Resenhas

Minha Sombria Vanessa

Tenho uma certo fraco por ler livro dos quais não sei nada. Simplesmente pegar um livro na estante, não ler nem a contracapa e nem a orelha e mergulhar na leitura. É uma experiência que elimina expectativas e preconceitos e agrega a leitura. Foi assim que peguei “Minha Sombria Vanessa” (tradução de Fernanda Abreu) e mergulhei na leitura.

Esse é um livro sobre abuso e suas consequências. A Vanessa do título é uma adolescente de 14 anos que tem uma bolsa de estudos em um internato, é lá que ela conhece Jacob, seu professor de literatura de 42 anos. A relação dos dois é uma relação abusiva, ele é um predador, não há duvidas quanto a isso, até mesmo na orelha do livro e na contracapa está escrito que “não é uma história de amor”. O livro tem capítulos intercalados que mostram o presente e o passado, o leitor vai montando a história da relação entre Vanessa e Jacob e os efeitos que isso tem em sua vida adulta.

Não é uma leitura simples e a raiva que senti de Jacob a cada página mostra quão bem Kate Elizabeth Russel escreve. A história ser sobre uma relação entre um homem e uma adolescente traz imediatamente o clássico “Lolita” à cabeça de qualquer leitor e Russel faz com que essa inspiração não passe despercebida, Vanessa é obcecada pelo livro de Nabokov. As referencias são tantas que me deu vontade de reler “Lolita”, admito que li na adolescência e que guardo mais sensações sobre o livro do que recordações reais do que li, talvez esteja na hora mesmo de revisitar os clássicos.

“Minha Sombria Vanessa”, escrito em um mundo pós o movimento MeToo, coloca no centro uma questão polêmica: vitimas que não querem se expor ou que não se consideram vítimas. Vanessa passa quase o livro todo defendendo que não foi abusada, que o fato de seu professor a ter seduzido e a instigado a mentir para protege-lo não foi abuso, que ela fez tudo por vontade própria e isso o eximiria de qualquer culpa. O livro vai além, Vanessa é chamada a se pronunciar sobre o abuso que sofreu quando outros casos são denunciados e se recusa, ela não quer se expor e ao mesmo tempo acha toda o movimento do MeToo intrusivo e incapaz de comportar pessoas como ela que não querem ter suas vidas expostas e não querem falar sobre o assunto, por mais que o abuso seja algo que as consome.

Depois do lançamento Kate Elizabeth Russel se viu envolvida em uma série de polêmicas, no livro diz que não sofreu qualquer abuso, depois disse que algo do livro era biográfico, pra mim não importa muito tudo isso. O livro é bem escrito mesmo que os personagens sejam bem difíceis de se gostar, a obsessão da autora por “Lolita” é evidente, assim como suas críticas ao MeToo, nada disso faz a leitura menos interessante, difícil e mesmo assim um bom livro.

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