Livros

Três vozes negras

Num ano marcado (entre outras coisas) pelos protestos do movimento Vidas Negras Importam, três vozes se destacam e estão entre os melhores livros do ano. São obras que enfrentam o racismo sistêmico nos Estados Unidos. 

N. K. Jemisin é velha conhecida da coluna. Sua trilogia Terra Partida conseguiu a façanha de ganhar prêmios Hugo consecutivos. E de quebra fez um discurso histórico sobre racismo e inclusão ao receber o último. Agora chega com The City We Became (A Cidade que Nos Tornamos), espécie de continuação/ampliação do conto de 2016, The City Born Great. Jemisin imagina as cidades grandes como entidades vivas, que a partir de certo ponto ganham alma e são incorporadas num avatar de carne e osso, geralmente um cidadão comum. Nova York acaba de ganhar vida, e conta com uma ajudinha de São Paulo (a cidade brasileira é mais antiga). Mas esse despertar chama a atenção de uma entidade maligna, lovecraftiana. Então os avatares dos cinco distritos de Nova York têm que se juntar para ajudar o avatar maior da cidade. É uma declaração de amor a NY, e ao mesmo tempo uma alfinetada no racismo de H. P. Lovecraft.

P. Djèlí Clark também é um favorito meu, ganhador do Nebula, e tem sido um prazer acompanhar o crescimento a cada nova história dele. Ring Shout é uma novela de horror sobre racismo com raízes na realidade. Um dos vilões é o cineasta da vida real D. W. Griffith, cujo retrato racista da Guerra Civil americana, O Nascimento de uma Nação (1915), deu novo ânimo aos encapuzados da Ku Klux Klan. Só que aqui a Klan é uma seita com planos de espalhar um terror sobrenatural (e também lovecraftiano) sobre a Terra. Pro ano que vem, Clark promete o primeiro romance mais longo, A Master of Djinn, ambientado num universo rico, detalhado e delicioso em que Fátima el Sha’arawi, investigadora do Ministério de Alquimia, Encantamentos e Entidades Sobrenaturais do Egito enfrenta gênios e assombrações no Cairo no início do século XX.

Tochi Onyebuchi

O americano Tochi Onyebuchi é filho de imigrantes nigerianos. Onyebuchi tem um currículo impressionante: ciência política em Yale, direitos civis em Columbia, mestrado em legislação econômica na França. Viveu nos Bálcãs,  Marrocos, Egito e Cisjordânia. 

Acaba de publicar o segundo volume numa série jovem adulta, War Girls / Rebel Sisters. Neles, a Terra foi devastada, e acompanhamos duas irmãs que atravessam um conflito arrasador na Nigéria, enquanto quem pode foge para colônias espaciais. Mas alcançou a maturidade mesmo com seu primeiro livro para adultos, publicado no começo do ano. Riot Baby é uma novela visceral, intensa, originada daquela raiva que vem da indignação.

Kev é um rapaz nascido no meio da revolta de 1992 em Los Angeles, causada pela absolvição dos policiais que agrediram o negro Rodney King. Ele tem poderes psíquicos mais leves, e acaba preso simplesmente por ser negro. Quando finalmente é libertado, se encontra num sistema tão opressor quanto na cadeia, com um chip implantado que permite que ele seja monitorado e controlado. Ella, a irmã, tem poderes mais fortes e tenta proteger o irmão, mas fica dividida entre libertar toda a sua fúria numa revolta ou evitar o confronto. É um livro tão incômodo quanto necessário, e possivelmente o melhor de ficção científica – ou de qualquer gênero – este ano.

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