Coluna

Resgatando a adolescência com séries antigas

Eu não sei quanto a vocês, mas eu decidi resgatar a minha adolescência durante a pandemia.

Quase todo dia depois do trabalho, lá pelas 20h, eu começava a ver seriados antigos. Dawson’s Creek, Smallville, Buffy, Angel, Friends… you name it. Vampire Diaries foi o primeiro que eu terminei. Vi tudo do início ao fim. Aquela angústia adolescente misturada com surrealismos vampirescos. Foi divertido. Me inspirou a voltar a escrever num diário e a começar um novo projeto. O mais curioso, no entanto, foi que eu descobri que nunca tinha ido até o final da série – e eu li os livros, trabalhava na Galera Record, inclusive, quando a série foi publicada, e acompanhava quando passava na tv. Em algum momento devo ter abandonado pensando “sou muito adulta pra isso” e agora, com 34 anos, tudo o que mais queria era entrar em contato com essa série que tinha visto há mais de 10 anos. Vocês podem imaginar o quanto minha psicóloga adorou isso, né? “Tentando resgatar alguma coisa do passado, mas o quê?”

Quando acabou, eu passei pra Angel. Outra história de vampiro. A imortalidade batendo com força no meu consciente e inconsciente. Por que diabos eu estava querendo viver um momento imortal por tabela? Talvez, se eu continuasse assistindo, descobriria. Mas tinha alguma coisa faltando, e eu sabia que antes de rever Angel, eu devia rever Buffy, embora em 2013 eu tenha feito essa maratona enquanto eu me recuperava de uma cirurgia e fiquei 20 dias de cama, sem poder me mexer.

Buffy foi minha melhor companhia nessa época. De alguma forma, a impotência, a incapacidade de trabalhar, de me mexer, de escrever, de ler… Buffy preencheu tudo isso. A série e seus personagens riquíssimos eram meus melhores amigos, e eu não estava sozinha. Talvez fosse melhor rever Buffy, algo mais divertido e cinema B, sem o trocadilho da letra, juro, antes de continuar com os episódios mais escuros, chuvosos e noir de Angel. Ah, que decisão deliciosa. É incrível o que deixamos passar quando perdemos o contato com nosso eu do passado adolescente.

Ainda assim, eu não tinha descoberto o que exatamente eu estava buscando nessas séries antigas, séries de 10, 20 anos atrás. Se fosse só pela nostalgia, eu continuava vendo Friends, como sempre faço, na verdade. Acho que já fui do episódio 1 ao último mais de três vezes em muitos anos. Mas não se tratava de uma busca por nostalgia ou lembranças. Eu estava realmente buscando algo, uma resposta, ou, como ficou claro depois que terminei a segunda temporada de Buffy, algo que eu havia perdido com o tempo e queria recuperar, embora não soubesse o quê.

Então, eu comecei a rever Dawson’s Creek. Eu já tava revendo antes da pandemia, pra ser sincera, revi a primeira temporada inteira, mas tinha parado. Aí fiquei pensando em Pacey, um dos meus primeiros crushes da vida, e resolvi continuar revendo. E foi aí, meus caros, que gradativamente, a cada episódio, eu entendi finalmente o que eu estava buscando. Foi no início da terceira temporada, apenas, que a ficha finalmente caiu.

Não é nenhum absurdo dizer que a pandemia, para quem a respeitou ou pôde respeitar, nos tornou mais introvertidos, reflexivos. Eu sempre analisei muito minha ações, meu passado, meu presente e meu futuro, adoro meditar, então não foi nenhuma novidade pra mim ter que conviver comigo mesma o tempo todo. Foi até bem fácil. No entanto, eu tive que, além de conviver comigo mesma, conviver com um tempo maior de contemplação da minha vida, principalmente nos finais de semana, quando eu costumava sair muito. E eu percebi, como qualquer pessoa com tempo para refletir sobre a própria vida, que eu havia me perdido em algum momento nos últimos anos. Eu olhei para trás, para minhas desilusões amorosas, meus empregos, minhas escolhas, e vi que eu não sorria mais como antigamente, não sentia mais o dia a dia, não me deixava pertencer ao que eu estava vivendo. Era como se eu estivesse sempre esperando o segundo seguinte, sempre em busca do conceito “é uma fase, preciso passar por ela, daqui a pouco passa”, em vez de experimentar a dor e a felicidade, como elas se mostram.

Foi a combinação de uma frase de Buffy e uma frase da Joey que me fez finalmente descobrir o que eu buscava ao rever essas séries que eu amava assistir na adolescência. O fato de eu achar que, ao envelhecer, tinha me perdido no caminho e sentir falta da Vivi do passado que costumava sentir mais e rir mais. Em algum momento, eu virei tão racional e prática que eu esqueci o que significa “sentir”.

E curiosamente, coincidência ou não, justamente agora que eu me mudei da casa que morei por toda a minha vida e, pela primeira vez, me vejo morando sozinha, colocando tudo em perspectiva, tendo que resolver sozinha coisas essenciais como consertar o chuveiro para ter água quente, é que eu percebo o quanto me fez falta sentir. Sentir qualquer coisa. Sentir por mim e pelo outro; sentir durante a caminhada que faço todos os dias de manhã; sentir pelo projeto novo no trabalho; sentir pelos amigos e pelo que eles estão passando, sentir pelos amores que eu negligenciei e não me permiti viver. Sentir pela vulnerabilidade em mim mesma que nunca permiti afluir e principalmente nunca deixei ninguém ver.

Eu precisava entrar em contato com a criança que acreditava em amor, em amizade e no mundo. E a maneira que encontrei de fazer isso, principalmente durante a quarentena, foi assistir a essas séries antigas.

Vai entender.

Sigo assistindo à terceira temporada de Buffy, à terceira de Dawson’s Creek, à segunda de Smaville, à primeira de Friends e à segunda de Angel. Quem sabe eu não encontro mais valores e positivismos perdidos da época da adolescência e me permito viver mais aqueles momentos pelos quais valem a pena die for?

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One thought on “Resgatando a adolescência com séries antigas
  1. Também estou revendo Buffy, mas, 20 anos mais velho que vc tenho outra relação com ela. Acho que para mim foi uma forma de me conectar a outra geração, de passar por uma metamorfose deixando pra trás parte do que tinha sido até ali (nunca nos desfazemos de tudo).

    Rever agora está sendo meio dolorido… A turma sofre muito com a dificuldade de construir e manter confiança.

    Apesar de não me sentir assim tem sido difícil ver a solidão… É isso… Não me refiro à solidão de outros, mas da falta que sentimos do nosso futuro…

    Tô cuidando do presente há muito tempo!

    É isso. No meu caso acho que estou revendo para me lembrar de nutrir o futuro com o presente!

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