Resenhas Saiu das páginas Televisão

“O Duque e eu” não é Austen, é Quinn

Antes de qualquer coisa, é importante dizer que essa resenha terá spoilers do livro e da série “Bridgerton” (Netflix). Se você não leu ou não viu, adicione esse link aos favoritos, manda no grupo de amigos no whatsapp pra salvar o link e volte depois. Mas se você já leu/viu ou não se importa com spoiler, vem comigo para a terra do romance de época.

O livro “O Duque e eu” (Julia Quinn, Editora Arqueiro, tradução de Cássia Zanon) foi meu primeiro passo no gênero romance de época. Assim como acontece com várias primeiras vezes, foi memorável, mas não exatamente perfeito. Eu me envolvi com os personagens, mergulhei no romance e amei a escrita da Julia Quinn, mas a decisão que Daphne toma no final do livro me deixou muito, muito mal na época (por volta de 2013). De lá para cá, não somente eu reli “O Duque e Eu” e passei a gostar ainda mais do livro, como li tudo que Julia Quinn já escreveu, li várias outras autoras do gênero e passei a trabalhar com isso. Mas entre o primeiro passeio no jardim escuro com um duque e hoje, muita coisa mudou.

Conforme nos preparávamos para a grande estreia da série – os oito episódios foram ao ar no dia 25 de dezembro -, a minha ansiedade aumentava. Tendo Shonda no comando, um elenco escolhido a dedo, fotos que mostravam uma produção de figurino e cenário impecáveis e a consultoria da própria Julia Quinn, eu não tinha dúvida de que seria uma excelente adaptação. Mas eu tinha um único medo: como seria resolvida a questão do final do livro, a tomada de decisão que feriu o conceito que eu tinha de Daphne no meu coração?

Antes de responder essa questão, um aspecto que foi essencial no sucesso dessa adaptação para a série foi a mescla entre atualidade e passado. Essa mescla está sutilmente na trilha sonora – que conta com músicas como “A girl like you”, “Thank you, next” e “Bad guy” interpretadas por um quarteto de cordas – e mais claramente nas questões femininas. Daphne e sua ignorância sobre seu corpo, sobre sexo; Marina e o perigo que sua gravidez pode trazer para seu futuro e para a reputação das demais Featheringtons; Eloise e seu medo de crescer/amadurecer e ter sua liberdade, suas escolhas cortadas por um marido; Sienna e Madame Delacroix, mulheres independentes, que têm seu próprio ofício, mas são desconsideradas pela sociedade por não serem aristocratas, por não serem damas, por serem “manchadas”. E também Violet e Portia, duas matriarcas que lidam como podem para cuidar de sua prole, as vezes fazendo escolhas impossíveis e quase vilanescas, as vezes aderindo a hipocrisia para não ferir os costumes, o nome da família. Não esquecendo de Lady Danbury e de outras viúvas, que abraçam a liberdade do nome do marido sem ter que “sofrer” com a convivência de tal. No meio disso tudo, homens ricos, que só por serem homens já têm toda a liberdade possível. Isso tudo era questão de vida ou morte social no século XIX, e embora tenhamos progredido e muito, a hipocrisia e o machismo patriarcal ainda fere inúmeros relacionamentos, vidas, personalidades em pleno século XXI. Afinal, não sofremos mais o absurdo que era o “mercado casamenteiro” da época, mas ainda temos que ouvir expressões como “vai ficar para titia?”, “como assim não quer ter filhos?” e a clássica “e os namoradinhos?”.

“Nossa, mas por que você curte ler um gênero nada feminista?”. Eu tinha esse pensamento antes de começar a ler romances de época. Como pode, em pleno século XXI, mulheres gostarem de ler histórias nas quais outras mulheres são consideradas propriedade por homens? Como é possível mulheres independentes se importarem com histórias que só visam um casamento? Por que, caro leitor, romances de época são muito, mas muito mais além disso. Eles contam histórias de mulheres que querem ter uma família, ou conquistar o mundo. Eles contam histórias de mulheres que querem casar por amor ou que acham o amor quando nem casar queriam. Eles contam histórias de mulheres que querem ter escolhas e dos homens que passam a entender, respeitar e defender isso. E não é isso que a gente, no século XXI, quer também? Ser amado, respeitado, seguir o próprio caminho, ter ou não família? Queremos ter liberdade e escolhas assim como essas personagens.

Dito tudo isso, a versão da Netflix – comandada por Shonda Rhimes e Chris Van Dusen – foi muito bem adaptada e, como fã dos livros, não poderia ter pedido por algo melhor. Claro que teremos sempre uma torcida de nariz aqui ou ali, mas sabe qual o melhor remédio para isso? Ler novamente o livro que originou a série. Porque a página é uma mídia, a TV é outra e não existe melhor ou pior, mas sim artes diferentes e que são complementares. Tudo que mais amo no livro está presente na série: a personalidade de cada integrante da família Bridgerton – da adorável carranca preocupada de Anthony até a inocência de Hyacinth -; a inocência de Daphne e as nuances de sua personalidade; o conflito interno de Simon entre o amor pela esposa e o ódio pelo falecido pai; a força de Eloise; a sagacidade de Penelope e como cada um desses personagens se envolve com o outro. As censas picantes, tão cativantes na página, temperam a série, fazendo jus ao gênero literário dos livros.

Respondendo a questão que coloquei no topo: com as adaptações sofridas, uma mudança simples fez toda a diferença na situação entre Daphne e Simon. Ainda levanta questões? Sim. Ainda estou chateada com Daphne? Sim, mas um pouco menos. Tanto no livro quanto na série, os protagonistas resolvem suas questões. É perfeito? Não. Importa a minha opinião? Não exatamente. O que acho essencial é manter o debate vivo, porque é isso que garante mudança.

Outro aspecto atual que está muito presente na série é a representatividade. Além de termos um personagem que fala sobre homosexualidade e como esse amor é infelizmente alvo de preconceito e precisa ser escondido, temos a representatividade racial. Além da Rainha Charlotte, Lady Danbury e Marina serem interpretadas por atrizes pretas, temos o protagonista Simon – o Duque! – também interpretado por um ator preto (além de inúmeros extras também). Embora Danbury e Simon tenham uma conversa sobre cor e posição social, racismo é algo que não foi mencionado ou exposto na série. Na minha experiência branca, eu adorei esse elenco inclusivo. Que seja o início de um movimento contínuo e sem fim.

Eu já tentei escrever essa resenha três vezes antes de chegar a essa, e a razão para tal é que eu amo tanto esses livros, esse gênero, que acabo entrando em inúmeros detalhes, em incontáveis releituras e interpretações e opiniões. 

Quem não conhece o gênero literário pode ter ficado chocado com as cenas de sexo, pode ter achado o final feliz água-com-açúcar demais, pode ter esperado a escrita mais rebuscada. Que fique claro que “O Duque e Eu” não é Austen, é Quinn e essa diferença não é demérito para nem uma e nem outra. Porque mulheres não precisam ser comparadas. Nós todas devemos ser valorizadas por quem somos: únicas. E se você quer saber o que acontece com os outros personagens, não precisa rezar para confirmarem outra temporada. Todos os livros estão disponíveis. Boa leitura!

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11 thoughts on ““O Duque e eu” não é Austen, é Quinn
  1. Ahhh Frini… concordo muito com vc! Conheci a Julia #diva Quinn através de vc no clube do livro e sou apaixonada pelos Bridgertons. Achei o ponto de vista da Daphne sobre a “condição” do Simon na série muito bem construído. Fiquei extremamente solidária a ela e não consigo discordar da atitude dela no final. Aceito o seu conselho de voltar ao livro, pra ver onde exatamente eu fiquei com raiva dela pq na série, honestamente eu não consegui. Muito obrigada Frini pelo excelente trabalho! Vc arrasa demais <3

  2. Nossa.. são tantas coisas que é difícil até escolher por onde começar. Conheci os Bridgertons através da live da arqueiro. Melhores presentes da pandemia. Eu já fui arrematada nos 5 primeiros minutos que assisti umas 5-6 vezes. Shonda entrega tuuuudo que podíamos esperar do gênero e ainda acrescenta pimenta. Tem uma fotografia impecável, trilha sonora indescritível (“thank You, next”.. morri), personagens humanos (em toda sua pureza e crueza), inclusão racial e sexual natural (como sempre sonhamos), sentimento, calor e sapequices (coisas da live da Arqueiro.. rsrs). Concordo totalmente com você Frini.. quando você diz: concordo com algumas atitudes!? Não. Mas desgosto dos personagens!? Não. Rola uma decepçãozinha!? Opa. Mas julgaremos!? Podemos!? Acho que não (e mesmo que achasse que sim.. não abalaria o afeto que criei pelos personagens).
    Acho que o que Bridgertons nos traz é aquela vontade de sonhar de novo, como sonhávamos assistindo aos filmes da Disney, só que agora com cenas para maiores e alguns questionamentos de brinde.

  3. Adorei a resenha, conheci os romances da Julia Quinn na quarentena por vc e Fernando, como ja sou fã da Jane Austin foi um pulo. Apesar de serem no mesmo estilo, serem totalmente diferentes. A adaptação eu amei também kkk adorei a diversidade e algumas outras personagens como a da Marina (custei a saber quem era) que amarraram muito bem a historia p preparar as outras temporadas q alias coração para de pensar q ainda temos um ano pelo menos na espera

  4. Frini, adorei sua resenha e AMEI a adaptação. Pra falar a vdd, achei os plots secundários ( e mesmo os principais) mais sólidos, e as razões da série mais firmes. Sou partidária da Daphne e entendi as ações dela — mas agradeço por ele não estar bêbado na hora. Achei bem feito, com carinha de produção A. Ansiosa pela segunda temporada ❤️

  5. Estava super ansiosa pra ver a série, ouvi o livro antes pra relembrar detalhes e posso dizer que não me decepcionei. Maratonei de sexta pra sábado e nem dormi.
    Amei a forma que foi feita a adaptação, ver os personagens, o ambiente e a interação entre eles.
    Acredito que mesmo pra quem nunca leu os livros da Julia Quinn vai gostar da série.
    Agora é esperar uma nova temporada! ❤️

  6. Eu particularmente gostei mais da série do que do livro, não desmerecendo a leitura dos livros, não sou tão fã da Júlia Quimm. No entanto amo leituras de romance de época, sou fã de carteirinha de outras autoras, ver uma produção tão cheia de cuidados e carinho com o gênero de romance, fico extremamente feliz com a abertura

  7. Amei demais sua resenha Frini, colocou o que pensei e o que venho falando nos grupos que participo. Teve mudanças? Teve, mas não diminuiu os livros e sim aumentou a Maravilha que são eles, pois podemos ver nossos personagens em pessoas reais. Ver um ator negro como principal encheu meu coração, me senti representada e que Duque perfeito foi Regé. Eu fiquei encantada com a série, os personagens, mesmo com as mudanças, pois sei que é necessário para a próxima temporada e crescimento dos outros personagens. Eu amo demais a Penélope, ela foi perfeita demais. Que possamos aproveitar mais e reclamar menos por ter uma oportunidade de ver livros que amamos ganhar uma adaptação tão bem feita.

  8. Eu amei sua resenha!
    Conheci Julia Quinn nas lives da Arqueiro, assim como outros livros, escritores e escritoras maravilhosos!
    A série foi glamourosa, mas não conseguiu ser melhor que o livro.
    Romances de época nos mostram a possibilidade de entender o passado, e valorizar o presente. ❤️

  9. A felicidade foi grande após tanto tempo aguardando e compartilhando a expectativa da da estreia da série com outros fans da escrita da Julia Quinn. Foi uma experiência muito interessante! Senti falta de alguns detalhes do livro e me encantei com outros trabalhados na série assim como a Frine discorre na resenha. A forma como a Frine escreveu sobre o porque ela é muitas pessoas, assim como eu, gostão tanto dos Romances de Época me deixou emocionada! Obrigada!❤️

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