Amigos para a vida

Já aviso que esta resenha contém todos os spoilers e todas as surpresas da leitura. Existem algumas razões que me levaram a revelar as informações da trama ao compartilhar minha opinião sobre ela e vou passar por todas elas aqui. Mas a principal que você, leitor, deve levar em consideração antes de continuar ou não a ler a resenha é esta: se eu soubesse de tudo que vou mencionar aqui, já teria lido o livro antes.

“Amigos para a vida” (de Andrew Norris, tradução de Roberto Muggiati – Editora Valentina) me conquistou quando a sinopse dizia que Francis, um menino que sofre bullying por ser “diferente” faz amizade com Jessica, que é uma fantasma. Falou “fantasma” eu já tô me interessando. Aí eu pedi nossa parceira Editora Valentina, que me encaminhasse um exemplar porque eu precisava ler sobre a amizade entre uma fantasma e um jovem estilista (sim, Francis manja MUITO de moda) e como isso o ajudaria a passar pelo bullying. Mas “Amigos para a vida” é muito, muito, muito além disso.

Interessante que tenha lido o livro agora, durante o chamado “ setembro amarelo”, quando a luta diária contra a depressão e o suicídio ganha mais notoriedade. Porque é exatamente sobre isso que o livro é: sobre como crianças saudáveis e com uma vida inteira pela frente, ficam doentes por causa do bullying e como essa doença se agrava ao ponto delas pensarem em acabar com tudo. E isso, infelizmente, não é só ficção. Muito pelo contrário: o número de crianças e jovens que contemplam ou infelizmente tiram a própria vida sobe.

Como evitar isso? Como realmente proteger as crianças e os jovens?

Fazendo exatamente o que esse livro aborda por meio de seus personagens: ouvindo o que eles têm a dizer, validando suas tristezas, formando uma conexão com outras pessoas. Não é só o papel dos “mais velhos / adultos / responsáveis” ajudar, mas da galera que tem a mesma idade, que vê o bullying sendo cometido e pode impedir, que pode chegar junto e falar “aquilo não foi legal. Como posso te ajudar?”.

No livro, Francis é nosso protagonista. Ele mora com a mãe em uma casa e é completamente apaixonado por moda. Desenha modelos e costura muito bem e por isso, é ridicularizado na escola porque, afinal, mentes pequenas não consegue entender pessoas extraordinárias. Então, ele conhece Jessica no pátio da escola, durante mais um recreio solitário. Jessica, por sua vez, está muito feliz em conhecê-lo, porque ninguém consegue vê-la ou ouvi-la. Então os dois formam uma amizade até que Andi, uma menina baixinha e muito atacada entra para o trio de amigos. E então Roland – um garoto muito alto e gordo – se junta ao grupo por também sofrer bullying.

Mas isso tudo acontece não “de repente” ou “do nada”, mas porque os pais dessas crianças acabam buscando ajuda para seus filhos porque eles mesmos não sabem mais o que podem fazer para que eles tenham uma vida de criança “normal”, com amigos e escolas e viagens de fim de semana. Mas juntos – e com a companhia de Jessica – eles encontram uns nos outros o apoio que não tinham antes.

Em um momento, um deles diz que a amizade deles se formou porque foi influenciada pela presença de um fantasma. Mas o outro personagem responde que não, que era amizade que faltava para eles e que eles se acharam. Esse apoio que um oferece ao outro, sem julgamentos, sem cobranças, é o que faz a diferença para todos. É o que levou todos eles a pensarem em “acabar com tudo” em algum momento.

Esse é o grande spoiler do livro: Jessica tirou a própria vida. E, junto com o trio formado por Francis, Andi e Roland, entende que precisa salvar outras crianças para, então, poder seguir em frente. E é isso que eles fazem, juntos, e mais adultos se envolvem nessa busca por ajuda que é tão importante.

Quando pensei em escrever essa resenha abordando pontos-chaves do livro, nem passou pela minha cabeça que estragaria a leitura de vocês porque realmente não estraga. A narrativa do livro é bem jovem e quase infantil, mas é sua temática que o torna tão necessário. É uma temática complexa, real, necessária de ser abordada e é essencial que saibamos que está nas páginas para que sua capa fofinha não nos faça acreditar que é uma história leve e superficial entre um rapazinho e uma fantasma. Não é. É muito mais.

“Amigos para a vida” mostra os dois lados da depressão. A cena que é o ponto de virada do livro é linda e muito forte. É quando eles  todos revelam seus pensamentos, seus medos e entendem que foi isso que os uniu. Eles compartilham a tristeza que chamam de “Fundo do Poço” que os levou a pensar em acabar com tudo. E eles falam sobre como outras pessoas da família deles sentiriam saudade, sobre como amigos que nem chegaram a ter ainda teriam sido perdidos. E ainda temos o ponto de vista de uma pessoa que acabou sim com tudo: a fantasma Jessica.

“Amigos para a vida” não é gatilho, mas uma chamada para acordarmos. Se sofremos bullying, esse livro é uma luz no fim do túnel para que possamos buscar ajuda. Se vimos outras pessoas sofrerem, esse livro mostra como podemos ajudar.Se já perdemos alguém para essa tristeza, ajuda a ajudar outras pessoas para que possam aproveitar momentos que nossos entes queridos não conseguiram viver para ver.

Não leiam o livro com medo. Ele não é triste, ele é esperança e é um chamado para a responsabilidade.

Que a prevenção ao suicídio não se resuma a um mês e a uma cor.

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