Agosto

No longínquo ano de 1993 eu era uma adolescente indo pela primeira vez a uma bienal do livro só com amigos e comprando uma edição de bolso de “Agosto”. Não lembro o que me levou a compra-lo, pode ter sido o fato de a adaptação do livro estar na TV ou o fato de ter amado “Buraco na Parede”, não sei. Sei que é um desses livros que me marcou e o que eu escolhi para reler em homenagem aos 90 anos de Rubem Fonseca.

Eu tenho um medo danado de reler livros que adorei. Sempre acho que pode estragar por completo a minha lembrança da experiência. Afinal, há livros que não envelhecem bem com nós leitores. “Agosto” é um desses livros importantes na minha formação como leitora, Rubem Fonseca é o primeiro autor que lembro de ir pegar na estante de casa e me encantar, de querer ler mais e mais da obra dele e de todos que li “Agosto” tem um lugar especial.

O ano é 1954 e o mês é agosto, talvez o mês mais turbulento da história nacional. O livro começa com dois crimes: o assassinato de Paulo Machado Gomes de Aguiar e o atentado contra Carlos Lacerda na Rua Toneleiros. O primeiro crime é a parte fictícia do livro, o segundo é real e vai levar o Brasil à uma enorme crise política. As investigações do comissário Alberto Mattos do assassinato do empresário são entremeadas com os fatos reais sobre o atentado a Lacerda e toda a crise política que se desenrola.

O comissário Mattos é descrito varias vezes como maluco, é um dos poucos policias que não aceita dinheiro do jogo do bicho, que se preocupa com a superlotação da cadeia e quer sempre seguir a lei. É ele que nos conduz pela sociedade brasileira em 1954, é a sua investigação que nos mostra como o Brasil funcionava quando o Rio de Janeiro ainda era capital da Republica. Mostra os conchavos, a corrupção em todos os níveis e a dificuldade de ser correto. Isso tudo é entrecortado por uma rica reconstituição do clima político daquela mês. As investigações do atentado a Lacerda, a republica do galeão, o enfraquecimento de Getúlio Vargas, a prisão de Gregório Fortunato.

Não sei dizer o que é mais envolvente a investigação do assassinato de Gomes Aguiar ou a crise política. Ambos são descritos de forma a deixar o leitor querendo sempre ler mais e mais. A investigação de Mattos tem a vantagem de ter um final desconhecido, de fazer a cabeça do leitor trabalhar para ligar as peças. Já a crise política sabemos que terminou no suicídio de Getúlio, uma ultima cartada de mestre do político que era acusado de ter jogado o país em um “mar de lama”.

Eu sou fã de romances históricos muito por culpa de “Agosto”, até hoje acho que aprendi mais sobre os últimos dias de Getúlio nas páginas de Rubem Fonseca do que em qualquer aula de história. Nessa minha releitura descobri que o livro é ainda melhor do que me lembrava, li com uma rapidez inesperada até para mim que sou devoradora de livros. É uma leitura imperdível.

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Saraiva Travessa

2 pensamentos em “Agosto”

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