Livros

Escrevendo para sobreviver

Já começo pedindo desculpas por falar de um livro que (ainda) não saiu em português, mas acho que o assunto vai interessar a todos que se interessem por escrever.

Num já distante 2019 pré-covid, eu incluí Charlie Jane Anders numa lista de 5 escritoras fantásticas. Todos os Pássaros no Céu (Morro Branco, trad. Petê Rissatti) já havia vencido os prêmios Nebula e Locus; o seguinte, The City in the Middle of the Night, ganhou novamente o Locus e foi indicado ao Hugo. A nova série de space opera para jovens adultos, que começou com Victories Greater than Death, está indo para o segundo volume. Agora ela lança um livro de não-ficção, dedicado principalmente a escritores iniciantes, Never Say You Can’t Survive: How to Get Through Hard Times by Making Up Stories (Nunca Diga que não Pode Sobreviver: Um Guia para Superar Tempos Difíceis Inventando Histórias). 

O livro reúne uma série de ensaios que ela publicou ao longo da pandemia no site Tor.com. É uma injeção de ânimo pra quem quer escrever, e ao mesmo tempo lida com o isolamento e a depressão da pandemia. Charlie mistura muito de autobiografia, com muito bom humor. Mas principalmente aponta o caminho para usar a escrita para superar nossos medos, incertezas e ansiedadedes. Logo de início, ela explica que o livro tem origem antes da pandemia, no início de 2017, quando estava apavorada com o que aconteceria nos Estados Unidos da era Trump. Até que descarregou todos os medos de ser uma pessoa trans num cenário hostil num conto distópico. A partir daí começou a pensar no ato de escrever como ato de resistência. 

Uma rápida passada por alguns tópicos do livro já dão uma ideia, e deixo eles aqui pra que cada um pense em como isso pode se aplicar às suas tentativas de escrever:

  • Abrace a incerteza: a alegria de fazer uma bagunça
  • O segredo de contar histórias? Uma boa cena, depois outra, depois outra
  • Ser estranha me dá forças para continuar

E por aí afora. Um dos meus capítulos favoritos lida com a Síndrome do Impostor, e a eterna desconfiança de que você não tem capacidade, não merece estar ali. Pra começar, Charlie diz que isso nunca vai embora, por mais que voc|ê faça sucesso: aí mesmo é que piora. Entre as recomendações dela estão não dar ouvidos a regras, ao que você “pode” ou “não pode” fazer. E não escutar quem tenta te convencer de que você não merece estar ali.

Outro capítulo é sobre a Raiva: escreva sobre coisas que te incomodam. Mas não é pra vomitar o seu ódio na página: ela lembra Terry Pratchett, conhecido pelo humor, mas que usava esse humor para falar das coisas que o irritavam. E sugere converter essa raiva num sentido de justiça: fale de personagens que se levantam e lutam pelas coisas que consideram certas.

Com certeza não é um manual de escrita convencional. Mas o jeito coloquial de uma boa conversa e a confiança de quem viveu tudo isso fazem deste um ótimo manual de sobrevivência nos tempos difíceis que estamos vivendo.

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