Deathbird Stories – Harlan Ellison

 

 

Capa de Leo e Diane Dillon

Morreu aos 84 anos um dos escritores que mais me marcaram, e que pra mim representou uma passagem a uma ficção científica mais complexa, literária, mais adulta – e que por isso fiz questão de incluir na Biblioteca Essencial.

Quando comecei a ler ficção científica nos anos 70, a oferta de livros aqui no Brasil não era grande. Tínhamos traduzidos os clássicos de Asimov, Clarke, Heinlein e Bradbury – e pouco além. Em algumas livrarias era possível comprar livros de bolso americanos e ingleses, além da Colecção Argonauta, editada em Portugal.

Em bancas de revistas importadas também dava pra comprar revistas como Analog, Galaxy, e The Magazine of Fantasy and Science Fiction. Numa dessas vi o anúncio de uma livraria especializada em Nova York, a Science Fiction Shop. Fiz uma lista, e na viagem seguinte da minha mãe pedi uma dúzia de livros. Ela, que também gostava do gênero, foi lá e trouxe a mala cheia.

Tinha, entre outros: Ursula K. Le Guin (“Os Despossuídos”, “A Mão Esquerda da Escuridão”), Frank Herbert (a trilogia “Duna”), e Harlan Ellison.

Ellison era um contista, não tinha romances. Então pedi “uma coletânea qualquer” dele. Minha mãe pediu ao vendedor, e ele disse: “olha, quem pode te ajudar melhor é aquele cara ali, que é amigo dele. Norman, dá uma chegada aqui!” E chamou um sujeito que folheava os últimos lançamentos. Gentilmente, o homem escolheu dois: “Deathbird Stories” e “I Have No Mouth And I Must Scream.” Na conversa, minha mãe descobriu que o homem também era um escritor: um tal de Norman Spinrad. Meu queixo caiu. “Mãe! O Norman Spinrad! E você não pegou um livro dele, pra ele autografar!?!?” Era o autor de “Bug Jack Barron” e “Iron Dream”, que eu só conseguiria ler muitos anos depois. E ela respondeu: “não estava na lista, não sabia se você ia gostar…” Mas não posso reclamar. Os que ela trouxe eram obras fundamentais pra começar a entender a ficção científica. E ganhei dois livros do Ellison, recheados de obras-primas, escolhidos a dedo pelo amigo Norman…

“Deathbird Stories” é a ponta do iceberg de uma obra de mais de 1.800 contos, roteiros e artigos. Ellison tinha sido uma das principais vozes da New Wave da Ficção Científica que nos anos 1960 começou a explorar os territórios desconhecidos da mente, em vez do espaço sideral. Editou dois volumes da antologia “Dangerous Visions”, em que reuniu histórias que rompiam as barreiras e convenções da FC clássica. Não é exagero dizer que essas antologias transformaram a literatura de Ficção Científica.

Seus contos são lisérgicos, psicodélicos. Muitas vezes cruéis. Em “Deathbird Stories” ele tenta criar mitos modernos, imaginar quem são os novos deuses: os deuses das cidades, das avenidas, da sarjeta. Os deuses da poluição, das máquinas, da Culpa Freudiana. “Pretty Maggie Moneyeyes” é sobre uma prostituta cujo espírito assombra uma máquina caça-níqueis num cassino de Las Vegas. “The Whimper of Whipped Gods” é uma reação a um assassinato da vida real em Nova York, o de Kitty Genovese, em que 38 vizinhos viram ou ouviram o crime e nada fizeram. A personagem é testemunha de um crime, e quando chega a vez dela se tornar vítima, ela faz um pacto com o deus dos serial killers… E em “The Deathbird”, a discussão é a própria existência de Deus, e um homem comum tem que tomar uma dura decisão sobre a vida no planeta Terra.

Ellison preferia usar “Ficção Especulativa” a Ficção Científica. Mas ganhou 8 prêmios Hugo e 4 Nebula. Escreveu o melhor episódio da série original de Jornada nas Estrelas, “A Cidade à Beira da Eternidade.” Tinha fama de brigão, não tinha paciência com a estupidez humana. Era ferrenho defensor da propriedade intelectual dos escritores. Várias vezes processou produtores de cinema e TV por usarem ideias dele. Um deles foi James Cameron, a quem acusou de roubar partes de dois episódios que escreveu para a série “A Quinta Dimensão” e transformar em “O Exterminador do Futuro”. O processo acabou com um acordo extra-judicial e a inclusão do nome de Ellison nos créditos.

Aqui no Brasil, quase nada. Só duas adaptações em graphic novel do episódio de Jornada, e de “O Demônio da Mão de Vidro.” Mas merece o esforço. Suas histórias abriram a minha cabeça pras possibilidades da literatura fantástica, que nas mãos dele eram infinitas.

“Você não tem direito a ter uma opinião. Você tem direito a ter uma opinião informada. Ninguém tem o direito de ser ignorante.” – Harlan Ellison

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