Apanhador no campo de centeio ou coisa que o valha


O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger (The Catcher in the Rye)

“A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal acaba de contar, a gente começa a sentir saudade de todo mundo.” Holden Caulfield (J. D. Salinger)

Se essa frase não te faz refletir, não sei mais o que faria. E essa é a sensação que eu tive ao ler a obra do escritor americano J. D. Salinger, publicada originalmente em formato de revista entre os anos 1940 e depois como livro em 1951.

Eu li O apanhador no campo de centeio na faculdade para um trabalho de dissertação de português e lembro como se fosse ontem o meu desabrochar na escrita sobre a autodescoberta. E a experiência de ler um texto deveras sincero foi tão marcante que, de certa forma, contribuiu para abrir um caminho que estava oculto dentro de mim e tanto desejava ser descoberto e explorado. Digamos que Salinger foi um dos autores que mais me inspirou, numa época confusa, a usar a escrita em benefício do autoconhecimento. E quando a editora-chefe do Cheiro de Livro perguntou à equipe “quem gostaria de escrever sobre O apanhador no campo de centeio?”, corri para dizer “eu, eu” e humildemente poder prestar minhas homenagens, ainda que de forma capenga, porque não pretendo fazer nenhuma análise complexa e extensa sobre a obra, apenas comentar sobra a importância que ela teve na minha vida.

A história do livro é sobre Holden Caulfield, um jovem de dezessete anos que narra um fim de semana que antecedeu um surto de esgotamento, desde o momento em que foi expulso do internato Pencey, após ser reprovado em quase todas as matérias, até o momento do encontro com os pais, quando terá que contar por que levou bomba outra vez. A narrativa se desenvolve a partir dos encontros e das situações pelas quais Holden passa e tenta encontrar algum sentido para sua vida e o mundo em que vive.

O livro fala diretamente com as pessoas que se preocupam em viver o presente, em aproveitar o momento, em captar os detalhes, as idiossincrasias e em reconhecer a importância de um diálogo. É curioso que o livro tenha sido, ao mesmo tempo, censurado nos EUA (pelo uso de certas palavras e por retratar dilemas adolescentes de forma tão direta) e incluído na lista dos 100 melhores romances de língua inglesa do século XX. Vocês devem conhecer também a polêmica com o assassino do John Lennon que tinha esse livro em mãos quando foi preso pelo crime. Porém, embora isso tenha gerado uma discussão sobre a influência de Holden na vida dos leitores, jovens e adultos, o livro continua vendendo firme e forte e hoje, segundo a Wikipedia, já vendeu mais de 65 milhões de cópias.

A obra, desde a época em que foi lançada, ganhou espaço no meio acadêmico e não foi à toa. Salinger não apenas expôs o comportamento típico dos adolescentes; ele cavou tão mais fundo que, independente da idade do leitor, você se identifica com o que o protagonista está vivendo. Em seu caminho para a autoafirmação, Holden age espontaneamente questionando os adultos, não se dedicando à escola, considera tudo desagradável e deprimente, com exceção de alguns personagens, como seu irmão falecido Ellie e sua irmã pequena, e se nega a crescer evitando todas as responsabilidades de adultos. Síndrome de Peter Pan ou não, a verdade é que você pode encarar isso como metáfora em qualquer momento da sua vida.

Uma das coisas que mais me chamou atenção na história, e com a qual muito me identifiquei, é que Holden, além de gostar muito de ler e se “esconder” atrás dos livros, ele se interessava pela maneira com que os autores escreviam suas obras. Ele queria conhecê-los, trocar cartas, telefonemas, se tornar amigo deles. O próprio Salinger tinha esse interesse e trocou cartas com Joyce Maynard, autora que foi sua amante por um ano. Tanto Holden quanto Salinger sentiam afinidade nas histórias que liam e buscavam amigos que pudessem compreender suas mentes inquietas. Quem nunca?

A sensibilidade de Holden é tão cativante e verdadeira que você vive cada etapa que o personagem está vivendo e sofre as mesmas emoções. Ele é rebelde, não se sente compreendido por ninguém, é solitário e depressivo e, por isso, acaba vivendo num mundo próprio, que ele criou para sobreviver. Ele tem consciência da fantasia que construiu para si mesmo e não esconde isso. E, enquanto acompanha a travessia de Holden para o mundo adulto, você questiona as próprias inseguranças e o que normalmente faz para se proteger do mundo real, como Holden faz com seu chapéu, único momento em que se sente seguro para conversar com as pessoas, principalmente adultos, e não vê a necessidade de se esconder.

Através de digressões, o protagonista nos revela sua luta para ser compreendido num mundo de julgamentos e condenações e reflete nossas crises de identidade e existência e, principalmente, de autoafirmação e do sentido de tudo isso. É uma leitura com muitas camadas, uma escrita autêntica, uma obra que explora a incógnita da mente perturbada dos jovens e nos conduz a refletir sobre nossas escolhas e por quê, depois de tanto tempo fugindo, evitando e negando, decidimos ser responsáveis.

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