Sejamos Todos Feministas

Aqui na redação do Cheiro de Livro a maioria absoluta é de mulheres, o Rafael é o representante masculino solitário. Com tantas mulheres juntas em um ambiente em que ideias são constantemente debatidas, como era de se esperar, questões relacionadas a gênero volta e meia aparecem, são debatidas, conversadas e, até, acabam virando posts aqui. Foi nesse espírito que fui imbuída de escrever uma resenha para o Dia Internacional da Mulher. Tinha alguns livros em mente para resenhar, mas uma curta visita a livraria me fez mergulhar na escrita de Chimamanda Ngozi Adichie e seu “Sejamos Todos Feministas”. Quer título melhor para resenhar no dia de hoje?

“Sejamos Todos Feministas” é um livro pequeno, menos de 70 páginas, e é a transcrição de uma palestra dada pela nigeriana Chimamanda em 2009. O texto fala sobre a questão de gênero com o foco no que ocorre na sociedade nigeriana, não muito distante do que vivenciamos no Brasil. Fala sobre estereótipos femininos e masculinos, sobre o tratamento que a mulher tem nas pequenas coisas, sobre a igualdade salarial. O texto é ótimo e envolvente, mostra como garçons em Lagos cumprimentam apenas os homens, como em alguns locais mulheres desacompanhadas não podem entrar e como ela, Chimamanda, teve que provar que não era uma prostituta ao entrar em um hotel. Pequenos momentos cotidianos que mulheres enfrentam pelo mundo.

“Sejamos Todos Feministas” chega às livrarias brasileiras em um momento em que algumas vozes populares vem se empenhado em acabar com a má reputação que a palavra feminismo ganhou ao longo dos anos. A própria autora fala sobre isso no texto, assim como a atriz Emma Watson falou em seu discurso na ONU ao lançar a campanha He for She onde pede a participação masculina na luta pela igualdade de gênero. Dentro dessa luta pela igualdade, que passa pelo discurso de Patricia Arquette no Oscar 2015, um dos dados normalmente negligenciados e importante está exposto no artigo recente do jornal inglês The Guardian onde o autor além de cunhar a ótima frase “homens estão tão acostumados a tantos privilégios que nem percebem que eles existem” mostra estatísticas expondo que mais homens do que mulheres são ouvidos em matérias de jornal e isso faz com que se perpetue a ideia de uma superioridade intelectual masculina ou simplesmente que homens devem ser levados mais a sério do que as mulheres. São esses pequenos elementos, tão enraizados, que perpetuam estereótipos.

Chimamanda tem uma famosíssima palestra no TED sobre o perigo de uma única narrativa, de se eternizar visões únicas sobre povos, países e gêneros. Dentro desse debate cabe a leitura do texto da autora Gillian Flynn sobre porque escreve sobre mulheres nada exemplares. Ao longo do texto ela discorre sobre como a narrativa sobre as mulheres é incompleta, como nós somos retratadas de forma parcial, como o nosso lado mais perverso, violento e, até mesmo, nossa sexualidade é deixada de lado. A narrativa feminina eterniza o ambiente da disputa, da falta de amizade entre mulheres. Pense nas princesas da Disney, todas conversam com bichos mas são incapazes de ter uma amiga. São os mesmos filmes que materializam a ideia de que mulheres precisam ser salvas por príncipes e essa é a única aspiração de suas vidas. É bem verdade que o estúdio anda se esforçando para mudar essa narrativa, “Valente” e “Frozen” estão aí para comprovar, mudança que deve ser celebrada.

O mundo está longe de ser um local seguro para as mulheres. Quantas vezes já se ouviu e leu depois de uma história de violência sexual a frase “mas você viu como ela estava vestida?” ou “mas também vestida assim ela esperava o que?”, ela esperava respeito, simples assim. Do vídeo da mulher sendo assediada pelas ruas de Nova York  aos comentários mordazes contra famosas por causa de seus corpos e roupas a patrulha contras as mulheres é incansável e brutal. A campanha Ask Her More que Reese Whiterspoon lançou antes do tapete vermelho do Oscar 2015 retrata bem o problema. Reese quer que os repórteres perguntem mais do que o simples “quem você está vestindo?” , querem que elas sejam tratadas como seus pares do sexo oposto que respondem perguntas sobre o sua carreira, novos projetos e, até mesmo, quem desenhou a roupa que eles estão usando.

Dia 8 de março foi escolhido para ser o Dia Internacional da Mulher porque nesse dia, no século XIX na Inglaterra, durante um protesto de operárias da indústria têxtil por melhores condições de trabalho a policia trancou todas dentro da fabrica e ateou fogo, matando todas. Como vocês podem ver a luta por direitos sempre foi bastante sangrenta. Não poderia terminar esse texto sem  dizer que me incomoda muito existir um Dia Internacional da Mulher, somos 52% da população mundial e precisamos de um dia dedicado a lembrar a nossa importância.  Acho que isso já mostra em si o tamanho da desigualdade de gêneros que vivemos.

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