A revelação de Zima Blue

*texto originalmente postado na minha newsletter. Contém spoilers do curta Zima Blue, da série de animação da Netflix Love, Death & Robots.

Se você resolveu ler este post é porque provavelmente já assistiu à animação, ou não se importa com spoilers, e talvez, como eu, tenha se maravilhado com a riqueza e profundidade da história, tanto que a estendeu na mente para muito além dos dez minutos a que ela se propõe, certo?

Baseada num conto homônimo de Alaistair Reynolds, o curta narra a história de um famoso e misterioso artista que decide conceder uma entrevista final a uma jornalista, antes da apresentação de sua última obra para o mundo.

Beleza. Você começa o episódio pensando “mmm, bacana, fala de arte, o que ela significa pra cada um, o que é e o que ela diz sobre nós mesmos e como podemos nos expressar”. Clássico. Mas foda. Dez minutos depois, descobrimos que Zima Blue na verdade é um robô, aperfeiçoado e evoluído ao longos de muitos anos e gerações, e não apenas criou arte e buscou se expressar através dela, como questionou a própria existência e seu propósito na vida. Além do óbvio existencialismo, esse filme fala de tempo, individualidade, pertencimento, verdade, da dualidade entre mortalidade e imortalidade, e ainda te provoca a pensar sobre identidade. É lindo!

Em determinado ponto da nossa vida, todos nós questionamos nossas escolhas, nossos relacionamentos, nossa existência e, da mesma forma que Zima Blue, busca respostas através do conhecimento e da arte, ainda que essa busca nos destrua e desfaça o conceito que temos de nós mesmos, no caso de Zima Blue, literalmente. No entanto, não é exatamente isso que experimentamos diariamente? A destruição de nós mesmos e a construção de algo novo? O que é a construção de um conceito senão a desconstrução de pensamentos e ideias?

Zima Blue buscou todas as formas possíveis de se conhecer a verdade, nos planetas, nos astros, no universo, viveu uma eternidade em busca de alguma resposta para sua existência e no final, tendo encontrado talvez paz em sua forma de encarar a simplicidade de apenas ser, decide retornar ao estado inicial de sua vida, quando era apenas um robô primitivo, encarregado de manter a piscina limpa. Ainda uma excelente metáfora do existencialismo, de retornar às raízes, como nosso glorioso ciclo da vida, com a diferença que, no caso de Zima Blue, ele teve a escolha e o poder de determinar o fim do ciclo. Mas sabemos que não é só isso. E todas as perguntas que surgem desse tema, desse personagem, desse filme, que continuam sem respostas?

O que tudo isso quer dizer? Que buscamos aprendizado e nunca estaremos satisfeitos? Que são tantas questões que não conseguiremos responder tudo? Nossa mente não é capaz de absorver mais do que fomos programados para aprender? Nossa arte expressa quem somos ou quem queremos ser ou os dois? Queremos nos expressar para ter imortalidade, para pertencer ou para descobrir algo? E por que a necessidade de se expressar para obter qualquer uma dessas coisas?

Acho interessante o paralelo que eu fiz com o iceberg do processo de criação e a arte finalizada. Zima Blue apresenta todas as suas obras finalizadas para o mundo, que fica atônito e embasbacado com sua genialidade, mas de forma alguma o mundo tem como entender em sua totalidade o que foi necessário fazer e buscar para tornar aquela obra o que ela é. Zima Blue, então, decide expor para todos a obra em seu processo, aquilo que a Globo não mostra, a nudez de sua criação, o momento em que ele mergulha numa piscina, se desfaz completamente, até encontrar seu eu original e revelar sua identidade, a verdadeira obra. A questão é que Zima Blue faz isso tudo literalmente. Para o resto de nós o mergulho, a desconstrução e a revelação de quem somos é apenas uma metáfora. Poderosa, mas pouco eficaz se não a levamos a sério. Desde criança falo que me sinto nua quando alguém lê o que escrevo e é exatamente por esse motivo.

Well… é um filme com tantas camadas que quanto mais você vê mais você enxerga possibilidades de temas. De certa forma, em uma das vezes que assisti, senti como se o filme estivesse me contando uma história sobre privilégios e preconceitos, paradoxalmente através do ponto de vista de um personagem negro, portanto parte de um grupo oprimido e não privilegiado. O privilégio que eu vi, no entanto, nada teve a ver com a cor da pele. De um lado tinha a ver com profissão e oportunidades e do outro, o tempo.

Zima Blue era um robô que limpava piscina, nada mais podia ser além disso, com as limitações que sua realidade na ocasião impunha. Sua realidade mudou, no entanto, quando a dona da casa resolveu desenvolver e ampliar suas capacidades. E por gerações ele teve ajuda e foi capacitado cada vez mais. É de certa forma um robô sortudo por ter tido essa oportunidade, num mundo em que muitos não dariam voz a um robô cuidador de piscina, embora o mundo não tenha sido apresentado dessa forma no filme e eu que o veja assim por estar projetando o mundo em que vivo, hehe. E por outro lado, Zima Blue é mais privilegiado do que qualquer humano, que jamais poderia alcançar o mesmo nível de conhecimento simplesmente por não ser capaz de viver tanto tempo.

Salvo limitações cognitivas, uma questão é que, dado o devido tempo e a devida oportunidade, todos nós temos potencial para desenvolver habilidades artísticas e intelectuais, ao contrário do que muitos preconceituosos julgam. Tem gente fazendo podcast de entrevistas com pessoas aleatórias e até mendigos, com pensamentos filosóficos à altura de Karnal e Cortella. Mas a gente não costuma pensar muito sobre o que essas pessoas têm a dizer. Posso estar errada, mas eu diria que, se Zima Blue tivesse tentado vender sua primeira obra artística dizendo “oi, eu limpo piscina de 8h às 19h e no meu tempo livre eu pinto, e gostaria muito que você desse uma olhada na minha arte”, teria recebido um NÃO astronômico. Costuma ser bonito depois que a pessoa já é famosa e diz que teve uma infância difícil, aí todo mundo diz “nossa, fulano é batalhador, gente como a gente”, mas aí já é um outro assunto sobre fama, fanatismo e valores e melhor não misturar as coisas.

Enfim, de qualquer forma, toda essa metáfora de privilégios e oportunidades é só mais uma dos milhões de camadas que identifiquei nessa animação, e nem é a mais importante, mas me fez refletir e como não vi mais ninguém falando sobre isso resolvi comentar. Fique à vontade para achar tudo uma tolice. Numa entrevista com os diretores e ilustradores, o ilustrador Robert Valley disse que achava muito curioso como cada um surge com uma visão diferente sobre a história, e que teve um cara inclusive que acredita que a animação fala sobre a terra ser plana. o.O Tem louco pra tudo!

Zima Blue não é a única história que me cutucou da série Love, Death & Robots, mas é definitivamente uma das melhores, na minha opinião, provavelmente minha favorita, ao lado de Beyond the Aquila Rift, também adaptação de um conto de Alaistair Reynolds.

A série me inspirou a escrever um conto curtinho de duas páginas que vou publicar em breve na Amazon. Fique ligado e depois me conta o que achou! E sobre a animação? O que você viu em Zima Blue? Quais foram os seus questionamentos?

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