Você: série é legal, mas abuso NÃO

ESSE POST CONTÉM MUITOS SPOILERS SEM MAIS AVISOS!

O seriado “Você” (“You”) da Netflix é o perfeito exemplo de como devemos separar ficção da realidade. A série – que é baseada no livro homônimo da americana Caroline Kepnes e já tem segunda temporada confirmada, só não sabemos se será com base no segundo livro “Hidden Bodies” – tem como protagonista Joe (interpretado por Penn Badgley, o eterno Dan de “Gossip Girl”, que já era stalker lá!), um gerente de livraria que se apaixona por uma cliente gatinha e se torna obcecado por ela. Episódio atrás de episódio, nós viramos stalkers junto com Joe: descobrimos as redes sociais da Beck (a gatinha, interpretada por Elizabeth Lail), seguimos seus passos, conhecemos suas amigas tóxicas e todos os problemas que a moça tem. Vimos, assim como Joe, que Beck tem problemas de procrastinação, que tem problemas familiares graves, que tem amigas nada legais (sendo que uma é o exemplo da pior amiga do mundo! Falo mais sobre isso mais para frente) e que, embora saiba muito bem o que quer, ainda é imatura e não quer arcar com as responsabilidades para obter o que quer. Sim, Beck é uma mala de fala mole, mas isso não justifica o que acontece com ela pelas mãos de Joe.

Para não ficar aquele textão mala, deixa eu dividir essa resenha por partes. Vamos lá!

Stalker
Galera, redes sociais são o maior barato! Conseguimos nos conectar e manter contato com pessoas que moram em outros países e até com quem provavelmente nem conheceríamos se não fosse pela web. Podemos compartilhar links legais, notícias (nada de factoides, tá! Peloamor!), fotos, opiniões (respeitando o outro!) e muito mais. Maaaaaas também tem um problema. Além de ser uma vida com curadoria e não uma vida totalmente transparente que postamos no instagram, também é uma porta aberta para o nosso dia a dia, nossa personalidade. E isso, minha gente, pode ser muito perigoso sim.

Beck é uma jovem bonita, aspirante à escritora, com inúmeros problemas que qualquer um de nós poderia ter, e que posta tudo on-line. Inclusive onde estará naquela noite e onde mora. Ou seja, a menina se torna um alvo. Isso justifica ela se tornar uma vítima na mão de um perseguidor obcecado? Não, mas poderia evitar que ficasse mais fácil para ele.

A gente gosta de falar “me segue no twitter/instagram/facebook/pinterest/tumblr/etc”, mas tem gente que acaba seguindo na vida real (ex: postei que estaria em um shopping e pela minha camiseta, uma menina me achou lá! Que bom que ela era legal, mas entenderam o nível da parada?). Em suma, é preciso ter cuidado com o que postamos nas redes sociais porque nem sempre todo mundo que está seguindo quer o nosso bem.

Amizades
Antes de entrar no Joe, vamos falar sobre as amigas de Beck. A moça tem um trio de amigas ricas e influentes, ou seja, tudo que ela não é. Desde a faculdade, as quatro são unidas, mas pelo que a série mostra, todas são absurdamente egoístas e sim, fazem um monte de coisas juntas, mas não se apoiam realmente, são cegas para o que as outras estão passando, sabe? A pior delas é Peach Salinger (interpretada pela Pretty Little Liar Shay Mitchell), a mais linda, mais rica e mais má! O que acontece, Peach é apaixonada e obcecada por Beck. Só que como sua família é tradicional, sua homossexualidade é suprimida. Isso justifica ela sabotar a amiga, fingir que tentou o suicídio para manter sua atenção e stalkear a mulher? NÃO! Achei que nesse quesito a série fez um desserviço, mostrando que mulheres não são realmente amigas uma das outras. TODAS as mulheres da série não são unidas e, depois da morte no último episódio, fica ainda pior. Isso é para ser uma crítica a como nós como sociedade usamos nossas amizades para proveito próprio? SIM! Mas, cara, ficou péssimo!

BoyLixo
Beck namora Benji, um hipsterzinho que tem alergia a glúten, amendoim, é todo natureba, mas é viciado em cocaína. Olha a hipocrisia aí, gente! Enfim, o carinha só quer sexo e “thank you, next” com Beck. Mas a garota – que é muito fragilizada quando o assunto é autoestima e homens -, é toda apaixonada. Então Joe dá cabo de Benji (não antes de descobrir conosco que o cara é ainda pior do que achávamos).

Aí também conhecemos um agente literário que Peach a apresenta e o cara está muito mais interessado no que tem dentro da calcinha da Beck do que no que está dentro da sua cabeça. Então quando ela o rejeita, ele faz o que todo homem com masculinidade ferida faz: diz que ela é uma vadia, que estava pedindo por isso e que a escrita dela não presta. Ah, isso tudo depois dela ter enfrentado um orientador que também quis avançar nela e depois de uma professora ter lido seu material e dito que ela tinha valor. E em seguida, Beck começa a fazer progresso na terapia e o que acontece? Ela se pega com o terapeuta! Tudo bem que é consensual e ela tem mais é que dar para quem ela quiser mesmo. Mas depois, o cara insiste e ela diz que acabou. Mas o cara – que tem família (péssima escolha, de novo, Beck) – não quer largar o osso. Ou seja: homens não prestam nessa série. NE-NHUM!

Mas seguimos 90% da série pela narrativa de Joe. Ou seja, vimos tudo pelo ponto de vista dele, estando dentro da sua cabeça. O que isso quer dizer? Quer dizer que temos um filtro! Essa escolha de narrativa humaniza o protagonista que também é o vilão dessa história. Então somos cativados por ele e, ao ver as pessoas que cercam Beck, chegamos a achar que o menos pior é o Joe! Mas aí ele mata umas pessoas, a obsessão aumenta e, bem, ele não é legal MESMO!

Ah, e temos Paco, o vizinho mirim de Joe e que não existe no livro. A ideia aqui, na minha opinião, foi humanizar ainda mais Joe e, por meio desse garoto, apresentar o background do protagonista: ele cresceu em lar adotivo, foi abusado fisicamente e psicologicamente pelo dono da livraria (embora esse senhor tenha se mostrado o único amigo de Joe, foi essencial para aflorar o lado psicopata do cara). Por meio de Paco também vimos o lado humano de Joe, como ele se preocupa com o garoto, com o bem-estar da mãe do garoto, que apanha do namorado. Ou seja, ele quer proteger a vizinha de um cara abusivo sendo que ele é um. Mas ele não se considera um porque não bate na Beck. Só a mata no final depois de mantê-la em cárcere privado durante alguns dias depois de stalkea-la durante um ano inteiro. Mas não é abusivo, não … imagina.

Então “Você” é uma série que não chega a romantizar o abuso, mas é uma linha muito tênue para o público interpretar. Então, amorecos, se vocês estão pensando “nossa, queria um cara desses pra mim”, tá na hora de repensar seus conceitos, valeu? Porque isso é romance tóxico, doentio, sem respeito ou confiança. Não é saudável! Joe precisa de ajuda psiquiatra!

Para terminar, “Você” é viciante porque é muito bem contada, filmada, editada e atuada. A gente se envolve com os personagens e com a trama, querendo saber como vai se resolver. Não acaba bem o que me deixou frustrada, embora tenha achado o fim ironicamente coerente para as “lições” que a série estava passando. Mas o gancho me deixou intrigada e claro que vou assistir a segunda temporada.

Curiosidade: a atriz Hari Nef que interpreta Blythe é trans. Maravilhosa!

Pedido
: Não achem que todo gerente de livraria é bizarro ou que booknerds são psicopatas. Somos legais, mas sabemos como psicopatas funcionam. Impossível ler tanto Stephen King, Joe Hill, Harlan Coben e muitos outros e não absorver conteúdo. Nem tentem mexer conosco!

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