Utopia

Nesse mês que o Cheiro de Livro dedica às distopias, achei que primeiramente precisava voltar ao início, à Utopia. Não só como conceito de sociedade perfeita, mas ao livro mesmo publicado em 1516 pelo filósofo renascentista e conselheiro de Henrique VIII, Thomas More. Pra isso conto com uma ajudazinha de China Miéville e Ursula K. Le Guin, que assinam introdução e ensaios de uma excelente edição comemorativa de 500 anos da obra.

Le Guin considera que cada eutopia (’lugar bom’) contém uma distopia (‘lugar mau’), e vice-versa. Miéville, ao discutir se a obra de More é uma proposta ou uma sátira, conclui que pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. Ela, que já explorou o assunto em romances como “Os Despossuídos” e “Always Coming Home”, considera que o utopianismo é mais que uma esperança, é uma necessidade.

O livro de More começa com um debate entre o autor e um viajante sobre formas de governo, conceitos de justiça e punição por crimes. Ainda bem que a obra, escrita em latim, só foi publicada em inglês depois da morte do autor. Não sei se o patrão dele, o rei, teria gostado de certas ideias.

Thomas More

O viajante passa a descrever como exemplo de sociedade justa e equilibrada uma ilha onde viveu por alguns anos – Utopia. Curiosamente, foi tomada à força por um tal Utopus, que dominou a rude população local, e com uma mega obra de engenharia separou a ilha do continente para criar sua sociedade ideal.

Lá ninguém passa necessidade, todos trabalham pelo bem comum. Não existe propriedade privada nem dinheiro, todos se vestem com roupas iguais, não há luxo ou vaidade. O dinheiro gerado pelas exportações serve apenas para comprar o que a ilha não produz. Nem tudo é perfeito: às vezes, Utopia é forçada a travar guerras, seja para se defender ou para proteger aliados vizinhos. Mas geralmente contrata mercenários de outros lugares – o que também contribui para reduzir essa população violenta capaz de lutar por dinheiro. As tarefas mais desagradáveis – como o abate de animais para comer – são feitas por escravos. Sim, isso mesmo. Utopia tem ESCRAVOS. Mas esses são os cidadãos que infringem as leis e ferem o bem comum. E têm a possibilidade de se redimirem e serem ressocializados. Então tudo bem? A liberdade religiosa é total. Ou quase. Todas as crenças são respeitadas. Só não pode ser ateu. Os ateus não são confiáveis: se não acreditam na alma, então consideram os humanos iguais aos animais, e assim são capazes de violar todas as leis, portanto são desprezíveis…

Tanto Le Guin quanto Miéville (este marxista de carteirinha) estão cientes dos riscos da Utopia. Le Guin chega a questionar se a conformidade não levaria à estagnação, e se o conflito não é necessário para avançar. Ela lembra Milan Kundera, que em O Livro do Riso e do Esquecimento dizia que o totalitarismo também é o sonho de um mundo em que todos vivem em harmonia, unidos por uma vontade comum. No entanto, sempre surge alguém que fica no caminho, e os governantes do paraíso são obrigados a construir um pequeno gulag ao lado do Jardim do Éden. Com o tempo, o gulag vai ficando cada vez maior, enquanto o paraíso encolhe e fica mais pobre…

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