouco nas provas e trabalhos e acabei descobrindo que mais importante era ler e entender os movimentos literários. Enquanto todos liam “A Hora da Estrela” eu lia “Paixão segundo GH”, a turma lia alguns poemas escolhidos de Carlos Drummond de Andrade e eu li “Sentimento do Mundo”, todo mundo li “A Vida como ela é” e eu lia “À Sombra da chuteiras imortais” e “Engraçadinha”. Educacionalmente fazia uma confusão no planejamento do programa de literatura, mas foi uma escolha que fiz e acabei sobrevivendo a literatura sem muitos ódios com relação a grandes escritores, algo bem diferente de muitos dos meus amigos de turma.

Meu maior trauma de leitura de escola é mesmo “O Mulato”, mas como Aluisio de Azevedo acabou se redimindo aos meus olhos com “O Cortiço” acho que sai ilesa do programa de literatura. Você tem algum trauma de leitura dos tempos de colégio?

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