Doutor Sono – O filme

Quando saiu o primeiro trailer da adaptação de “Doutor Sono”, a famosa briga King X Kubrick voltou a ser assunto, porque o diretor Mike Flanagan fez a ousada escolha de homenagear o filme de Kubrick. Bom, Flanagan também é o responsável pela ótima adaptação de “Jogo Perigoso”, baseado num livro do Stephen King, para a Netflix e da lindíssima série “A Assombração da Casa da Colina”, baseada no livro de Shirley Jackson.

Então Doutor Sono (Doctor Sleep, EUA, 2019), chegou aos cinemas e mais uma vez valeu a pena confiar em Flanagan. Danny Torrance, agora um adulto, interpretado por Ewan McGregor, também é viciado, assim como seu pai. Mas as drogas e o álcool servem para abafar seu poder. Ao chegar ao fundo do poço, Danny acaba indo morar em uma cidade pequena, onde conhece Billy Freeman que o ajuda a superar o vício e o arranja um emprego. Além de trabalhar com Billy, Danny também acaba conseguindo um emprego no Asilo da cidade, como faxineiro, e usa o seu poder para ajudar aqueles que estão morrendo a fazer uma passagem tranquila. Ao mesmo tempo conhecemos Rose, a Cartola (Rebecca Ferguson) que faz parte do grupo o Nó Verdadeiro, que, por séculos, se alimenta da energia de crianças com poderes como o de Danny. Além de Abra, uma menina com o mesmo poder que Danny, que passa a se comunicar com ele mentalmente. Quando Rose descobre a força do poder de Abra (Kyliegh Curran), decide ir atrás da menina e Danny resolve impedi-la a todo custo, mesmo que precise enfrentar mais uma vez seus fantasmas.

O livro Doutor Sono não é um dos melhores de King, mas tem o mérito de redimir Danny, ao contar sua história e como ele conseguiu ficar em paz com seus demônios. Para isso, King desenvolve bem a história do personagem, mas também passa bastante tempo explicando o Nó Verdadeiro e toda a história de Abra. O ponto positivo é que ele cria uma vilã forte, já que Rose, a Cartola, é tão assustadora quanto Pennywise, se não mais, porque ela tem aparência humana e anda com um grupo de pessoas que parecem inofensivas à primeira vista. Para transportar essa história tão complexa, Flanagan precisou abrir mão de algumas coisas do livro, modificar outras e ainda tinha um outro desafio pela frente: seu filme precisava acontecer no mesmo universo do filme de Kubrick, porém o fim do filme é completamente diferente do livro. O diretor entrou em contato com a Fundação responsável pela obra de Kubrick, para poder refazer as cenas que precisava e conversou com King sobre a sua ideia de homenagear livro e filme. Depois de conseguir bençãos dos dois lados, ele conseguiu montar um quebra-cabeça, preenchendo lacunas e modificando o fim do livro para poder encaixar ao fim do filme de 1980.

Há um erro muito sério acontecendo em relação a como estão “vendendo” este filme, porque Doutor Sono não é a continuação direta de O Iluminado, muito menos a continuação do filme. Essa é a história do que aconteceu ao pequeno Danny Torrance depois de ter sobrevivido a uma noite extremamente traumatizante. Como ele fugiu por anos daquela noite e dos demônios que o seguiram desde então e acabou tendo que enfrentá-los exatamente no mesmo lugar onde os conheceu. Essa é a história que Flanagan sabia que tinha que contar, por isso ele sabia que precisava refazer cenas do filme e levar Danny de volta até o Overlook (assim como no livro). A trilha sonora, as tomadas, easter eggs e cenas que estão nesse filme, não são apenas homenagens ao filme de Kubrick, mas a forma que Flanagan pegou o filme do Kubrick, acrescentou a emoção que King sentiu falta e o devolveu ao escritor como uma forma de redimir anos de rancor. E apesar de também ter mudado o fim do livro, dessa vez ele sabia que estava filmando o fim certo, o fim que King precisava. Não que Flanagan tenha desrespeitado a obra de Kubrick, muito pelo contrário, ele a homenageia durante todo o seu filme, não apenas nas partes óbvias.

Doutor Sono não é um filme de terror óbvio, porque ele tem o peso do drama do livro, ele discute temas bem mais adultos, como alcoolismo. Ele tem o fator do terror no grupo o Nó Verdadeiro, mas está recheado de mensagens por trás de sua história e acaba sendo um filme sobre superação e sobre auto aceitação. Por fim, ele é o filme que faz as pazes com King, já que seu maior trunfo é devolver “O Iluminado” ao seu verdadeiro dono.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo
%d blogueiros gostam disto: