As Crônicas de Gelo e Fogo

A primeira coisa que pensei quando comecei a escrever essa resenha foi: “Como falar sobre As Crônicas do Gelo e do Fogo sem dar spoilers?”. Bom, inicialmente me pareceu uma tarefa muito árdua. Estou na metade de A Tormenta das Espadas (terceiro livro da série), sei que ainda há muito por vir, mas já há informações que simplesmente grudaram no íntimo do meu ser e parecem inerentes à existência dos personagens. Então me pareceu difícil conseguir falar sobre a saga sem dar informações que vocês só saberão se ler, e que fazem TODA a diferença na leitura da série. Mas como eu sou uma ativista anti spoilers, vamos lá. Tentar falar sobre Guerra dos Tronos e Fúria dos Reis sem, contudo, falar demais.

Em primeiro lugar vou dar um conselho (que eu quero acreditar que não é um spoiler), que é imprescindível para bem conviver com a série: Não se apegue a personagens. As pessoas mudam, nós sabemos, é claro. E nisso As Crônicas do Gelo e do Fogo não deixam em nada a desejar quanto ao mundo real. As pessoas mostram um lado cruel que você não imaginava. Mostram um lado bom que você não imaginava. Mostram-se de lado nenhum (ou mesmo dos dois lados) e você fica na dúvida se deve gostar delas ou detestar. Mas especialmente, as pessoas sofrem, são injustas e injustiçadas, e tristemente morrem. Posso resumir meu pensamento sobre os livros em uma frase: George R. R. Martin criou um dos mundos de fantasia mais parecido com o mundo real que eu já vi.

Neste mundo, o lendário cavaleiro branco de armadura dourada existe. Mas ele se mostra muito menos honrado do que o caveleiriço pobre, feio e mal nascido. Meninas mimadas se tornam grandes senhoras corajosas que desafiam seus superiores. Meninas corajosas que seguem seus princípios não são recompensadas com um belo príncipe. Meros meninos se mostram grandes reis natos. Reis por direito se mostram reles fedelhos. O que era feio se torna belo, e o que aparenta ser magnífico, em seu interior é podridão. Homens desprezíveis são recompensados com ouro. Homens bons e dignos são recompensados com aço. As Crônicas do Gelo e do Fogo tratam de várias tramas, e das tramas ainda mais profundas dentro delas, das intrigas, mentiras e promessas, cumpridas e não cumpridas, do “Jogo dos Tronos”, onde as únicas opções são vencer ou morrer. E no meio de tudo isso – só pra complicar um pouco mais – há o lado da fantasia, com dragões, mortos-vivos, bárbaros, selvagens, lendas que se tornam reais e superstições muito bem fundamentadas.

Há algo de intrigante na narrativa da série As Crônica do Gelo e do Fogo; cada capítulo é escrito segundo o ponto de vista de um determinado personagem. É claro que isso não é algo completamente original, ou exclusivo de Martin, mas o autor se utiliza deste artifício com maestria. Ver uma mesma história ser contada e tomar prosseguimento pela visão de diferentes personagens faz com que você, leitor, possa saber de coisas e visualizar momentos que não poderia se a narrativa fosse centrada em apenas um alguém. Cada personagem passa por situações próprias, sub-tramas, que são praticamente exclusivas do seu universo, mas ao mesmo tempo todos estão envolvidos em tramas maiores conjuntas, onde cada um faz parte dos acontecimentos e os influencia de alguma forma. E, como os personagens são diferentes e, obviamente, vivem vidas diferentes, isso faz, também, com que você conheça opiniões diferentes sobre uma mesma história. O que é simplesmente maravilhoso para o seu cérebro entrar em pane na hora de tomar partido de alguém.

Mas aí Martin nos faz cair em um outro dilema: Quem é o personagem principal? Qual é a trama principal? Em torno de quê tudo acontece? Pois é, aí é que está. Não há. Se você viu o seriado Guerra dos Tronos, da HBO, pode pensar que Ned Stark é o protagonista. Mas apesar de muita história circular em torno do Senhor do Norte, ele não é nosso personagem principal nos livros. Ninguém é um personagem principal nos livros. Os capítulos não tem títulos, mas sim o nome de cada personagem a qual pertencem. Por exemplo, em Guerra dos Tronos podemos ver a história através do que acontece com Jon, Bran, Ned, Dany, Tyrion, e outros. A divisão e a continuidade entre eles são tão perfeitas que você poderia acompanhar apenas a trajetória do seu personagem preferido, que a lógica da narrativa não seria perdida. Confesso que, algumas vezes, quando eu terminava o capítulo de determinado personagem, ficava tão curiosa para saber o que ia acontecer especificamente com ele, que pulava páginas e páginas até o seu próximo capítulo só para saciar minha vontade louca e doentia de auto me dar spoilers. Martin meio que faz isso com você. A história é tão instigante, te captura tão fortemente, que você carrega um calhamaço de seiscentas páginas (no mínimo), para poder lê-lo a qualquer momento que der, em qualquer lugar possível, porque você PRECISA saber o que vai acontecer.

Bom, talvez pudéssemos eleger um personagem principal. Toda a trama da série corre em torno do trono (com o perdão do trocadilho). Toda a história tem a ver com o controle do reino e de seus territórios. Tudo é alimentado por um lado pela sede de poder, dinheiro, tradição e vingança, não importando quem está no caminho. E, por outro, pela necessidade de preservar a honra, manter a verdade, conter déspotas, e fazer justiça, a qualquer preço. O nosso protagonista é um trono de ferro, duro, pesado e desconfortável, mas cobiçado por todos. São tantas histórias, e tantos detalhes apresentados por cada pequeno núcleo, que todas as coroas reais reivindicadas podem ser legítimas ou ilegítimas, e todo mundo quer o seu pedaço por direito – e todo mundo, em sua própria lógica, tem direito – no reinado. Todos os outros acontecimentos são “meras” (muitas aspas nisso) causas e consequências.

As Crônicas do Gelo e do Fogo são da década de 90, e já fazem sucesso há bastante tempo, mas causaram muito furor este ano por causa do lançamento da série da HBO, Guerra dos Tronos. A série faz jus em imagens o que Martin nos apresenta em palavras. Mas imagens são imagens, e elas nunca vão conseguir ocupar perfeitamente o lugar da sua própria imaginação. A HBO fez um trabalho genial, na escolha de atores, no roteiro, na confecção de cenários, na maquiagem, na direção, em todos os pequenos detalhes. Contudo, não consegue chegar perto do nível de detalhamento que o livro tem. O meu conselho é: Se você já leu o livro, e não viu a série da TV, veja. É sensacional ver encarnados cada personagem que você imaginou, tomando vida de uma forma super real. Se você já viu a série da TV, mas ainda não leu o livro, leia. Faça jus aos teus personagens favoritos ou odiados, pois eles são muito mais complexos do que o que você viu simplesmente na TV. Agora, se você não viu a série, não leu o livro, e está lendo essa resenha pra saber se vale a pena, pelos Outros, eu ainda não te convenci?

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8 pensamentos em “As Crônicas de Gelo e Fogo”

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