Três Vidas

Nos últimos anos desenvolvi um carinho todo especial pela literatura portuguesa. José Saramago e Fernando Pessoas abriram o caminho, mas quem consolidou foi mesmo a Inês Pedrosa. Foi com ela que passei a buscar outros escritores contemporâneos portugueses e descobri quão poucos são editados aqui, infelizmente. Minha busca por mais livros de portugueses é incessante, e foi por causa dela que descobri João Tordo.

Fui a livraria comprar alguns presentes e, como boa bibliófila, tenho minha livraria preferida, onde conheço todo mundo e todo mundo me conhece. No meu caso é a Timbre e foi lá que ouvi “você não conhece o João Tordo?”, com a minha negativa lá foi para a minha pequena pilha de livros o romance “Três Vidas”.

O romance pulou a fila dos livros para ler por uma questão que nada tem a ver com a qualidade da escrita. A editora Língua Geral faz livros de um tamanho e peso perfeitos para carregar na bolsa e, para melhorara, ainda são lindos com as lombadas coloridas e os capítulos divididos por paginas pretas. No momento que abri o livro e li as primeira paginas fui seduzida. Escrito em primeira pessoa por um personagem sem nome e obcecado por seu primeiro empregador. Esse enredo pode não parecer dos mais sedutores, mas garanto que funciona.

Nosso narrador é empregado do misterioso e poderoso Antonio Milhouse Pascal. Ele é contratado como secretario para organizar os arquivos e a correspondência. Nada muito intrigante se não fosse o fato dele não saber qual é o trabalho do patrão e ter que morar na Quinta do Tempo (ótimo nome, por sinal) em uma área rural e isolada de Portugal. O mistério que ronda Milhouse Pascal é bem trabalhado e quando é revelado passamos para a fase seguinte do romance. A parte em que a obsessão começa a se consolidar.

Para amenizar o clima de tensão da Quinta do Tempo o narrador se apaixona por Camila, a neta mais velha do patrão. É uma relação confusa e parece mais uma forma do narrador viver eternamente conectado aquele momento de sua vida do que um grande amor. O clima entre os dois serve mais para destruir parte da vida do narrador do que para encantar o leitor.

O livro muda um pouco de ritmo do meio para o final, os anos passam mais rápidos, muitas historias ficam no ar. A que mais é negligenciada e que poderia dar mais cores ao protagonista é a relação dele com a irmã. Ela vai perdendo a importância com o passar das paginas é verdade, mesmo assim a relação merecia mais cuidado. Gosto da delicadeza do final, elementos ficam implícitos, não é necessário se explicar tudo para o leitor, não somos tão estúpidos assim. Alias, muito fica implícito e isso adiciona camadas a leitura e me encanta ainda mais.

João Tordo foi uma grande e nova descoberta. Gostei do blog que ele mantém também e agora corro atrás dos demais livros dele editados no Brasil. Já acrescentei ele também na lista de autores para importar de Portugal junto com Lidia Jorge, Domingos Amaral e José Rodrigues dos Santos.

 

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