Virginia Woolf e sua Mrs Dalloway

Apesar de nunca ter tido educação formal, Virginia Woolf era uma leitora voraz e tinha amplo acesso à vasta biblioteca do pai. Filhos de uma célebre modelo Pré-Rafaelita e um renomado intelectual, Virginia e seus irmãos cresceram em um ambiente cheio de influências da sociedade literária vitoriana, tendo Henry James, Thomas Hardy e Alfred Tennyson como visitantes habituais em sua residência na Hyde Park Gate. Após a morte dos pais, os irmãos Thoby, Vanessa, Virginia e Adrian se mudaram para o boêmio bairro de Bloomsbury, onde passariam a se reunir frequentemente com outros amigos artistas e intelectuais (entre eles Leonard Woolf, com quem Virginia se casaria em 1912). Assim acabou-se formando o famoso Grupo de Bloomsbury, que rejeitava as convenções vitorianas e valorizava as artes, o prazer individual, a busca pelo conhecimento, a criação intelectual e os relacionamentos interpessoais.

A influência da filosofia de Bloomsbury é nítida na obra de Woolf. Ela se torna uma das pioneiras do modernismo na literatura, experimentando com diversos estilos e técnicas narrativas. Em 1925 publica Mrs Dalloway, considerado por muitos como sua obra-prima. Woolf usa e abusa de monólogos internos indiretos, solilóquios, narrações oniscientes, alternando os focos narrativos espontaneamente e apagando as distinções entre discursos direto ou indireto, o que torna o romance um dos exemplos mais proeminentes da técnica do fluxo de consciência.

A trama é bastante simples e se passa toda em um único dia: Clarissa Dalloway providencia os últimos preparativos da festa que dará à noite. Paralelamente, Septimus Warren Smith, um veterano da Primeira Guerra Mundial, passa o dia no parque com sua esposa italiana. Ao longo do dia acompanhamos os pensamentos, emoções e lembranças de Clarissa e Septimus, intercalados com participações das consciências de outros personagens.

Clarissa e Septimus são duas faces da mesma moeda. Enquanto ela compra as flores, ele expõe as raízes – essa é a dualidade básica do romance: a frivolidade e a joie de vivre da alta sociedade londrina nos anos 1920 e as profundas cicatrizes deixadas pela primeira grande guerra. A alternância de modos e focos narrativos se mostra fundamental para isso, visto que caso se tratasse de uma narração em primeira pessoa, Septimus não poderia existir. Todos os outros personagens orbitam Clarissa, exceto ele. Apesar de serem os dois principais focos da história e de serem profundamente interdependentes, os dois nunca se conhecem. A degradação humana da guerra nunca toca a exuberância da aristocracia.

Para Woolf essa separação na ficção é apenas uma extensão da vida real. Quando Woolf começou a escrever o romance em 1922, os efeitos da guerra na sociedade britânica ainda podiam ser sentidos. Ela chegou a anotar em seu diário “nossa geração é diariamente açoitada pela maldita guerra”. Woolf passou o período de 1914 a 1918 alternando entre Londres e sua casa de campo em Sussex, onde o conflito armado parecia distante e irreal. Foi apenas em 1915 com a morte de seu amigo de infância, o poeta Rupert Brooke, que a guerra se tornou palpável para ela. Woolf conseguia lidar com a realidade da guerra apenas através de negação e distanciamento, e em sua obra ela conectou a experiência de veteranos e civis usando uma distância narrativa ao mesmo real e irônica.

Embora haja referências aos efeitos da guerra salpicadas ao longo do romance, é em Septimus que vemos a maior personificação das cicatrizes do conflito que a sociedade britânica se recusava a reconhecer nos anos 1920. Woolf poderia ter escolhido muitas das consequências da guerra para abordar em sua obra, mas optou por criar um personagem com transtorno de estresse pós-traumático, uma condição muito pouco compreendida na época, e trabalhar a questão do transtorno mental e da ineficácia do tratamento médico disponível. Sendo obcecada com a busca da verdade essencial e extremamente perfeccionista em sua arte, ela escolheu um tema que lhe permitisse usar sua própria experiência pessoal para obter maior verossimilhança. Tendo sofrido com recorrentes crises depressivas desde a morte da mãe e passado por algumas internações psiquiátricas, Woolf conhecia em primeira mão a incompetência dos médicos da época para lidar com questões de saúde mental.

Em consonância com os ideais de Bloomsbury, Woolf demonstra pouco interesse por questões políticas ou sociais, priorizando em sua obra os aspectos estéticos da arte, o monólogo interno e a busca pela verdade essencial, o que se evidencia na abordagem de questões pessoais e não coletivas. Ela cria um veterano de guerra traumatizado, mas seu objetivo não é discutir a política da guerra, e sim como as condições mentais eram tratadas na época. Cria uma socialite frustrada vivendo em um mundo de aparências, mas não quer discutir a desigualdade social, e sim a falta de significado em uma vida vivida superficialmente.

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