Uma protagonista manchada

O que fazer quando você se sente traída por um personagem? Pois é. Compartilho minha experiência de ler “O Duque e Eu”.

O Duque e Eu

As páginas viram sem eu sentir. Abri o livro desacreditada, convencida que seria mais um livro “mulherzinha” sem graça, mas que precisava ler para resenhar aqui e para comentar no Clube do Livro Saraiva. Mas depois do segundo capítulo, a história engrenou e eu não senti o tempo passar, o que é perigoso, já que cada minuto é precioso para mim. Minha leitura se resumiu em vôos de ida e volta para Brasília, correria para acabar de almoçar sem perder o horário para voltar para o trabalho, e alguns “só mais uma página”, repetidos ao entrar a madrugada com o livro em mãos. Mas, quase ao final do livro, a protagonista tomou uma atitude que, aos meus olhos, não tem perdão e que resultou em uma reputação manchada e uma narrativa corrompida.

Essa resenha contém spoilers.

O livro em questão é “O Duque e Eu”, da série “Os Bridgertons”, de Julia Quinn (Editora Arqueiro). Neste momento, quem leu já sabe do que eu estou falando e, ou concorda, ou acha exagero. Para quem não sabe, eu conto.

O livro conta a história do Duque Simon – deinfância muito atormentada e repleta de traumas – e da moça de uma família grande, barulhenta e amorosa, Daphne. A moça é irmã do melhor amigo de Simon – Anthony – e o foco do instinto casamenteiro da mãe. Enquanto Simon jurou nunca se casar, Daphne está em busca de um marido que não seja muito velho, muito novo ou pior! “Os homens me veem como uma amiga, uma irmã, e não como uma mulher”, se lamenta. Pudera, como a moça fora criada com muitos irmãos mais velhos, não é fácil de ser seduzida ou intimidada. E nada de desmaiar! Daphne até acerta uns socos certeiros quando preciso.

Fugindo de um pretendente mala, Daphne conhece Simon, que voltara a Londres depois de muitos anos rodando o mundo. Libertino, o Duque já nutre pensamentos pecaminosos sobre a jovem, mas que são amordaçados rapidamente ao descobrir que ela é irmã de seu melhor amigo.

Os dois conversam, se divertem e decidem fazer um trato: ele vai fingir cortejá-la. A lógica é a seguinte: ao ter um Duque interessado, outros homens mudariam a forma de olhar para Daphne e ela teria mais opções para escolher um marido. E ele, ao fingir interessado por uma moça, não seria mais tão acediado por mães e donzelas em busca de arrastá-lo para o altar. O único problema é o mais óbvio: um se apaixonar pelo outro.

Até aí, tudo bem. A história avança e a leitora se apaixona. A narrativa é leve (embora a tradução traga algumas escolhas de palavras que façam a história avançar no tempo, mas não o suficiente para encomodar demais), os personagens, deliciosos de seguir. Até que … PEITOS.

Aqui começam os spoilers maiores. Avisado está.

Em um jardim escuro, sem supervisão, Simon e Daphne levam seu cortejo fictício para o lado físico. Eu esperava um beijo muito bem dado, até mãos por cima de roupas em lugares nada respeitosos, mas não. Seios apareceram para dar um oi. Estava voltando de Brasília, em um vôo sonolento, às 7h da manhã, quando li isso e meus olhos quase pularam de suas órbitas.

Ok. Achei estranho, mas a história avançou bem e continuei lendo. Confesso que não conhecia a escrita de Julia Quinn antes de pegar “O Duque e Eu” para ler, então não sabia que teria cenas “quentes” no livro. São bem descritivas, açucaradas e cafonas na medida esperada para tal escrita, até começarem a surgir as incoerências.

Em um momento, Daphne foi bastante avançada e, no outro, antes de seu casamento, ela diz não fazer ideia de como bebês são feitos e o que são “devers conjugais”…. “Ok, vamos continuar lendo para ver como acaba”, pensei.

Continuei a leitura e o livro não me desapontou. Depois do momento do jardim, o relacionamento de Simon e Daphne deu uma guinada complicada, o que funcionou muito bem para a narrativa e me prendeu, porque eu queria que tudo desse com eles. Estava apaixonada por Simon e Daphne e queria que tudo terminasse bem. E estava caminhando para isso – com mais cenas picantes -, até que Daphne descobre a razão do Duque não poder ter filhos. Discussão, barraco inglês e uma bebedeira seguem e eu estava esperando momentos fortes e repletos de emoção quando tudo finalmente se resolveria. Mas eu estava errada.

Daphne se aproveitou de Simon enquanto ele estava de porre – porém “alegre” fisicamente. Sim, ele estava acordado o suficiente para impedir a situação e, até tentou, mas não com tanta vontade. Sim, ela sabia o que estava fazendo. Não, nada justifica. Depois do ato, ele se dá conta do que aconteceu e a cena é de rasgar o coração. Ela traiu sua confiança e o fez voltar a se sentir como o menino odiado e maltratado pelo pai que ele tanto se esforçou para não ser mais. (para entender melhor, teria que dar um spoiler ainda maior e, como acho que você deve ler o livro, fico por aqui).

Acho que nunca tive tanta vergonha e fiquei tão desapontada com uma protagonista antes. Ou melhor, com uma autora! Se os papéis fossem inversos, a mulherada teria se revoltado com a situação. Eu me revoltei tanto que até meu noivo riu de mim. “Sim, é um absurdo, Frini, mas é só um livro. Se acalma!” ele disse, rindo. Ok, é só um livro, mas como uma autora teve a capacidade de me enganar assim? Naquele momento, eu era o Simon: senti-me enganada e aproveitada. Foi horrível!

Bem, continuando. Mais barraco se segue e o clima fica sério, o que foi muito bem escrito. Eventualmente a situação – e o livro em si – se resolve e o final é lindo, mas foi tão manchado para mim pelo que aconteceu, que não consegui me envolver como acho que deveria.

Achei a escrita de Julia Quinn muito boa, mas com algumas incoerências tanto em caracterização quanto em ritmo. Nada suficientemente grave para ferir a leitura. Uma amiga já me disse que o próximo livro – “O Visconde que me Amava” – é melhor e pretendo lê-lo também. No total, essa saga “Os Bridgertons” traz oito livros – todos já publicados nos Estados Unidos -, mas cada um sobre um personagem da trama central, o que acho excelente, pois cada livro acaba sendo independente dos demais.

Essa foi a minha experiência com “O Duque e Eu”: traída pela protagonista. Pelo menos a experiência foi catártica. Melhor do que uma leitura vazia, não acham?

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