130 anos de Hemingway

O ganhador do Nobel de Literatura em 1954, Ernest Hemingway era um homem de seu tempo. A hiper-masculinidade cultivava essa imagem de machão do início do século passado. Levando em consideração seu contexto histórico social, era o ícone perfeito para deixar para trás os escritos cheios de floreios de Oscar Wilde. Nada de analogias ou metáforas muito elaboradas. O negócio agora era ser curto e grosseiro. Frases simples e diretas – como se fosse um soldado a serviço da arte. E queria ser acima de tudo ser verdadeiro, algo que espelhava o mundo em que se vivia com as guerras advindas – ele participaria de três delas.

Não há nada na escrita. Tudo que você precisa fazer é sentar-se diante da máquina de escrever e sangrar.

Ernest Hemingway

Hemingway era quase um personagem caricato em sua busca pela masculinidade tanto na vida quanto na escrita. Para ele a vida era feita de sangue, guerra, sexo, safari e morte… e bebida. Sua obsessão pela touradas era notória e em uma carta endereçada ao pai, confessa que nunca seria bom no esporte.

Mas além de reclamar sobre seus infortúnios, ser agressivo com mulheres, Hemingway era conhecido por ser antisemita. Em usa biografia sobre o autor, Mary V. Dearborn traz a luz o anti-semitismo presente não só nas cartas pessoais, mas também em uma de suas principais obras, O sol também se levanta. O personagem de Robert Cohn fora baseado em um amigo pessoal de Hemingway, Harold Loeb, que o emprestara dinheiro certa vez. Na obra, o autor usa termos pejorativos como kike e rich jew para ser referir aos judeus.

Após um ano de deteriorização mental e física ele se internou na clínica Mayo em Ketchum, Idaho, para tratar sua depressão com sessões de terapia de choque, o que acabou levando sua memória – nada pior para um mestre da escrita. Na manhã do dia 2 de julho de 1961, dois dias após voltar da clínica, Ernest Hemingway se suicidou com um tiro na cabeça com uma espingarda calibre 12, uma que tantas vezes ele usou em suas caçadas. O comportamento de Hemingway no final da vida se assemelha ao de seu pai. Ambos sofriam de uma doença genética chamada hemocromatose, quando o corpo não consegue processar o mineral do ferro e culmina na deteriorização mental e física da pessoa e causa depressão profunda.

A sabedoria dos velhos é um grande engano. Eles não se tornam mais sábios, mas sim mais prudentes.

Ernest Hemingway

Terminei de ler há pouco tempo sua noveleta, O velho e o mar, clássico que lhe rendeu o Nobel de Literatura. A história é direta e sem floreios, mas incrivelmente alegórica. Santiago, um velho pescador, sai em busca de um marlim, depois de oitenta e quatro dias sem conseguir um pescado se quer. Há quem trace pontos análogos entre o Santiago de Hemingway e Ahab de Melville. Ambos os homens lutam contra as forças da natureza, tentando conquistá-las, buscando sentido em suas vidas. Mas apenas Santiago por meio de seus esforços consegue adquirir alguma paz interior e compreensão sobre a condição humana em um mundo niilista. Já o fatalismo de Ahab, o faz terminar a história sem nenhum crescimento interior.

Pela lente da vida moderna é correto dizer que a escrita de Ernest Hemingway é misógina, homofóbica e racista. Afirmar isso tirando-o da moldura histórica em que ele vivia é uma crítica simplória. Como escreveu Susan Beegel sobre o que ele buscava, “a autenticidade em sua escrita – o medo, a culpa, a traição, a violência, a crueldade, o porre, a fome, a ganância, o êxtase, a ternura, o amor, e a luxúria” – em uma prosa simples e direta, sem floreios – como a vida.

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