Como eu me tornei uma viciada em conteúdo em áudio

Quando era criança, ganhei num Natal um som stereo, daqueles de alça que eu podia inclusive carregar para um bando de lugar, se eu quisesse e aguentasse o peso; bastava eu colocar seis pilhas gigantes tamanho A. Esse som, Panasonic provavelmente, agora me falha a memória, durou mais de dez anos. Cansei de o levar pra praia à noite para escutar com os amigos na adolescência e nos luais da vida, quando faltava o violão ou a pessoa que tocava não tinha lá um repertório invejável. O aparelho de som e eu éramos inseparáveis. Eu escutava Kenny G quando estava sofrendo de coração partido, Eurodance quando queria dançar ou fazer faxina no armário ou nas gavetas, gravava programa de rádio em fitas cassetes com meu irmão e amigos, quando a palavra PODCAST ainda nem existia, e dormia ao som de histórias e fábulas da coleção Disquinho. Minha favorita era a história dos Três Porquinhos. Eu nem era mais criança e continuava escutando aquele troço.

Com dezessete anos, comecei a trabalhar e comprei meu primeiro stereo de verdade. Com caixas de som, leitor de três CDs, DOIS toca-fitas, e ainda tinha entrada para USB. Nessa época, eu já não escutava mais a história dos Três Porquinhos, mas de vez em quando ouvia as fitas que eu e meu irmão gravamos na infância com os nossos programas de rádio bregas, afinal, tinham umas músicas ali preciosas do Metallica e Led Zeppelin – lembrando que nessa época eu ainda não tinha acesso a muitos CDs nem internet.

Enfim, tudo isso pra dizer que meu contato com conteúdo em áudio até a vida adulta se resumia a histórias da coleção Disquinho e coisas que ouvia nas estações de rádio, escolhidas por adultos que controlavam o ó glorioso botão no aparelho dos carros pelos quais eu passava. Bem pífia.

E aí, meus queridos, o século virou e o mundo também. De repente comecei a entrar na internet, em chats da UOL, discutir em fóruns, baixar coisas no Kazaa, tudo isso ao som de músicas reproduzidas pelo Winamp. Era lindo. O mundo parecia completo e simples. Pouco eu sabia. Não muito depois disso, vieram os Podcasts e então as plataformas de streaming.

Seja apenas áudio ou audiovisual, o streaming tem uma lógica inteligente e imbatível de otimização de tempo que é inegável em todas as culturas, sendo você adepto ou não da tecnologia, e eu me rendi a ela tão facilmente quanto uma mariposa se rende à luz. Serviços por assinatura, então, nem se fala. Esses caras hoje são responsáveis pela criação e pelo crescimento de consumo audiovisual e em áudio em todo o mundo.

Porém, tirando a história dos Três Porquinhos, confesso que nem sempre fui fã do conteúdo em áudio ou audiolivro, nem mesmo com a facilidade do streaming online e offline. Eu costumava resistir ao podcast por pura preguiça ou “falta de tempo”. Não era algo que eu buscasse ouvir, pelo menos. Se alguém me indicasse um episódio bacana ou um amigo participasse de um, era mais provável que eu ouvisse, caso contrário, podcast era o último canal que eu tinha como fonte de conteúdo. Audiolivro, então, era tipo “o que é isso? É de comer?”

Talvez houvesse dentro de mim uma voz preconceituosa e mesquinha que queria ter total autonomia na leitura dos livros e não quisesse dividir a entonação com outro narrador, porque eu conscientemente evitava ouvir audiolivros, mas, se foi esse realmente o caso, essa voz não existe mais. A urgência e necessidade de obter mais conhecimento assassinou-a sem piedade.

A verdade é que fui obrigada a consumir audiolivros e conteúdo em áudio nos últimos meses pois passei a trabalhar numa plataforma de livros digitais por assinatura (Ubook). Eu precisava conhecer o produto, não para vendê-lo, porque eu fazia a parte do operacional no início e isso não era crucial, mas porque para cadastrar os títulos era necessário eu entender o que estava bom, ruim, e o que funcionava melhor ou não. E foi então que eu descobri que todos os meus receios com o audiolivro se baseavam apenas e puramente na falta do hábito de ouvi-los.

Eu achava que a leitura de alguém que não fosse eu me atrapalharia no entendimento do que estava sendo dito; achava que ia me dispersar fácil porque afinal eu ia querer olhar para os lados enquanto ouvisse algo e qualquer coisa que eu visse interessante me tiraria a atenção do áudio; achava que não ia conseguir lembrar de nada do que tinha acabado de escutar; achava que ia levar o dobro de tempo para terminar um livro ouvindo em vez de lendo; e muito mais. Sabe o que eu descobri? Que eu estava 100% certa. Foi exatamente o que aconteceu comigo não apenas no primeiro audiolivro que escutei, mas no segundo e no terceiro, até que finalmente no quarto eu comecei a sentir o que provavelmente eu devo ter sentido quando li o quarto livro da minha vida, lá atrás, na minha infância, e não lembrava: que a absorção melhorava com o hábito.

Não tem segredo. Não é magia. A gente só aprende a fazer algo com a prática. Se eu sei interpretar texto hoje (e eu espero que sim!) é só porque li uma parcela admirável de livros durante toda a minha vida. Muito provavelmente em alguns meses, quando tiver escutado mais de trinta, cinquenta, cem audiolivros, minha concentração vai ser muito melhor do que é hoje, que só consigo ouvir quando estou no metrô, na academia ou em casa deitada na cama – ainda não consigo ouvir com o celular na mão fazendo outras coisas.

Audiolivros não vão substituir os livros impressos. Eles se completam. Você os adquire em momentos diferentes. Você não tem como ler algo, impresso ou digital, enquanto dirige, toma banho, faz exercícios, faxina, se desloca de um lugar para o outro.

Eu tive que insistir no audiolivro, afinal, trabalho com isso e acabei sendo promovida para um cargo que, agora sim, é crucial que eu entenda do assunto para vender o produto, e não apenas cadastrá-lo, mas, se não fosse essa insistência, essa prática, eu jamais saberia o quanto minha mente é capaz de memorizar, absorver e se concentrar num conteúdo apenas de áudio.

E isso tudo fez com que eu curasse minha preguiça por podcasts. Há alguns meses, eu só escutava Matando Robôs Gigantes e um ou outro podcast porque conheço as pessoas envolvidas no projeto, hoje escuto muito mais porque sei que é uma forma muito eficiente de adquirir conhecimento. Excelente forma também de treinar outro idioma, por exemplo. Em grande parte, admito, venho consumindo áudio, porque tenho acesso a uma plataforma de streaming por assinatura que me oferece milhares e milhares de títulos a qualquer instante, online ou offline, livros, notícias, jornais e podcasts. Isso me ajuda a testar, brincar, clicar em vários conteúdos até encontrar aqueles pelos quais me interesso o suficiente para ouvir até o final. Mas agora que conheço esse mundo é impossível não querer espalhar a palavra.

Sei que muitos ainda têm resistência ao audiolivro, apesar de nem ser uma tecnologia nova; e eu entendo, de verdade, mas a infinidade de possibilidades que ainda podem ser exploradas com isso tudo é fenomenal. É impossível não se empolgar.

O que aprendi nos últimos tempos é que o tempo ficou mais curto e o mundo muito mais interessante, e, se eu pretendo acompanhar as mudanças e aprender cada vez mais sobre ele, as ciências da natureza e das pessoas que nele habitam, não posso depender apenas da forma tradicional de aprendizado, porque o tempo que eu posso reservar pra isso é muito limitado. Eu preciso de alternativas. Eu preciso de opções para cada momento.

A consciência disso me tornou uma viciada, no bom sentido, em conteúdo em áudio, tenho até usado isso como desculpa para ir mais à academia e caminhar na praia. Quem diria… E olha só, apesar de tudo, nunca mais escutei a história dos Três Porquinhos. As histórias do Neil Gaiman, no entanto, e ainda narradas pelo próprio, têm me feito companhia diariamente. <3 É como se eu tivesse um Neil Gaiman particular me acompanhando para o trabalho todos os dias, deitado na cama comigo sussurrando ao meu ouvido e me contando histórias durante o café da manhã. Não tem preço.

Recomendo o hábito se não pelo conhecimento pela experiência, e principalmente pelo exercício de ouvir o outro.

2 comentários em “Como eu me tornei uma viciada em conteúdo em áudio

  1. Olá, boa noite: li o seu texto e fiquei me perguntando se vc. recomenda alguma ou algumas plataformas de audiolivros (gratis ou pagas).

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