Amores Infernais

Por Lucas Waltenberg

Amar pode ser um inferno, mas sempre vale a pena. Com esse slogan, a coletânea de contos Amores Infernais nos transporta para cenários onde adolescentes no alto da sabedoria e experiência adquirida em seus dezesseis anos de vida sofrem por amores sobrenaturais. A culpa é da saga Crepúsculo? Olha, talvez seja. Já faz um (pouco) tempo que deixei de ser adolescente, mas até onde a memória me permite regressar, essa fase da vida não era tão difícil assim. Ou será que o cinismo da minha vida adulta anda camuflando meu passado?

De toda forma, vamos por partes. Dormindo com o espírito abre a coletânea. Brenda é uma adolescente que, depois da morte da irmã, mudou de cidade com os pais, passou a frequentar um novo colégio e, como se isso já não fosse suficientemente dramático, começa a se envolver com Travis, um fantasma que aparece nos seus sonhos. Travis foi assassinado pelo namorado de sua própria mãe durante uma das sessões de espancamento e eu, caro leitor, darei um chocolate – mentira, tá? – se você acertar onde isso aconteceu. É isso aí: na atual morada da família de Brenda.

Eu não sei exatamente quando o tema “violência doméstica” passou a entrar no repertório das histórias de adolescente, mas confesso que acho isso meio perturbador. Dormindo… avança por uma série de clichês intermináveis e termina com um clímax idiota, me deixando com preguiça de prosseguir com os dilemas dos amores adolescentes por mais quatro contos.

Ainda bem que o seguinte, Abominável mundo perfeito, virou o jogo. Ao contrário do melodrama gratuito enfrentado em páginas anteriores, a história de Scott Westerfeld é original, engraçada e, ainda que fantasiosa e com elementos da ficção científica, não chega a ser sobrenatural. No conto, o autor constrói uma outra versão do nosso mundo. Aqui, todos podem se teleportar de um lugar a outro. Além disso, os personagens criados por Westerfeld são quase super-humanos, como se a história acontecesse em um outro tempo ou em uma réplica da Terra, com suas semelhanças e diferenças em relação ao planeta que nos é familiar. Abominável… gira em torno dos alunos Kieran e Maria. Na escola, durante a aula de Escassez, o sr. Solomon pede que os alunos façam um trabalho, onde eles deveriam experimentar neles mesmos, em seus próprios corpos, formas de “doenças antigas” como resfriado (!), peste bubônica (!), câncer (!) e por aí vai. Kieran escolheu sentir sono – já que no mundo retratado por Westerfeld, as pessoas não precisam mais dormir – e Maria, uma adolescente de 16 anos, opta por suspender seus “equilibradores hormonais”. Gênia, não?

Os personagens principais vão desenvolvendo afetos um pelo outro à medida que o projeto proposto pelo sr. Solomon avança. Abominável… possui umas passagens bem divertidas, por exemplo quando Maria se dá conta de que está escrevendo poemas em decorrência do seu recém-adquirido “desequilíbrio hormonal”. Apesar da história ser bem curtinha, foi um alívio saber que é possível escrever e ler sobre adolescentes sem posicionar uma lupa gigante em cima de seus amores, dilemas, conflitos e dúvidas.

Amores infernais segue com Mais ralo que a água. Confesso que até agora não entendi, nem lembro direito o que eu li nesse conto. Sei que tem uma aldeia, ofertas para Jesus, turistas fotografando, duendes, fadas, fanáticos, casamento pagão e… to esquecendo alguma coisa… o que era mesmo? Ah, sim, Jeannie, uma adolescente de 16 anos que odeia seus pais, quer sair de casa e estudar medicina. Para isso, casa-se com Robbie – um adolescente de olhos verdes perturbadores, meio misterioso, que todo mundo odeia, menos Jeannie, claro! – a galera toda fica contra a união, matam Robbie, Jeannie fica desolada, tenta fugir mas não consegue – por causa de um feitiço feito por seus pais com o sangue de Robbie – acaba casando-se com Charlie McPherson. Robbie-fantasma volta do além e fica puto com Jeannie – VOCÊ ME TRAIU! – Jeannie explica tudo – FULANO É GAY (é verdade!) E EU SÓ AMO VOCÊ. Robbie-fantasma tenta convencer Jeannie e ir com ele para o mundo dos doendes e fadas (Sim! Ele é um duende. Esqueci de falar, my bad.), mas para isso ela teria que morrer. Eles acabam se separando, mas dão uma rapidinha antes. Robbie-fantasma vai embora e seu corpo-fantasma se transforma em penas, que são levadas pelo vento. Jeannie volta para Charlie, o marido gay, e o casal deixa a aldeia, mudando-se para a cidade. Jeannie começa a trabalhar em uma padaria, Charlie, num jornal. Mais ralo que a água termina com Jeannie tendo uma filha, cujo nome, em homenagem a Robbie, é Fata Esmeralda. WHAT THE FUCK?

Novamente, perco as esperanças. Mais ralo que a água foi uma porrada no bom gosto que eu levei tantos anos para construir. No entanto, Amores infernais voltou a me cativar, com esse clima hot’n’cold. O quarto conto chama-se Fan fic conta a história de Paige, uma menina que fica louca depois de se apaixonar por um garoto saído de um livro. WHAT?

Vamos do início. Paige é a típica heroína de filme adolescente americano. Uma menina bonita, mas não tão bonita, e esquisita, mas não tão esquisita. Frequentando a biblioteca da escola, ela se depara com o livro Os imortais, recomendado por srta. Penn, a bibliotecária. O romance começa com a frase mais piegas da vida e, fazendo o que qualquer pessoa sã faria, Paige deixa o livro de lado e vai arrumar o que fazer. Ainda na biblioteca, ela conhece Aaron, um rapaz lindo (foi a autora quem disse) de olhos violeta, misterioso (juro que estou tentando procurar outra palavra), eles se apaixonam e bla bla bla, não necessariamente nessa ordem.

Quando eu achava que Fan fic entraria num loop interminável de embromação adolescente, Aaron revela seu segredo para Paige. Na verdade, ele é de 1876 e, após uma epidemia de tuberculose em sua cidade, ele e sua mãe foram a uma cigana buscar uma forma de sobrevivência. A moça deu pra eles um “elixir de uma fonte do México” que os transformaram em seres imortais, cujo reflexo não aparece em espelhos e com capacidade de se curar rapidamente ao sinal de qualquer ferimento (em nenhum momento fica claro se ele é um vampiro, mas palmas para autora por não ter se rendido).

Paige fica ainda mais apaixonada por ele e a relação parece que vai bem, até que a menina conta o segredo de Aaron para sua melhor amiga, Polly. Aaron desaparece e Paige fica muito perturbada, procurando uma razão para o sumiço de seu amado (estou a poucas páginas de me transformar em uma adolescente platonicamente apaixonada), enquanto fica puta com Polly por – supostamente – ter espalhado seu segredo para o colégio inteiro.

A história segue com Paige cada vez mais perturbada e, para a surpresa de todos – e da própria heroína – descobrimos que Aaron é meio que fruto da imaginação de Paige. WHAT? Na verdade, ele é o personagem principal de Os imortais, fato que fica claro (?) durante o clube de leitura da srta. Penn, quando as alunas se reuniram para ler o livro em questão.

Resumo do devaneio: Paige vai parar num hospício – ou coisa parecida – depois de perseguir a autora do livro – que, de fato, tem um filho de quatro anos chamado Aaron, mas ambos estão longe de serem os imortais do livro –  e teimar que o tal do Aaron – esse, sim, o imortal – é real.

Muitas páginas depois chegamos ao fechamento de Amores infernais. O último conto chama-se Perdido de amor e é sobre o relacionamento de uma menina com um selkie. Não sabe o que é isso? É uma criatura mitológica, uma foca que vira homem que vira foca. E é tudo o que você precisa saber sobre essa história.

***

No fim das contas, Amores infernais foi uma leitura divertida. Caso o livro chegue na sua mão, leia o segundo e o quarto contos primeiro, porque são, realmente, os mais legais. Se você tiver meio desocupado, aí parta pro resto e divirta-se com adolescentes histéricas, irracionais e histórias sem pé, nem cabeça.

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