Tempo de leitura

Eu devia ter uns 15 anos quando comecei a ler Doutor Jivago. Era uma edição de bolso bem bonita da Record, sendo o texto uma tradução para o português diretamente do russo. Já estava lá pela metade do livro – finalmente começando a entender aquele carnaval de personagens com quinhentos nomes possíveis para cada – quando precisei interromper a leitura por conta da semana de provas na escola. Hoje, três anos de ensino médio, seis de faculdade e dois de pós-graduação depois, o marcador continua na mesma página em que foi colocado naquela semana de provas da oitava série.

Você pode estar se perguntando, com bastante razão, por que diabos eu não voltei a ler o livro quando as provas acabaram. Eu provavelmente responderia que tive algum contratempo na época que adiou mais a leitura, que comecei a ler outros livros, que quando dei por mim já tinham se passado meses e para retomar o livro eu precisaria voltar ao começo dele, que é um livro muito grande e eu não tinha como me comprometer com uma leitura assim. Em resumo, que não tive tempo.

Mas é claro que eu tive tempo. Pelo menos enquanto grandeza física, sim. Afinal, desde os meus 15 anos, quantos livros tão grandes ou até maiores já li? E muitos deles durante épocas em que estive muito mais ocupada do que naquela semana de provas (Os Pilares da Terra e O Vento Levou no ano de vestibular, por exemplo). O problema é que o tempo, digamos, “psicológico” de Doutor Jivago eu nunca mais tive.

O que me leva à conclusão de que o tempo de leitura não é realmente uma grandeza física. Quando o estado mental é propício, o tempo se arranja. As horas passadas no transporte público, nas salas de espera, nas filas de banco, na cama antes de pegar no sono – todas viram horas de leitura. Só que o inverso também é verdade: quando a gente não está realmente a fim, nem com todo o tempo livre do mundo a leitura flui.

Escrevo essa coluna num momento da minha vida em que passo horas em casa fazendo vários nadas, porém sem tempo nem para Doutor Jivago, nem para livro nenhum. Escrevo como uma terapia para mim e também como um alento para você, leitor sem inspiração à espera da musa ou culpado por nunca ter terminado aquele livro. Porque você não está sozinho. E porque isso é só uma fase e tenho certeza de que logo passa. Talvez o tempo daquele livro inacabado ainda chegue. Talvez até a minha história com o médico russo ainda não tenha terminado.

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