Visita à editora Seguinte: bastidores do livro

Tour pela editora esclareceu os processos do “negócio”

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Muita coisa aconteceu no primeiro final de semana da Bienal do Livro de São Paulo. Mas antes de chegar lá, vamos começar com a sexta-feira, dia que participei de um tour pelos setores da Companhia das Letras.

Às 10h da manhã de sexta-feira, estava eu no Itaim Bibi pra conhecer os departamentos da editora Companhia das Letras. A convite da editora, o Cheiro de Livro passeou pelos setores responsáveis por todos os aspectos do livro: desde a aquisição, passando pelo editorial, comercial, gráfico e marketing.

Assim que cheguei, reconheci alguns amigos, como a autora de “A Ilha dos Dissidentes”, Barbara Morais. O tempo passou, mais blogueiros chegaram, e lá fomos nós. O tour nos levou do 1 ao quarto andar e depois pulamos para o sétimo.

Aquisição
A primeira área visitada foi a de aquisição de livros, tanto os gringos para serem publicados aqui quanto traduzir os nossos para serem publicados no exterior. O pessoal ainda estava um pouco tímido, então poucas perguntas foram feitas, mas foi muito interessante ver exemplares de livros de escritores brasileiros traduzidos para outros idiomas. Perguntei sobre como é feita a oferta de escritores brasileiros para serem publicados no exterior. A resposta foi interessante porque envolve não somente o quanto o autor vende aqui, mas também o que o mercado lá fora quer.

HQ
Em seguida, passamos pelo departamento que toma conta das HQs. Parece fácil editar HQ né? Afinal, são poucas frases em balões. ERRADO! O tamanho da diagramação por balão, a fonte e a quantidade de texto influenciam na leitura. Por exemplo, escrita em capitular indica grito, mas se for um balão grande com texto concentrado no centro, pequenininho, indica sussurro. Mas e quando a tradução acaba alterando a quantidade de texto? As profissionais desse setor explicaram o quanto é delicado lidar com esse aspecto para não interferir na obra, mas sim adaptá-la da melhor forma para o português, sem ferir o original. Muito bacana saber mais sobre esse trabalho, que, infeliz e erradamente não é tão reconhecido por quem não conhece HQs.

Educação e polêmica
Depois foi a vez da área que lida com as escolas. As profissionais explicaram que o público-alvo dessa área não é o aluno, mas sim o professor e que as escolas brasileiras ainda são muito tradicionais e conservadoras. Ou seja, livros com menos de seis anos de lançamento raramente são aceitos no currículo escolar. O último contemporâneo aceito foi “Eu sou Malala”, que já surpreendeu. Aqui foi o momento bastante polêmico da visita, porque muitos blogueiros explicaram que a escola é o principal local para se incentivar a leitura e o interesse em buscar livros, mas que os currículos estão ultrapassados.

“A escola não é o lugar de experimentar. O blog sim”, destacou uma das profissionais da área.

Concordo com isso? Em parte. Acho que é essencial estudar os clássicos, mas acho que para que eles sejam percebidos pelas grandes obras que são, é importante que o professor saiba abordá-los e não faça provas simplesmente para o aluno provar que leu, mas sim que entendeu. E isso soa mais fácil do que realmente é. Em suma, não acho que a “culpa” dessa falha na educação é dos livros oferecidos pela editora, mas sim da visão que as escolas têm do que precisa ser abordado em sala de aula. Mas voltarei a esse assunto mais para frente.

Comercial traz novidades
Em seguida, fomos para o departamento comercial. Além de explicar como é o trâmite entre editora e livraria – que não é tão fácil como parece – , ficamos sabendo de algumas novidades, entre elas:

– Em outubro será lançado “Os Diários da Seleção”, um livro brasileiro, mas oficial, totalmente aprovado pela Kiera Cass. Surtamos bonito!

Capa e miolo
Seguimos para o departamento que realmente faz os livros. Este é dividido em duas equipes: uma que trata do miolo do livro e uma que trata da capa. Cada profissional explicou – com muita paciência e detalhe – como se dá a escolha de capa e o tratamento do miolo do livro, a escolha da fonte. Sabia que são tratadas capas de aproximadamente 20 livros por mês? Quase uma capa por dia e não é só colocar uma imagem legal e panz! É bem mais complicado! O trabalho inclui estudo de tendências de mercado, contrato com editora original (quando é tradução), retorno dos artistas envolvidos e do editorial e marketing e muito mais! Então antes de opinar simplesmente “ai que capa isso ou aquilo”, vamos levar em consideração esses fatores.

Já quando falamos sobre o miolo do livro, foi muito engraçado porque a profissional que nos atendeu está na empresa há 22 anos. Então perguntamos sobre a diferença de lá para cá. Aí ela começou a explicar como era artesanal o processo de fazer o livro antes. Hoje, eles recebem um documento em word e caem dentro do trabalho. Antes, o texto chegava batido a máquina e tinham vários outros processos que envolviam até microfilmagem. Não existia computador e uma menina não conseguiu conceber essa ideia. Muito jovem, a blogueira ficou meio perdida quando ela explicava as etapas do processo. Foi engraçado de ver e de lembrar que se passaram somente 20 anos e o progresso da tecnologia foi muito forte nesse período de tempo a ponto de não entendermos como vivíamos sem computadores antes.

Editorial e mais novidades

Terminamos nossa visita no editorial, onde o pessoal decide quais serão os livros que serão mesmo comprados e publicados. Todos foram muito legais conosco e explicaram várias etapas de como os livros são aceitos ou não. Perguntei sobre escrita “sob encomenda” (quando o autor escreve de acordo com o tema que a editora solicita) e eles informaram que esse tipo funciona mais com livros de não-ficção no Brasil, mas que nos EUA tem para tudo.

Mais novidades que o pessoal do editorial nos passou:

– O livro “This House is Haunted” será publicado aqui em 2015.

– Os contos “O Guarda” e “O Príncipe” foram disponibilizados gratuitamente on-line somente no Brasil, porque a Seguinte arcou com as despesas. Já o conto que ainda será publicado – “A Rainha” – será pago porque a editora Americana não aceitou que fosse gratuito, mesmo com muita insistência daqui.

Mais polêmica
O pessoal do marketing conversou conosco sobre a diferença de preço de e-book para o livro físico. Para a Companhia das Letras, o e-book é 30% mais barato, mas as lojas têm autonomia para fazer mais barato ou não. Aí levantou-se a questão sobre o preço de livros.

Lembram que eu disse que voltaria a questão das escolas? Chegou o momento. A Diana Passy, do marketing e nossa guia durante a visita, explicou que a única maneira de se baratear o custo de um livro é aumentar a tiragem. Logo, para justificar a tiragem maior é a venda também crescer. Ou seja, para o livro ficar mais barato é preciso que mais pessoas leiam. E isso eu tomo como meta para o blog Cheiro de Livro e para todo o trabalho literário que faço.

A escola pode não ser o lugar para experimentar com literatura, mas ela pode ser, ela TEM que ser o lugar de instrução, de mostrar a porta aberta para outros títulos lá fora. E lá fora estamos nós, os blogs, oferecendo conteúdo de qualidade para que leitores possam navegar e escolher o livro certo para cada um. É uma corrente com elos fortes: escola, oferta, blog, leitor. Se um enfraquecer, os outros também sofrem.

E ainda voltarei a esse assunto quando abordar um debate interessante do qual participei na Bienal.

Ao final da visita, fomos agraciados com três lançamentos que, em breve, você poderá conferir por aqui.

Fique ligado aqui no Cheiro de Livro para mais matérias sobre a Bienal.

4 pensamentos em “Visita à editora Seguinte: bastidores do livro”

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