Desventuras em Série – A série

Por favor, não leia essa resenha. Ela é ridícula, horrorosa,cansativa, constipante, o que quer dizer aquilo que dá constipação, uma sensação que com certeza não é nada boa. Aposto a minha honra que você tem algo mais interessante e agradável para fazer do que ler este texto, como nadar com tubarões, lavar o vaso sanitário daquele bar na esquina, ou mesmo dar uma topada bem forte e perder a unha do dedão do pé. Você continua aqui? Pois bem, eu avisei.

Desventuras em Série é o tipo de leitura ame-a ou deixe-a. Eu, por exemplo, amei desde o primeiro parágrafo, e engoli os 13 livros em cerca de 2 semanas. Meu esposo destetou e abandonou no terceiro livro. Desventuras não é algo com que todo mundo saiba lidar, não dá margem para meio termos.

Quando eu li os escritos de Lemony Snicket (pseudônimo do autor Daniel Handle), logo de cara imaginei que daria um filme incrível. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que sim, já existia, com Jim Carrey no papel do temível Conde Olaf. Carrey é um perito em comédias, um ator sensacional para dramas, e todo o  restante do elenco também é de nomes de peso, como Meryl Streep e Jude Law. Não poderia ser um filme ruim. De fato não o é, mas apresenta duas falhas graves: a primeira é que tenta adaptar sofrivelmente três livros com personagens bastante complexos em apenas um longa, a segunda é que para por aí. Dez tomos de desventuras é o que ficaram nos devendo a seguir.

Por quase treze anos (coincidência?) ficamos órfãos de uma adaptação ao menos razoável sobre a vida terrível dos órfãos Baudelaire. Quando, no ano passado, eu soube que a Netflix lançaria uma série baseada em suas Desventuras, sabia que poderia confiar. E não me frustrei.

A resenha demorou a sair, mas a série em si maratonei em um dia. A história dos três irmãos muito perspicazes, que perdem seus pais em um incêndio nos é apresentada com uma riqueza de detalhes apaixonante. Violet é a mais velha, inventiva e com muitas habilidades mecânicas, Klaus é o irmão do meio, com conhecimentos em todas as áreas e mais livros lidos que qualquer um, e Sunny, a bebê, com dentes poderosos e uma tendência incrível pra o sarcasmo, são designados a morar com diferentes tutores. Porém, desde o início, são perseguidos por Conde Olaf (que Neil Patrick Harris nos brinda de forma incrível), um ator medíocre que deseja a herança dos pequenos.

Cada livro nos é apresentado em dois capítulos de cerca de 50 minutos, o que dá tempo de sobra para uma boa adaptação. E a produção fez bonito, a riqueza de detalhes e a semelhança com as histórias dão gosto de ver. Há frases e cenas inteiramente idênticas aos livros, os cenários, vestuário, trilhas, maquiagem, tudo, tudo, parece que tudo saiu diretamente das mãos de Lemony Snicket. O próprio Lemony é um personagem ímpar e um narrador irritantemente cativante. Para quem o leu é uma delícia revisitar a histórias dos desafortunados Baudelaire através de sua voz, agora no audiovisual. Para quem não o leu, o primeiro encontro é, sem dúvida, apaixonante. A fotografia, o tom de mistério, as pistas, os personagens e situações extremamente caricatas, está tudo lá. Tudo perfeitamente lá. Há até mais pistas sobre o desenrolar da história do que deveria haver.

A Netflix nos entrega, em 8 episódios, uma das melhores adaptações literárias que já assisti (veja o trailer). E nos deixa com um triste gosto de quero mais. Esperemos que nosso destino não seja também desafortunado e precisemos aguardar mais treze anos pela continuação.

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