1968 – o ano que não terminou

Para começar o ano escolhemos uma espécie de clássico nacional, uma não ficção, que fala sobre política e, ao mesmo tempo, celebra meio século de um ano que abalou o mundo: “1968 – o ano que não terminou”. Em um ano em que teremos que sobreviver a uma campanha eleitoral que promete ser uma das mais ferrenhas em décadas resolvemos celebrar a memória nacional para que não venhamos a repetir a história como farsa. O livro se Zuenir Ventura foi escrito em 1988 e sofre um pouco com isso, mas nada que afete o impacto do que é relatado.

A ditadura militar brasileira é um tema que me atrai desde a pré adolescência. Era aquela criança estranha que aos 12 anos estava lendo “Os Carbonários”, “O que é isso, Companheiro?” e “1968 – o ano que não terminou” e continuo lendo sobre o período e seus personagens. Não sou uma especialista, longe disso, apenas uma interessada em um período que ecoa até os dias de hoje nas nossas vidas. A minha lembrança da leitura do livro de Zuenir lá nos longínquos anos 1990 era de impacto, algo que me marcou, agora na releitura, mais de duas décadas depois, é que ele é um tanto quanto datado e pouco profundo. O que fica nessa leitura em que a leitora mudou tanto é a raiva e a indignação de Zuenir, nos faria muito bem como nação ter esses sentimentos com relação a uma ditadura militar.

1968 foi um ano desses que entram para a história, os estudantes franceses fizeram a sua parte para que ele se tornasse importante para o mundo. Os reflexos do que aconteceu nas ruas de Paris influenciaram os acontecimentos no Brasil, é claro, mas aqui tínhamos nossas próprias preocupações e circunstâncias. O ano foi marcado por imagem tão dramáticas como poéticas,  o enterro de Edson Luis pelas ruas do Rio de Janeiro iluminada por velas, padres enfrentando a cavalaria na saída de uma missa, uma passeata simbólica pelo centro do Rio, estudantes sendo presos em um sítio em Ibiúna e uma “sexta-feira sangrenta”. As imagens são todas acompanhadas de muita violência, como as ações do Comando de Caça aos Comunistas, CCC, que espancou e aterrorizou atores da peça “Roda-Viva” até que ela fosse censurada pelo governo, infelizmente o que aconteceu há 50 anos com Marília Pêra tem uma sinistra semelhança com o que aconteceu com a exposição “Queermuseu”. É o mesmo pensamento de que se pode impor ao mundo o a sua visão do mundo pela violência.

Zuenir peca em seu livro pela falta de profundidade nos temas que aborda e, principalmente, ao não apresentar claramente os seus personagens. Chama todos pelo primeiro nome e não contextualiza, eu sei que Vladimir (Palmeira) e que Franklin (Martins) ele se refere, nem todo mundo vai saber, ainda mais 50 anos depois do ocorrido e 30 anos depois do lançamento do livro. Tive a impressão que Zuenir contava as histórias daquele ano para um grupo de entendidos e desconsiderava a existência de ignorantes no tema, sempre um erro para uma obra. Seus relatos são, de alguma forma, parciais. Ele conta sobre os padres enfrentando a cavalaria e apenas pincela o massacre que foi a saída da primeira missa de sétimo dia de Edson Luís na Candelária, um acontecimento menos poético e mais importante.

O final de 1968 foi particularmente sinistro para o Brasil, numa sexta-feira 13 a linha dura ganhou a batalha dentro do governo e os anos de chumbos começaram. Aqui é o meu principal problema com o livro, Zuenir passa a ideia de que entre 1964 e 1968 não vivíamos em uma ditadura, em muito momentos ele se refere a uma democracia em risco como se ela não tivesse tido destruída em 31 de março de 1964 com tanques nas ruas. Pior ainda ele passa boa parte do livro, mesmo que usando a fala de outros, tentando fazer do presidente ditador Costa e Silva alguém simpático e democrático. Sua raiva toda só se revela contra os civis que assinaram o AI5, como se eles fossem o pior que tivemos. Não me entendam mal, na reunião que se decretou o AI5 apenas o vice-presidente Pedro Aleixo teve algum brio de apontar que aquele texto acabava com o que nos restava de constituição, mas a raiva e indignação não deveria se limitar aos civis ali presentes, deveria ser estendida a todos os presentes, mesmo que dos militares ali não pudesse se esperar algo diferente.

Reler “1968 – o ano que não terminou” com os olhos de alguém que sabe um pouco mais sobre o período foi esclarecedor e importante para me lembrar que há sombras que não se extinguem, como a radicalização de esquerda e de direita, como a incapacidade de se negociar e de querer aniquilar o adversário e não vence-lo. Fiquei com uma vontade louca de reler muito dos livros que falam sobre essa época sombria na história brasileira, época de sumiços, torturas, muita violência e falta de liberdade, muita falta de liberdade. Talvez seja o plano perfeito ler sobre tudo isso durante um ano eleitoral tão complexo como será esse.

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Um pensamento em “1968 – o ano que não terminou”

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