Antes Que Eu Vá

Em um dia 12 de fevereiro, Valetine’s Day nos EUA, conhecido como o Dia do Cupido na escola de Samantha Kingston, que acorda para mais um dia perfeito em sua vida sem problemas, com pais amáveis, amigas incríveis e um namorado gato. Ela faz parte do grupo das meninas mais populares da escola que também são perfeitas e que se preocupam muito mais com elas mesmas. O problema que esse é o último dia da vida de Sam, que vai ter que o reviver até resolver algumas pendências, afinal karma is a bitch.

Antes Que Eu Vá (Before I Fall, EUA, 2017) é baseado no livro homônimo de Lauren Oliver, lançado no Brasil pela Editora Intrínseca, conta a história do dia sem fim de Sam para falar sobre bullying através do ponto de vista de quem o causa. Dirigido por Ry Russo-Young, diretora que despontou em Sundance em 2014 e que teve preocupação em ouvir os fãs e a autora antes de começar seu trabalho. O olhar clean e sofisticado de Russo-Young cria um cenário para uma trama que mostra o perfeito para falar sobre a imperfeição que paira sobre os personagens. O relacionamento de Sam com sua melhor amiga, Lindsey, parece ser quase de cumplicidade, mas logo percebemos que o amor e o rancor andam meio juntos, essa linha tênue que rege o filme é o seu principal foco. Superficialmente tudo parece encaixado, Sam tem três amigas incríveis, que parecem estar ao seu lado sempre que ela precisar. Tem um namorado fofo e é muito querida pela escola. Ao mesmo tempo, trata mal o menino não popular que é apaixonado por ela, ri da menina esquisita, ao ponto de ser malvada com ela e ignora a menina gay de sua turma, como se ela fosse nada.

Esse dia que irá se repetir eternamente para Sam, mostra essas nuances para o público, mas fica claro que em nenhum momento Sam ou suas amigas percebem o quanto elas são nocivas a outras pessoas. A repetição mostra a Sam que ela tem que mudar, que ela precisa olhar pro lado, principalmente para a sua própria família. A partir desse ponto o filme começa a cavar cada vez mais a realidade de Sam, mostrando as inseguranças dela e de suas amigas, as pequenas implicâncias que são quase egoístas e o quanto o seu namorado perfeito é um idiota.

Russo-Young se mostrou interessada na história de Antes Que Eu Vá exatamente porque ela é muito verdadeira, não há preto e branco, mas sim tons de cinza que pintam um quadro bem verdadeiro sobre ser adolescente e sobre amizade, principalmente entre meninas. A repetição do filme, onde cada cena é montada exatamente da mesma forma, auxilia no entendimento das relações humanas. A forma que Sam acorda cada dia, o modo como ela reage diferente a mesmas situações cria situações sutis que vão montando uma nova história e enriquecendo o filme. Curiosamente, Sam é interpretada por Zoey Deutch, que é filha da atriz Lea Thompson, queridinha do cinema adolescente dos anos 1980. É interessante ver Deutch fazer um filme que com certeza será um bom exemplo de filme adolescente dos anos 2010 para a geração futura. Não há vilões ou heróis nesse filme, há adolescentes descobrindo como sobreviver àqueles anos e chegar à vida adulta. Os arquétipos são necessários nesse momento, são ritos de passagem e o papel de cada um deles nesse dia sem fim de Sam. É o que nos faz refletir sobre o quão cruel essa fase da vida pode ser.

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