Estrelas Além do Tempo

Normalmente quando um filme é baseado em um livro, a primeira coisa que nos ocorre é: será o filme tão bom quanto o livro? E quando livro e roteiro são escritos ao mesmo tempo? Esse é o caso de Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, EUA, 2016), uma história tão importante a ser contada que ganhou logo dois meios de uma vez só.

Era 2014, Margot Lee Shetterly, que sempre trabalhou com investimentos, além de fundar a revista Inside Mexico, quando morou no México; ainda fazia pesquisas para seu livro sobre as três mulheres negras matemáticas, que trabalharam na NASA e ajudaram na corrida espacial, na década de 1960. Nessa época, a produtora Donna Gigliotti procurou Shetterly e contou sobre seu desejo de fazer um filme baseado no livro que ela ainda estava escrevendo. Aquela era uma história muito importante e o mundo precisava conhecer. A roteirista Allison Schoroeder passou a trabalhar ao lado da escritora, até sair o argumento que levaria ao roteiro final do filme.

Todos que se envolviam com o projeto ficavam espantados como que aquela história tão incrível nunca havia sido contada, esse foi o principal fator que impulsionou a produção e tornou possível que o filme acontecesse. Desde a escolha do diretor, Theodore Melfi, que ficou tão apaixonado pelo projeto que desistiu de dirigir o próximo filme do Homem-Aranha, passando pelo elenco principal: Janelle Monáe, Octavia Spencer e Taraji P. Henson, até chegar em Pharrell Williams que compôs canções com um toque dos anos 1960 para o filme e ainda trabalhou ao lado de Hans Zimmer, na trilha sonora. Todos os detalhes foram muito bem pensados e trabalhados para que o filme ganhasse a projeção que ele merecia.

Mas qual é essa história tão incrível? Katherine Goble (Taraji P. Henson), era uma matemática que trabalhava como “computador” na Ala segregada Oeste da NASA, na divisão de Langley, na Virgínia, em 1961. Na época, “computadores” eram pessoas que ajudavam a verificar os cálculos feitos por outros cientistas. Além de Goble, também havia Dorothy Vaughn (Octavia Spencer), matemática supervisora da Ala Oeste e Mary Jackson (Janelle Monáe), matemática, física que trabalhava na parte de engenharia na construção de foguetes. As três tiveram importantes papeis dentro da corrida espacial nos EUA, mas o filme é centrado na vida de Katherine, que ajudou a calcular com precisão os pontos de reentrada do astronauta John Glenn em 1962. Esse evento é o ponta pé inicial que leva os EUA à Lua em 1969.

Katherine era uma mulher negra, na Virginia, estado segregado, viúva com três filhas e no início de seus 40 anos. Todos fatos que poderiam desestimular sua vontade de avançar dentro do seu trabalho, mas, como Shetterly conta, de suas conversas com Katherine (que está com 99 anos hoje) ela amava o que fazia e não se deixava levar pelo preconceito e o racismo exacerbado da época. É nesse ponto que se deve comentar o filme, que mostra o mundo sob o ponto de vista dessas três mulheres excepcionais, que enfrentaram o mundo de cabeça erguida e muita dedicação. O filme mostra que nada para elas era fácil, mas que elas sabiam seus valores, o quanto eram mais capazes que muitos que trabalhavam aos seus lados e que deveriam trabalhar muito mais do que qualquer um para mostrar isso.

O ponto forte de Estrelas Além do Tempo (assista o trailer) é a força que movia essas três mulheres, ao mesmo tempo que não doura a pílula. O mundo em que viviam era hostil, segregado, que tentava dizer a elas, a cada segundo, que elas eram inferiores apenas por causa da cor da pele, até ir ao banheiro era um ato político. Mas, o filme também mostra o poder da união, da amizade, do apoio. Elas eram cientistas, eram mulheres inteligentíssimas, sem a mínima sombra de dúvida, mas eram, acima de tudo, amigas. Se apoiavam e apoiavam outras que estavam no mesmo barco que elas (existiam 20 mulheres negras, matemáticas, trabalhando na ala segregada na divisão de Langley da NASA). E mais do que mostrar a história dessas três mulheres, o filme em nenhum momento cria dúvida em relação a elas. Claro que há situações de dúvidas por parte de outros personagens, mas nunca, nenhuma delas duvida de suas próprias capacidades e inteligência. Um ponto sutil, mas muito poderoso em um filme sobre mulheres negras cientistas em 1961. Sem dúvida alguma a história de Katherine, Dorothy e Mary é muito importante e nunca foi tão importante conta-la como é agora.

*AH! O livro de Shetterly foi lançado em setembro de 2016, quatro meses antes do filme chegar ao cinema nos EUA. Aqui no Brasil ele já existe em português e é possível compra-lo no link disponível abaixo. O filme estreia hoje, 02 de fevereiro, em todo o Brasil 😉

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