Observando estantes

O que acontece com uma bibliófila que ama passear em livrarias quando é obrigada a ficar meses em casa? Passa observar com cuidado a estante de todos os comentaristas que entram ao vivo de suas respectivas casas. As estantes de livros de comentaristas viraram memes, vídeo no Porta dos Fundos e existe até um cenário de estante sendo vendido online para que se faça bonito em lives ou mesmo reuniões.

Na minha abstinência de namorar estantes pelas livrarias passei a prestar mais atenção no cenário dos comentaristas do que neles. Reconhecer lombadas, descobrir os livros, reconhece-los, pesquisar sobre eles, passou a ser um ótimo e estranho passatempo nesses tempos de quarentena.

ARIEL PALACIOS

O correspondente da GloboNews em Buenos Aires é o precursor dessa estética “tenho estante de livros”. Ariel faz entradas ao vivo em diversos programas do canal a cabo há anos direto de sua casa na capital Argentina. Sua estante é famosa bem antes da quarentena. A apresentadora do Estúdio I, Maria Beltrão, já enaltecia e chama atenção para estante muito antes do Corona Vírus aportar por aqui. Quero destacar que adoro a arrumação da estante que mistura os livros com Minions (os do filme mesmo), Funko e até um boneco do próprio Ariel.

Tive dificuldade de ler as lombadas na estante do Ariel e só consegui identificar dois.

O Dia D (El Dia D – na estante do Ariel tem a versão em espanhol)

O livro do historiador Antony Beevor é considerado um clássico sobre a famosa batalha que selou o destino do Eixo na Segunda Guerra Mundial e deu aos aliados o caminho da vitória contra os nazistas.

Adoro livros de história, mas ando meio saturada de narrativas e fatos sobre a Segunda Guerra Mundial. Foram tantos filmes, documentários, livros de ficção ao não passados nesse período que ando escolhendo não ler sobre isso nesse momento. É verdade que todo o livro de história que alcança o status de best seller me seduz (sim, eu uso qualquer desculpa para adquirir livros). Coloquei a minha lista para futuras aquisições e na lista de possíveis presentes para os muitos amigos que tenho que adoram ler sobre a Segunda Guerra.

Os Romanov

Não é a edição brasileira que consta na estante do Ariel, a dele é bem mais bonita. A Edição brasileira tem uma capa com imagem dos czares Russos em uma capa marrom, a edição americana e a portuguesa têm capa verde e dourada, em mais bonita. Eu busco edições mais bonitas de livros, se o conteúdo é o mesmo porque não ter um que seja mais bonito, não é mesmo.

O livro de Simon Sebag Montefiore conta os quase 200 anos dos Ramanov no poder. Famílias reais, ascensão e queda, estão entre meus temas favoritos de leitura. Como conheço bem pouco da história dos Romanov, sei mais sobre como eles foram mortos do que como eles governaram, resolvi colocar o livro na minha lista de futuras aquisições. Sei que os Romanov são essenciais para entender a Rússia atual e a estratégia do Putin de enaltecer a Grande Rússia para permanecer no poder. Nada como ler sobre ontem para entender cada vez melhor o hoje. Queria só uma edição brasileira tão bonita quanto a que o Ariel tem.

ANA FLOR

Não é fácil ver a estante da Ana Flor. Ela normalmente faz seus comentários do estúdio de Brasília e mesmo quando faz de casa nem sempre a estante aparece. Sim, eu assisto jornal demais e me dediquei a construção desse post.

O Reino e o Poder

Um clássico do jornalismo. Escrito por Gay Talese o livro conta a história do jornal The New York Times, mostra as disputas de poder dentro no jornal e as relações entre a instituição e o Poder, com P maiúsculo mesmo.

Aquece meu coração ver a Ana Flor tem a edição antiga de capa preta. Li ainda na faculdade e ver ali na estante da comentarista me fez busca-lo na minha estante, minha edição também é essa mais antiga, e deu vontade de reler sob a ótica da crise que o jornalismo impresso e o jornalismo em geral se encontra. A Era da pós-verdade, dos “fatos alternativos” e das fake News. É desses livros que tem morada eterna na minha pequena biblioteca particular.  

Clarice

2020 é o ano do centenário de Clarice Lispector, sua obra está sendo reeditada em edições lindas. Vale ler Clarice em qualquer edição, sempre. O livro em questão não é da Clarice e sim sobre ela. É a premiada biografia da escritora feita por Benjamin Moser.

O livro é ótimo. Sou fã de Clarice desde os tempos de colégio e ler a biografia (li quando lançou) me fez revisitar alguns textos dela, me fez reencontrar o que me encanta na obra de Clarice.

Minha Fama de Mau

Bem ao lado da biografia da Clarice está a autobiografia de Erasmo Carlos (Ana arruma as estantes por temática?). Erasmo é um ícone da música nacional e o livro foi adaptado para o cinema em filme com o mesmo nome.

Erasmo tem histórias para contar que vão muito além de sua parceria com Roberto Carlos. É um dos livros que mora há anos na minha estante Tsundoku (palavra japonesa que expressa o ato de se comprar livros e não lê-los). Ao vê-lo na estante da Ana e identificar a lombada bateu aquela culpa de nunca ter chegado a ele, de ter passado tantos livros na frente. Coloquei ele no topo da pilha, mas ainda não abri para mergulhar na Tijuca dos anos 1950/60 e no inicio do rock nacional. Quem sabe dessa vez ele não muda de status na minha modesta biblioteca?   

MIRIAM LEITÃO

A estante da Miriam é muito profissional, os livros são etiquetados o que revela que um bibliotecário passou por ali para organizar a biblioteca. A estante da Miriam é a que reconheço mais livros de todas, optei por selecionar três (roubei um pouquinho nessa conta).

Lava Jato

Miriam tem livros dos filhos na estante também. Vladimir Neto escreve sobre o inicio da Operação Lava Jato. Esse livro foi matéria prima para a série “O Mecanismo” da Netflix.

Lava Jato ainda está acontecendo, perdeu a força e a impacto que tinha quando o livro foi lançado, mas ainda está viva. É bem interessante ver o desenrolar da investigação que acabou varrendo a cena política e empresarial do Brasil. Ainda vamos sentir por um bom tempo os efeitos do que essa operação representa. É uma leitura fácil e conta com o fato de que o leitor de hoje viveu e foi impactado por tudo o que é relatado e talvez isso seja o que mais me incomodou desde a leitura, a falta de distanciamento histórico para entender melhor o significado daquele todo. É um incomodo que acomodei no fato de que escrever no calor do momento carrega um peso e um impacto impossível de se encontrar em qualquer obra com distanciamento histórico e esse peso emprega uma outra camada de importância no longo prazo.

Saga Brasileira

Ter seu próprio livro na estante é chique e Miriam tem. Ela tem a edição mais nova, a minha tinha outra lombada. Tinha porque dei meu livro para um grande amigo e fã da Miriam em um período em que o livro ficou fora de catálogo. O presente foi, inclusive, com autografo da autora.

Saga Brasileira fala sobre a guerra que o Brasil travou para derrotar a hiperinflação. Vivi parte do que ela relata ali, lembro da transição para o Real e ler sobre como tudo foi elaborado me fez viajar no tempo e na minha própria história é também uma das primeiras resenhas aqui do site. Em tempos de tanta descrença com política e sempre bom lembrar que nós como país conseguimos vencer algo que, por décadas, pareceu um trabalho hercúleo e que possibilitou uma série de avanços que vivemos hoje. Estou e tornando repetitiva, eu sei, mas o reforço é necessário. Saber o ontem é essencial para entender o hoje e esse livro é ainda uma ótima leitura.

Coleção do Elio Gaspari

Eu adoro a coleção do Elio Gaspari (5 livros) sobre a ditadura militar brasileira, ela consta até da nossa Biblioteca essencial. Os livros da Miriam são da edição da Intrínseca, eu tenho nervoso de livros de coleção em edições diferentes, mas abri uma exceção para essa coleção. Os quatro primeiros livros eu tenho da edição da Companhia das Letras e o último da Intrínseca, foi assim que eles foram lançados, mudaram de editora no meio do caminho e assim permanecerão na minha biblioteca. Em qualquer edição vale, e muito, a leitura.

Nos cinco livro Gaspari conta a chegada ao poder e a derrocada dos militares, fala da disputa entre a ala radical e a moderada, sobre as conspirações, a tortura e tudo mais que aconteceu nos 21 anos em que vivemos sem democracia. Conhecer nossa história é condição fundamental para evoluirmos como sociedade e os livros do Gaspari jogam luz sobre um período da nossa história que deveríamos conhecer e debater mais. A ditadura militar brasileira é uma ferida bem mal cicatrizada na nossa história como mostra os pedidos de intervenção militar me manifestações em pleno 2020.

GUGA CHACRA

Baseado em Nova York, Guga Chacra, fazia a maioria de suas entradas em jornais e programas direto do escritório da Globo na cidade. Com a quarentena Guga, conhecido por seus cabelos despenteados – ele tem sempre uns elásticos no dedo também (muitas horas assistindo jornal, gente) – tem como cenário uma estante recheada de livros sobre o oriente médio. Dois livros que estão empilhados a direita dele já estão no meu kindle na fila para serem lidos e, sim, eu descobri esses livros por causa da estante dele.

A History of Iraq

Iraque é daqueles países que, para quem como eu cresceu nos anos 80, é sinônimo de guerras e conflitos intermináveis. As imagens da primeira Guerra d o Golfo na TV são uma daquelas lembranças que tenho de criança, guerra ao vivo era coisa de outro mundo na época. O que posso dizer o mundo era muito menor no final século passado.

O livro de Charles Tripp é no inicio desse século e teve atualizações para abranger os mais recentes conflitos no Iraque. Meu interesse se baseia nos conselhos dados pela TED da escritora Chimamanda Adichie chamado “o perigo da história única” onde ela alerta que as narrativas sobre povos, nações, continentes muitas vezes são monotemáticas e fazem com que se perca a visão mais ampla. O Iraque não é apenas guerras e conflitos e para desconstruir essa conexão que está entranhada em mim nada melhor do que a leitura, não é mesmo?

Children of Armenia: A Forgotten Genocide and the Century-long Struggle for Justice

O livro fala sobre o genocídio Armênio, algo que os Turcos negam, até hoje, que tenha existido. Nunca ouviu falar no genocídio Armênio? Pois é, exatamente essa é a questão: porque não sabemos nada sobre ele? As Kardashian, de descendência Armênia, andaram falando sobre o caso e fizeram algum barulho.

Meu interesse não tem nada a ver com elas. Há uns anos, em uma viagem a Argentina, entrei numa catedral para visitar e estava começando uma missa, fiz o que sempre faço nessas situações, sentei para assistir à celebração. O padre começou a falar e não conseguia identificar a língua em que a missa estava sendo celebrada. Só quando terminou descobri que era uma missa pelo genocídio Armênio que, até aquele momento, eu nunca tinha ouvido falar sobre. Quando vi o livro na coleção do Guga, fui ler sobre e, imediatamente, coloquei na minha lista de compras literárias.

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