Febre de Bola

febre_de_bola_baixaNick Hornby é autor que conheço bem mais pelas adaptações de suas obras do que pelos seus livros. É verdade que li “Alta Fidelidade” antes de ver o filme, a ordem foi essa só porque eu tenho uma certa obsessão em ler, de preferência antes de ver, os livros que são transpostos para as telas. Gostei do livro e acho o filme simpático. Mesmo tendo, até hoje, uma boa coleção de discos de vinil e eles estarem muito bem organizados, meu universo musical é muito distante do dele e a empatia não foi completa. Depois disso vi todas as adaptações de seus livros para o cinema e gostei da maioria. Coloquei muitos desses títulos na minha lista de livros a serem lidos, objetivo nunca concretizado.

No Natal ganhei o audiolivro “Febre de Bola” do meu irmão. Foi um presente muito bem vindo. Já havia ouvido e lido bastante coisa boa sobre esse livro e como, por questões médicas, não podia ler a solução era perfeita. Tenho que admitir que demorei uns bons 3 dias para começar a ouvir por puro medo da voz da Soninha. Sério, quem, em sã consciência, quer ouvir mais de 80 horas da Soninha falando? Enfrentei o problema e comecei a ouvir. Todos os meus medos se confirmaram, ela é péssima, falta tudo para que a leitura se torne agradável. O interessante é que fui incapaz de parar a gravação porque o texto é ótimo e te envolve por completo.

“Febre de Bola” é uma reflexão sobre o papel que o futebol e, principalmente, o Arsenal tem na vida de Nick Hornby. Nos primeiros capítulos ele começa a falar sobre como sabe de cor datas, resultados e lances de jogos do Arsenal. Essa capacidade masculina de armazenar dados sobre futebol sempre me surpreende. O inicio da discrição sobre a importância que o Arsenal tem em sua vida e como ele é um torcedor fanático me lembrou uma serie de amigos que tenho. O melhor é que comecei a achar a obsessão dele pelo Arsenal um tanto exagerada e sua fixação por futebol também. Nesse momento me toquei que dias antes de começar ouvir “Febre de Bola” tinha passado as minhas tardes assistindo ao campeonato brasileiro sub-20 e ao mundial interclubes sub-17. Nesse momento caiu a ficha de que a minha obsessão pelo Fluminense tem bem mais pontos em comum com a de Hornby pelo Arsenal do que eu gostaria. Do momento em que aceitei minha condição de torcedora o livro ficou ainda mais prazeroso e nem a voz chata e a entonação horrorosa de Soninha conseguiram estragar.

Acho que para qualquer torcedor que vá a estádios e acompanhe com freqüência seu time pela televisão é impossível não se identificar. A discrição dele da decepção da derrota do Arsenal em finais da taça em Wembley podiam ser transportadas com facilidade para a minha própria decepção na final da Libertadores do Maracanã. Minhas idas e vindas para o estádio são bem menos dramáticas e arriscadas do que as deles, mas não menos memoráveis. Acho que nunca vou esquecer o silêncio apático da torcida tricolor no metrô voltando para casa depois de perder nos pênaltis a Libertadores de 2007.

Há momentos em que ele fala da violência nos estádios ingleses que são mais instrutivos do que empáticos. O livro foi escrito no inicio da década de 90 e certos problemas das torcidas inglesas, posso dizer até européias, continuam os mesmos e o pior deles é o racismo. Sua reclamação sobre o preço dos ingressos poderia ser transportada para o Brasil com facilidade. Fiquei com inveja dele que no inicio da década de 80 podia comprar ingressos para a temporada de seu time, algo que não posso fazer hoje, em 2010.

O começo do livro, quando ele descreve como se ligou ao Arsenal e como o futebol foi e é importante na sua vida para a socialização será melhor entendido por homens do que por mulheres. É uma questão de gênero mesmo. Quando meninos ganham bolas, meninas ganham bonecas e mesmo que você seja levada desde cedo aos estádios ou acompanhe futebol em casa com freqüência na infância, nada se compara a importância do futebol na vida de meninos. Me pegue como exemplo. Sempre acompanhei o Fluminense pela TV, acompanhei com afinco, ouvi jogos no rádio, li com freqüência as noticias no jornal, e sabia e sei identificar os jogadores, mas não era uma freqüentadora de estádio por pura falta de companhia. Quando só em 1999 que fui pela primeira vez ver meu time no Maracanã, um ótimo Fluminense 4 x 2 Vasco pela Taça Rio-São Paulo, que posso dizer que me tornei uma torcedora de verdade. Hornby faz essa distinção entre homens e mulheres e sobre torcedores de estádio e os que ficam em casa com maestria.

Mesmo com essa ressalva de gênero qualquer torcedor se identifica em algum momento com o que Hornby escreve. No momento em que ele diz que seu time é perseguido pela imprensa não pude deixar de lembrar de uma série de amigos que torcem para times diferentes que falam a mesma coisa. “Febre de Bola” mostra que ser torcedor de futebol é igual em qualquer canto. Essa identificação por um clube que faz você sair de casa em qualquer condição climática. Ir a um estádio, muitas vezes desconfortável. Ver um time que, muitas vezes, está jogando um futebol medonho. Passar 90 minutos que trazem, na maioria das vezes, mais sofrimento que alegria é uma sina comum aos amantes desse esporte não importa se na Inglaterra ou no Brasil. E todo esse sacrifício e sofrimento não são vistos dessa forma pelos torcedores, nós vamos por que simplesmente não conseguimos imaginar a possibilidade de não estar lá. Porque no final das contas aquele momento em que em Wembley o Arsenal fez o gol do título, como é relatado no livro, ou, que no meu caso, o Fluminense ganha o título perseguido há 26 anos no Engenhão, compensam qualquer coisa. “Febre de Bola” consegue transpor isso para as páginas com perfeição. É uma experiência maravilhosa que eu preferia ter tido lendo e não ouvindo a Soninha, mas é, sem dúvida, uma experiência indispensável para os amantes de futebol.

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