Americanah

Depois de ler “Sejamos todos feministas” o livro “Americanah”, de Chimamanda Ngozi Adichie, furou a fila e eu comecei a lê-lo assim que cheguei da livraria. A historia de amor de Ifemelu e Obinze serve de pano de fundo para um romance sobre preconceito racial e diferenças culturais. Mesmo sendo passado entre Nigéria, Inglaterra e Estados Unidos há tanto em comum com a nossa realidade que dá um tempero extra a leitura.

Ifemelu e Obinze são namorados desde o colégio, é um desses amores de cinema, daqueles que não se tem duvida de que foram feitos um para o outro. Ifemelu é filha única de uma família de classe media baixa, que tem que lidar com o desemprego do pai e da religiosidade da mãe, e Obinze é filho único de uma professora universitária e órfã de pai. Essa primeira parte do livro faz um retrato da sociedade nigeriana do inicio do século, a ditadura militar, a falta de luz, a corrupção endêmica e a vontade da juventude de deixar o país.

A vontade de deixar um país em crise é bem conhecida dos brasileiros, tivemos o “Ame-o ou deixe-o” durante os anos da ditadura militar e até hoje se olha para o exterior com uma certa inveja, como se longe das nossas fronteiras estivesse o segredo da felicidade. Obinze é quem melhor representa essa visão, a sua fixação pelos EUA na juventude e a dificuldade em se conseguir um visto americano é tão familiar que poderia ser um personagem brasileiro.

“Não conseguiam entender por que pessoas como ele, criadas com todo o necessário para satisfazer suas necessidades básicas, mas chafurdando na insatisfação, condicionadas desde o nascimento a olhar para outro lugar, eternamente convencidas de que a vida real acontecia nesse outro lugar, agora estavam resolvidas a fazer coisas perigosas, ilegais, para poder ir embora, sem estar passando fome, ter sido estupradas nem estar fugindo de aldeias em chamas. Apenas famintas por escolha e certeza.”

A historia começa a engrenar mesmo quando Ifemelu ganha uma bolsa de estudos e vai para os EUA. É lá que as diferenças culturais se mostram e o livro torna-se maravilhoso. Ela fala, mais de uma vez, que só se tornou negra ao chegar nos EUA, foi só ao chegar em solo norte americano que a sua cor passou a importar. Ifemelu tem um começo difícil e a narrativa em primeira pessoa envolve o leitor com comentários e observações sobre a sociedade norte americana, são tantos e tão pertinentes que dá vontade de sublinhar trechos e mais trechos do livro.

A vida nos EUA acaba afastando Ifemelu de Obinze. Em primeira pessoa vamos vendo a vida americana de Ifemelu, seus amores, seus problemas, o preconceito de negros e brancos quando ela resolve usar seus cabelos naturais e não mais alisados. Essas observações acabam tornando-se um blog sobre os EUA, é esse blog que a sustenta em boa parte dos anos que ela vive nos EUA. É o seu relacionamento com Blaine, um negro americano, que expõe mais as diferenças entre as visões de uma nigeriana e um americano, ambos negros, sobre as questões raciais. O fato de nossa narradora estar nos EUA durante a campanha e eleição do primeiro mandato de Barack Obama dá ao livro ainda mais peso.

A vida de Obinze não é tão calma. Ele não consegue o tão sonhado visto americano, o seu grande amor, Ifemelu, corta comunicação com ele sem explicação e ele acaba como um imigrante ilegal na Inglaterra. Essa parte do livro é menos vibrante do que as contadas por Ifemelu. Obinze também relata suas aventuras inglesas em primeira pessoa, mas ele é menos vibrante, tem uma visão menos critica de tudo o que acontece. Depois que é deportado Obinze se encontra na sociedade nigeriana e se transforma em um grande e rico empresário.

Quando se acredita que esse casal não vai mais se encontrar, quando já faltam poucas paginas para acabar o livro, o amor deles retorna ao centro da história. É quando Ifemelu resolve voltar para a Nigéria. Essa volta dela, além de render um novo blog, mostra ainda mais diferenças culturais. Por mais que se torça pelo amor dos protagonistas prevalecer no final, o que importa no livro é toda a jornada, são as verdades que estão nas paginas, é como o preconceito racial ainda resiste pelo mundo e como ele é tratado. “Americanah”, o nome do livro é uma referencia a como as amigas de Ifemelu a chamam depois que ela retorna a Nigéria, teve seus direitos comprados pela ganhadora do Oscar Lupita Nyong`o e é desse livro que precisam ser lidos.

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