A Noviça Rebelde

Existe um vídeo do meu aniversário de três anos (esse aqui) com uma pequena entrevista comigo, a primeira pergunta é a clássica “o que você quer fazer quando crescer?”, a minha resposta explica bastante porque estou escrevendo esse post: “quero colocar a fita da Noviça Rebelde sozinha no vídeo” (sim, sou da época do vídeo cassete). Um ano depois disso, do alto dos meus quatro anos, em uma viagem, meus pais estavam zapeando pelos canais de filme do hotel e se depararam com Noviça Rebelde, dublado em alemão, e eu disse que queria ver; eles tentaram negociar que o filme estava em alemão, mas minha resposta foi : “eu sei de cor” e disparei na tradução simultânea da cena (sim, eu traumatizei minha família com a quantidade de vezes que os obriguei a ver esse filme).

A história real de uma noviça que se apaixona por um veterano capitão da Marinha Austríaca com sete filhos é um grande clássico do cinema e ninguém costuma lembrar que é também baseado no livro “The Story of the Trapp Family Singers” escrito pela própria Maria Von Trapp. O Livro foi adaptado para o cinema alemão em 1956 com o nome “Die Trapp-Familie” e foi visto por Vicent J. Doneheu que achou que a história daria uma boa peça. Ele não queria fazer um musical, queria apenas uma ou duas músicas, mas a peça acabou na Broadway com músicas de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II em 1959 fazendo muito sucesso. Em 02 de março de 1965, a Fox lançava sua versão cinematográfica da peça. O estúdio estava a beira da falência por causa do fracasso de Cleópatra e apostava em uma inglesa pouco conhecida, Julie Andrews, e nas músicas de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II para sair do buraco. O desempenho da Noviça Rebelde foi muito melhor do que o esperado, tanto que o filme passou a ser conhecido como “The Sound of Money”, em referencia ao titulo original The Sound of Music.

Meu amor por esse musical não me deixa cega ao fato de que ele é datado, faz parte de um período de Hollywood em que filmes tinham intervalo, e os musicais tinham uma construção mais teatral, ou seja, a musica não fazia a narrativa andar, ela estava lá para ressaltar o momento. É bem verdade que na década de 1960 essas tendências já estavam sendo colocadas de lado, mas é nesse universo que Robert Wise dirigiu o elenco em Salzburg.

“Noviça Rebelde” é um musical bem quadrado; sua maior inovação é a sequencia de abertura que começa em um helicóptero e termina com Julie Andrews cantando o clássico “The Sound of Music”. O mesmo diretor já tinha tentando o mesmo recurso em 1961 na abertura de Amor Sublime Amor com impacto bem menor. Maria girando de braços abertos no topo de uma montanha cantando “The hills are alive / with the sound of music” é uma das cenas icônicas do cinema. Andrews em inúmeras entrevistas disse que foi uma das cenas mais difíceis de ser feita. Toda a vez que o helicóptero se aproximava dela o vento a jogava no chão e a cena tinha que começar novamente; foram muitos takes e muitos tombos até que a cena se transformasse no que conhecemos hoje.

Julie Andrews é o nome mais conhecido do elenco nesses mais de 50 anos de história do filme, mas na década de 1960 ela era uma atriz inglesa desconhecida. Seu primeiro filme, Mary Poppins, ainda não tinha sido lançado quando começou a filmar Noviça Rebelde. Christopher Plummer, o capitão Von Trapp, era um respeitado ator de teatro; Eleanor Parker, a Baronesa, era uma famosa atriz hollywoodiana; e Peggy Wood, a Madre Superiora, uma atriz renomada da TV americana. Todos tinham fama maior do que a jovem atriz principal, mas isso mudou de uma hora para outra. Em 1964, Mary Poppins foi lançado, levando Andrews a ganhar um Oscar por sua atuação, e sua fama só fez crescer. Não por acaso, quando a atriz entrou no palco da cerimônia do Oscar de 2015, depois da linda apresentação de Lady Gaga, recebeu aplausos acalorados, com gritos de surpresa e êxtase da plateia de famosos. Ela é um ícone da infância de várias gerações diferentes, também tendo cativado muitos como a Rainha Clarisse, avó de Anne Hathaway em Diário de Princesa.

Voltando ao filme, a narrativa se baseia no carisma de Andrews, na ótima química dela com as sete crianças e em um romance pouco provável. O capitão, aliás, é interpretado de forma bem canastrona por Christopher Plummer, ator que já disse e repete que não gosta do filme, e detesta ser reconhecido apenas por esse trabalho. Esse mau humor com o filme parece vir de longe, já que a atuação de Plummer beira o sofrível. A única pessoa que duela com Andrews no filme é Eleanor Parker e sua baronesa — a cena dela assustando a inocente noviça depois do baile é ótima.

O que faz do filme um grande clássico são seus números musicais, que já haviam sido testados no teatro e funcionavam. O que Robert Wise fez foi pegá-las e transformá-las em grandes momentos cinematográficos. Que criança não queria cantar “Do-Re-Mi” com as crianças Von Trapp pelas ruas de Salzburg? Ou se emocionar com a plateia quando o capitão, com voz embargada, canta “Edelweiss”? São momentos inesquecíveis não só pelas músicas.

Noviça Rebelde é um clássico do cinema porque conseguiu misturar em um filme, a genialidade de um diretor, Wise, o talento de dois grandes músicos, Rodgers e Hammerstein, o carisma de uma estrela em ascensão, Andrews, crianças e Segunda Guerra Mundial. A mistura de tudo isso resultou em um filme que embalou e continua a embalar a infância de muita gente.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: