A Garota da Capa Vermelha

Em diversas ocasiões, ao apresentar o Clube do Livro Saraiva Rio de Janeiro, digo que pior do que uma idéia ruim é uma idéia boa mal aproveitada. Esse, infelizmente, é o caso do livro e do filme “A Garota da Capa Vermelha”.

O projeto, criado por Leonardo Di Caprio, começou como um roteiro, virou filme nas mãos de Catherine Hardwicke – a mesma que dirigiu “Crepúsculo” – e, só depois, se transformou em livro. A história é ótima: uma re-leitura teen e com toque sobrenatural sobre a história da Chapeuzinho Vermelho. Melhor impossível, certo? Não exatamente.

Valerie – no filme, interpretada por Amanda Seyfried – é uma menina que se julga menos bonita do que sua irmã mais velha, Lucie, e suas amigas. Todas preocupadas em apenas correr atrás de meninos, Valerie é diferente: gosta de escalar árvores e pensa em uma vida fora dos muros de seu vilarejo Daggohorn. Tudo vai bem até o seu amor de infância – Peter – retornar ao vilarejo e mexer com seu coração. Coincidentemente ou não, o Lobo – que aqui é um lobisomem e não apenas um lobo mau – quebra seu tratado de paz com a vila ao matar Lucie e todos viram suspeitos.

Paralelamente ao mistério da morte de Lucie – por que ela se colocaria em perigo em uma noite do Lobo (lua cheia) -, Valerie descobre que sua família arranjou seu casamento com o jovem mais rico da vila, Henry. Ou seja, nem o coração da moça está a salvo. E para completar, chamam Father Salomon (não, o termo “father”, que pode ser religiosamente usado para padre ou pastor, não foi traduzido no livro) – interpretado por Gary Oldman – para resolver o problema do Lobo. Só que, para ele, todos são suspeitos mesmo e tortura é uma forma ótima de se fazer alguém confessar. Alguém disse Inquisição? Pois é…

Valerie, sem saber o que fazer, recorre à Avó, que mora sozinha em uma casa da árvore, fora dos limites de Daggohorn, em uma habitat bem Wicca. É a Avó que lhe presenteia com a capa vermelha do título da história. Calma, isso não é spoiler. Infelizmente, a capa não tem todo o significado que poderia ter. E a história segue com as questões: quem matou Lucie, com quem Valeria vai ficar, quem é o Lobo, por que eu quis ler isso? De todas, só posso responder a última: porque eu simplesmente adoro a história da Chapeuzinho e literatura e filmes para adolescentes. Logo, pensei que seria ótimo. Me dei mal.

O prefácio de Hardwicke nos conta que Sarah Blakley-Cartwright, responsável por novelizar o roteiro, saiu da faculdade há pouco tempo. Em sua escrita, essa falta de experiência fica evidente. Sim, ela colocou mais detalhes no livro do que no filme e é responsável por cenas bem descritivas, mas, infelizmente, são raras. A narrativa não é coerente durante o livro inteiro, pulando de ponto de vista de narrador repentinamente, e a discrição de cenas, como o festejo após a morte do suposto Lobo, é muito confusa. Mas o pior problema, acredito, é a falta de caracterização dos personagens. No filme, o ritmo é tão errático e a montagem falha tanto que é impossível simpatizar com os personagens. As situações acontecem antes que possamos conhecer o mínimo de cada um e escolher por quem vamos torcer. Isso também acontece no livro, só que não falta tempo, falta habilidade. Cartwright não consegue conduzir os personagens de uma maneira até básica para que possamos simpatizar com eles, ou não. Sua escrita beira a bi-polaridade, pois, em um parágrafo Valerie se sente de uma maneira, e no seguinte, de maneira oposta. E não é coisa de adolescente! Ela não mostra a transição, a discrição de como os sentimentos opostos brigam no interior da jovem. Não, uma hora ela ama, na outra, odeia e é isso.

Vamos aos personagens:

A Avó: É uma personagem interessante e quase funcionou na tela. Chamada apenas assim – Avó, com “a” maiúsculo -, a personagem é misteriosa, engraçada e interessante. Pena que não apareça tanto.

Chapeuzinho: Valerie seria ótima se fosse mais coerente e menos bipolar. Não dá para se identificar com ela.

Interesses românticos: Quando o assunto são os dois gatinhos – porque a protagonista sempre está em dúvida entre dois gatinhos -, Peter é o bad boy romântico e lenhador e Henry, o príncipe ferreiro. Gosto bastante de Henry, mas no filme não dá para ver nem metade de seu cavalerismo. Pena.

Caçador: Father Solomon representa o Caçador da lenda, mas com uma história barra-pesada, motivação e final bem diferentes.

Coadjuvantes: Os pais de Valerie são sem sal assim como os demais personagens. Já as amigas são grandes candidatas à víboras! Muito egoístas, nem uma se salva.

Ah, e um detalhe importante: o livro não traz o último capítulo. Este é preciso ser lido no site da editora, pois traz a conclusão do livro (e o final do filme). Jogo de mídias que ficaria interessante se valesse à pena. O final desaponta não somente pela identidade do Lobo, como também sobre como isso é narrado.

Enfim, “A Garota da Capa Vermelha” apresenta as mesmas falhas nas páginas e na tela: falta de vontade e habilidade de transpor uma ótima história para suas respectivas mídias. Foi uma ótima idéia que foi extremamente mal elaborada.

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4 comentários sobre “A Garota da Capa Vermelha

  1. Olá Frini.
    Que bom que li a primeira resenha que faz a devida comparação entre o filme e o livro. Estive no cinema esta semana para assistir, e fiquei com a impressão de que “talvez” o livro pudesse ser mais esclarecedor. Desde já desisto.
    Obrigada por compartilhar conosco.

  2. Adorei a resenha Frini! O que me preocupa é o fato de eu estar lendo o livro =P. Eu já comprei sabendo que não seria tão bom assim, afinal Hardwicke não faz maravilhas (todos viram Crepúsculo, né?) e essa escritora não fica na frente da Stephenie Meyer. Estou na metade da história e só de imaginar que eu vou ter que visitar uma página online logo após a leitura para chegar ao verdadeiro fim é frustrante. E quem não sabe dessa jogada? Fala sério, antes não colocar a ideia em prática do que destruir uma re-leitura de um conto de quase um milênio!!!

  3. Não estou a fim de ler o livro não. Li o primeiro capítulo e já senti tudo isso aí que vc disse.

    Sei que tenho que ler para ter minha própria opinião, mas com a pilha de livros que tá acumulada aqui em casa; nope. Preguiça.

    Esse aí vai esperar ainda por um bom tempo para ser lido por moi!

  4. Acho que vale lembrar que o filme tem traços idênticos a Twilight que chega a beirar o ridículo….
    Eu gostei e não gostei não sei como explicar isso !
    Adorei a resenha e vou por esse livro pra ler por último, só vai ser antes que Senhor dos Anéis…

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