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No Planeta Vermelho

Escrevo essa coluna enquanto espero pela chegada do robô Perseverance, da Nasa, ao planeta vermelho. Torcendo pra que o pouso difícil, os chamados “Sete Minutos de Terror”, dê certo. Será a terceira missão a chegar a Marte este mês, então achei que valia a pena lembrar um pouco das viagens literárias ao nosso vizinho.

O nosso fascínio com esse planeta aparentemente árido (mas que esconde muita água) começa com um grande engano. Primeiro, do astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli, em 1877, que enxergou riscos na superfície que chamou de “canais”. Alguns anos depois, o americano Percival Lowell levou a interpretação mais adiante, e concluiu que os supostos canais só podiam ser construções artificiais. Não eram, não passavam de acidentes geográficos. Mas foi o suficiente para inspirar o britânico H. G. Wells a imaginar a invasão da Terra pelos marcianos em Guerra dos Mundos (1897).

Ilustração de Alvim Corrêa para Guerra dos Mundos

Curiosamente, pra quem vive em tempos de pandemia, os marcianos são derrotados por bactérias terrestres pras quais não têm defesa. Wells na verdade estava falando do imperialismo e queria que os brtitânicos sentissem na pele a opressão que imprimiam a povos na Ásia e na África. Mas a porteira estava aberta. Em 2017, o britânico Stephen Baxter publicou o interessante The Massacre of Mankind, imaginando a volta dos marcianos, com um arsenal ainda mais potente.

Edgar Rice Burroughs, criador de Tarzan, a partir de 1912 escreveu uma série de aventuras do veterano da Guerra Civil Americana John Carter, transportado de maneira meio vaga para marte, começando com Uma Princesa de Marte

E se Marte tem uma rainha, é a americana Leigh Brackett, que nos anos 1940 e 1950 escreveu várias aventuras ambientadas no planeta. Uma delas, Lorelei of the Red Mist, ela precisou interromper e pediu a um amigo que terminasse – Ray Bradbury.

Bradbury se tornou o nome mais associado a Marte com As Crônicas Marcianas, que merece um capítulo à parte e está na Biblioteca Essencial do Cheiro de Livro. Em 2012, pouco depois da morte de Bradbury, a NASA deu o nome dele ao local do pouso do robô Curiosity.

Todos os gigantes da Ficção Científica passaram por lá: Arthur Clarke (As Areias de Marte, 1951), Isaac Asimov (O Estilo Marciano, 1952). Asimov ganhou uma cratera com seu nome, e a nave Odyssey, de 2001, é uma homenagem a Clarke.

As várias missões da NASA mostraram que se havia a possibilidade de vida, seria em forma de micróbio ou bactéria, e aventuras como as de Brackett e Burroughs foram dando espaço a relatos mais realistas de exploração espacial. 

Kim Stanley Robinson ganhou vários Hugos e Nebulas pela trilogia que imagina a colonização e transformação de Marte num planeta habitável, levando no entanto uma pesada bagagem de conflitos políticos da Terra, em Red Mars, Green Mars e Blue Mars (1992-1996).

E é claro, não podemos esquecer do astronauta Perdido em Marte de Andy Weir (2011), já resenhado aqui. 

A Perseverance acaba de pousar em Marte. A aventura está apenas começando.

A primeira imagem de Marte enviada pela Perseverance

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