Um conto ou um desabafo?

Estou em um momento delicado. Quem escreve ficção vai reconhecer o meu dilema. O nome não é bloqueio criativo, mas sim falta de foco. Tenho tantos personagens na minha cabeça, vindo de histórias diferentes e que eu ainda tenho que sentar para escrever, que eu não consigo focar em uma só.

Dito isso, nem ideia para a coluna aqui no site eu consegui ter, porque toda a minha energia está focada em achar histórias para essa galera viver. E o meu método é maluquinho: quando eu tenho ou um personagem ou uma premissa de história, preciso de uma música-tema para ela. Não precisa ser lançamento, mas a melodia e a letra precisam ter conexão com ou a personalidade do personagem, ou com a história. E essa escolha é meio que inconsciente: eu preciso ouvir e sentir o “é essa”, sabe? Então, no momento, eu não consigo parar de ouvir “All of me”, do John Legend, porque ela se tornou a música-tema do que eu espero ser o meu próximo livro.

Mas eu ainda estou travando uma luta com a minha falta de foco para criar o casal que vai protagonizar essa história. Mas eles já escolheram “All of me” e não tem jeito. Então, um tributo para a minha situação, a coluna aqui no Cheiro de Livro se tornou uma brincadeira/estudo de escrita com a letra dessa música como base. A galera fanfiqueira vai reconhecer como quase sendo uma songfic, a única diferença aqui é que não estou pegando personagens emprestados, mas tentando criar os meus. Seria então um conto musicado? Isso existe?

Sem mais delongas, fiquem com “Thomas” ao som de “All of me”.

 

É aquela hora que mágica que tantos autores adoram e eu detesto: tarde demais para eu ainda estar acordada, mas considerado cedo demais para fazer qualquer coisa. Do lado de fora da janela, a escuridão do céu está cedendo espaço para a claridade do dia e eu nunca me senti tão sozinha.

Olho para a tela em do computador e enfio os dedos nos cabelos, já emaranhados de tanto repetir essa ação. Bloqueio … não pode ser um bloqueio porque eu ainda não tenho o suficiente da história para bloquear. Ele – vamos chama-lo de Thomas – já me conquistou assim que algumas partes de sua personalidade apareceram pra mim. Tímido, mas com um humor ácido e inteligente. Alto, esguio, com olhos de um azul como o céu depois de uma chuva de verão, cabelos curtos e …. e …. sento ao computador e começo a escrever.

What would I do without your smart mouth
Drawing me in, and you kicking me out
Got my head spinning, no kidding, I can’t pin you down

 

Faz um tempo que rondo seu imaginário, ora sussurrando tiradas bem-humoradas, ora trocando olhares no silêncio. Ela ri, cora, chora, mas precisa de mais para colocar caneta no papel, ou melhor, dedos sobre as teclas. Eu quero que ela saiba que eu vou esperar, que não vou a lugar algum, mas como? Tudo que posso fazer é não deixa-la sozinha ….

 

What’s going on in that beautiful mind
I’m on your magical mystery ride
And I’m so dizzy, don’t know what hit me, but I’ll be alright

My head’s under water
But I’m breathing fine
You’re crazy and I’m out of my mind

 

O som do teclado – mais rápido do que consigo colocar as ideias em ordem – enche a sala. As horas voam, o sol aparece, mas eu não me importo mais. Thomas ganhou rosto, tomou forma e agora eu sei o que ele quer me dizer.

 

‘Cause all of me
Loves all of you
Love your curves and all your edges
All your perfect imperfections
Give your all to me
I’ll give my all to you



Finalmente a história começa a se estruturar e eu sei sobre o que escrever no próximo capítulo e no próximo … mas as vezes dói demais e meus personagens se ferem, têm seu coração quebrado e as lágrimas correm em mim porque sei que sou a culpada. Sussurro desculpas como se eles pudessem ouvir e Thomas … ele sofre mais do que os outros, meu querido protagonista …


You’re my end and my beginning
Even when I lose I’m winning
‘Cause I give you all, all of me
And you give me all, all of you

 

A história se complica, relacionamentos se rompem, mas eu sei que muito ainda será reescrito, editado. A conheço tão bem que já sei em quais partes ela chorou, quais se desculpou e quais ainda estão por vir. Minha única preocupação é o fim, porque depois de tudo que passamos e ainda vamos passar, sei que teremos que dizer adeus. E então começaremos tudo de novo, com outro nome, outra forma, outra história. Só não chora, amor … não chora.

 

How many times do I have to tell you
Even when you’re crying you’re beautiful too
The world is beating you down, I’m around through every move

 

Thomas, Thomas …. Seu nome é um suspiro que deixa meus lábios e aperta o meu coração. Sinto que o conheço como se ele fosse de carne e osso, como se tivéssemos compartilhado fora da página cada diálogo que escrevo, cada troca de olhares, cada toque. Fisicamente dói escrever suas falas, suas reações à mágoa sentida na história é a mesma que a minha. Desculpa, desculpa meu amor …

 

You’re my downfall, you’re my muse
My worst distraction, my rhythm and blues
I can’t stop singing, it’s ringing, in my head for you

My head’s under water
But I’m breathing fine
You’re crazy and I’m out of my mind

‘Cause all of me
Loves all of you
Love your curves and all your edges
All your perfect imperfections
Give your all to me
I’ll give my all to you
You’re my end and my beginning
Even when I lose I’m winning
‘Cause I give you all of me
And you give me all, all of you
Give me all of you

Cards on the table, we’re both showing hearts
Risking it all, though it’s hard

‘Cause all of me
Loves all of you
Love your curves and all your edges
All your perfect imperfections
Give your all to me
I’ll give my all to you
You’re my end and my beginning
Even when I lose I’m winning
‘Cause I give you all of me
And you give me all of you

 

As palavras cessam, o peito aperta e chego ao fim da primeira versão da história. Olho para a tela e sinto como se Thomas estivesse sorrindo pra mim, aquele sorriso que é só dele, de lado e que puxa linhas ao lado dos seus olhos. O sorriso que diz “muito bem” sem precisar de palavras. A história está amarrada, ainda precisa de trabalho, mas tudo que faltava está escrito, estruturado.

 

Passo os dedos no teclado e busco pela frase que Thomas diz em uma das cenas … “Não havia outra maneira” … e ele está certo. Escrever é angustiante, muitas vezes frustrante, dói, mas a recompensa vale tudo.

 

I give you all, all of me

 

Até a próxima, meu amor. Descansa agora. Estarei contigo sempre.

 

And you give me all, all of you.

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Um pensamento em “Um conto ou um desabafo?”

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