Frankenstein 1816 e 2020: breve exercício de corte e costura (isso não é uma crítica)

Frankenstein ou O Prometeu Moderno

Mary Shelley, tradução de Santiago Nazarian

Zahar, Clássicos Zahar em Edição Bolso de Luxo

Introdução

Quem me acompanha sabe da obsessão que mantenho com Frankenstein – menos com o monstro e mais com as possibilidades e mitologias inauguradas naquela fatídica estadia em Villa Diodati. Nas narrativas que ali brotaram se encontram os nódulos de tensão da literatura de terror e horror, os medos e angústias individuais e coletivos (de um determinado e específico sujeito, marcado geo-sociopoliticamente) e as fantasmagorias dos problemas pessoais e afetivos entre as cinco pessoas envolvidas; esses melodramas interpessoais penetraram tão profundamente no processo de fabricação dessas tramas a ponto de ser quase impossível discernir com precisão onde as histórias pessoais terminam e a ficção começa.

Já escrevi algumas vezes sobre Frankenstein e a importância ética, estética e política dos monstros e das monstruosidades.

Esse texto é algo entre um ensaio e um exercício a partir da reler, mais uma vez, a obra de Mary Shelley – dessa vez, com outras questões atravessando meu imaginário.

§

2020 e as noites de Mary Shelley

No dia 02 de Janeiro de 2020 eu subi para Teresópolis – região serrana do Rio de Janeiro. Chovia a cântaros e, fora um breve congestionamento no pedágio, a serra estava deserta e com muita neblina. Dirigi devagar por entre curvas acentuadas, túneis de árvores empalidecidas pela névoa e estradas de terra com iluminações intermitentes.

Quando finalmente consegui chegar na casa já passava das 22 horas e a chuva tamborilava insistente no teto do carro. Saí para abrir o portão e senti que algo estava diferente – havia um silêncio fora do comum, algo distinto no próprio ar.

Voltei para o carro com uma inquietação. Nessas horas há sempre uma voz que diz que é coisa da sua cabeça, imaginação, que você está viajando e que tudo está normal. No entanto, para quem já leu tantas histórias de fantasmas, há sempre uma outra voz que diz “mas e se não estiver tudo bem…?”

Estacionei e deixei os faróis acesos.

Voltei, mais uma vez, para fechar o portão e, iluminando o caminho com a lanterna do celular (sem me preocupar com a bateria em 13%, já entraria em casa para carregá-lo), refiz o caminho até a porta dos fundos.

O quintal parecia vivo com a chuva. Relâmpagos distantes produziam seres disformes, e me causava um certo desconforto ficar de costas, imaginando que eles avançavam na minha direção enquanto eu enfiava a chave na fechadura.

Claro que tudo aquilo já estava indo longe demais, eu já havia ido inúmeras vezes naquela casa… mas uma vez que a imaginação inicia seus sórdidos trabalhos, é difícil frea-la – é uma descida vertiginosa.

Virei a chave; a porta sempre emperra um pouco… Empurrei, a porta abriu, eu pisei dentro de casa já acendendo o interruptor das luzes da cozinha e duas coisas aconteceram ao mesmo tempo:

as lâmpadas piscaram e não acenderam completamente, produzindo apenas uma fraca luminescência amarelada;

no meio da cozinha, sobre o piso avermelhado, uma enxada com a base de metal enferrujada e suja de terra fresca.

Esses pequenos eventos e coisas fora do lugar provocaram a sensação de que algo estava para acontecer. Pensei em ir embora. Lá existe apenas uma posição, perto do tanque, na qual o celular tem sinal. Mas pensei em Mary e nas visões noturnas que ela deve ter tido em Villa Diodati – Frankenstein surge de uma visão. Abri meu computador na mesa da cozinha, acendi um cigarro e uma vela e, sob a amarelada iluminação, comecei a escrever sobre monstros, pessoas perdidas, isolamentos, preconceitos e outros medos.

Eu e Frankenstein
1816 e os medos de um presente futuro

Pensei, imediatamente, nas noites que Mary Wollstonecraft Godwin e Claire Clairmont passaram em Villa Diodati, há mais de 200 anos, acompanhadas por Byron, Percy e Polidori. Lá, às margens do lago Genebra e com vista para os sublimes Alpes, durante um ano atípico – mais frio e cinzento que o normal, também conhecido como “o ano sem verão” por causa da erupção do vulcão Monte Tambora – , Mary Wollstonecraft costurou o corpo que mudaria a história da literatura.

Nessas noites de1816 também chovia e relampejava. Lord Byron, talvez entediado ou apenas para passar o tempo, propôs ao pequeno grupo que cada um escrevesse uma “ghost story” – uma história de fantasmas. Não se tratava, exatamente, de uma competição; era mais uma espécie de “parlor game”, um jogo para passar o tempo.

Como sabemos, desse empreendimento, Mary soon-to-be-Shelley escreveu Frankenstein ou O Moderno Prometeu e John Polidori, o médico/amante de Byron, escreveu o primeiro conto sobre vampiros na língua inglesa, O Vampiro.

Essas narrativas forjaram a literatura de horror e ficção científica como conhecemos. Monstros e monstruosidades adquiriram camadas e profundidades subjetivas, tornando-se estratégias discursivas para os medos, ansiedades, angústias e desejos de cada época, sujeito e corpos inscritos em geopolíticas específicas – encarnaram questões políticas.

O horror e a ficção científica, o medo como prazer estético, como aparecem na virada do século XVIII para o XIX, são gêneros vinculados ao imaginário colonial, à revolução industrial, aos restos de um mundo feudal e ao surgimento de outro mais científico, racional e iluminado; são gêneros que surgem com a Modernidade: acelerados, fractais; as personagens viajam para lugares distantes, paisagens áridas, exuberantes; o Oriente, o Ártico… Esse horror marca o medo e a tensão das explorações e avanços científicos; a profanação do corpo e dos territórios; a percepção proto-psicanalítica de um lado perverso do humano, que goza com a dor, a corrupção e a destruição.

Claire Clairmont e seus monstros

Mary Wollstonecraft e John Polidori, ao escreverem essas narrativas, não estavam atravessados apenas pelos volumes de literatura inglesa e alemã disponíveis na mansão (para citar as influências de Paraíso Perdido, de John Milton, 1667; os poemas românticos de Goethe – A Noiva de Corinto, 1797 – e Bürger – Lenore, 1774), e pelos avanços tecnológicos e científicos de sua época, mas também por suas conflituosas relações afetivas com Percy, Claire e Byron. Os filmes A Noiva de Frankenstein (James Whale, 1935 – nesse filme, Elsa Lanchester representa Mary Shelley e a Noiva, duplicando não apenas autora/monstra mas também costurando na pele do filme realidade e ficção, relações pessoais e monstruosidades…), Gothic (Ken Russell, 1986) e Mary Shelley (Haifaa al-Mansour, 2017) tentam desenhar as linhas dessas relações.

Anos depois dessas intensas e extravagantes experiências, Claire Clairmont, meia irmã de Mary Shelley, revisitou esses acontecimentos e escreveu que Byron e Percy Shelley eram “monstros”. Claire teve uma filha de Byron, Clara Allegra Byron, nascida em Janeiro de 1817. Durante os eventos em Villa Diodati Claire já se encontrava grávida. Byron nunca assumiu a filha, que faleceu aos 5 anos, em 1822. A história que envolve Claire é perversa e cruel, evidenciando os preconceitos, a misoginia e o elitismo da nobreza inglesa. A defesa de uma vida hedonista e de amor livre, já no início do século XIX, era radicalmente atravessada por relações de poder.

Um dos temas centrais de Frankenstein é o abandono da criatura pelo criador, recusa de um pai diante da criação monstruosa; a paternidade e a masculinidade falhadas e fracassadas. Nesse sentido, Mary Shelley parece ter antecipado a relação covarde de Byron com Claire e sua filha, Allegra.

Nas estratégias especulares de Mary Shelley e Polidori podemos vislumbrar reflexos de Claire em Justine, assim como Lord Ruthven, criado por Polidori, é um duplo de Byron.

Dessa forma, Claire Clairmont termina, aos 70 anos, como uma trágica e ressentida ‘final girl’, vítima de monstros poderosos, influentes e perversos. Em suas memórias ela escreve sobre as relações com Byron e com os Shelleys de forma amarga e vingativa.

§

2020, 1816 e um país assombrado

Um mês depois.

Chove no Rio de Janeiro.

Raios e trovões.

A luz caiu. É dia 02/02. Yemanjá.

Saí do hospital há poucas horas.

Chove e estou no escuro.

O que tememos?

Hoje, no Brasil de 2020, somos assombrados pelo neoliberalismo, antigos fantasmas coloniais, águas contaminadas pela gestão pública, mudanças climáticas dramáticas, re-emergência do nazi-fascismo, intolerâncias religiosas, preconceitos, racismos, machismo, misoginia, lgbtqifobia, enfim, o Brasil de 2020 é o terreno para narrativas de terror e horror.

O que é um fantasma?

O que é um monstro?, me pergunto aqui nessa noite escura e tempestuosa.

Relendo Frankenstein ou O Prometeu Moderno, escrito e publicado há mais de 200 anos, percebo que alguns medos permanecem atuais e enraizados no imaginário: o progresso irrestrito e irrefreável da ciência; a exploração dos espaços desconhecidos; injustiças; abandonos, culpas, corrupção e destruição da alma, perda dos vínculos afetivos, medo da morte, desamparo…

Mas aprendemos, também, que o monstro é, não raramente, gestado em nossas intimidades, alimentado por nós; trata-se, claro, de uma questão relacional proposta tanto por Mary Shelley quanto por Victor Hugo, em O Corcunda de Notre-Dame: quem é o monstro?

Epílogo ou algo assim

A nova edição da ZAHAR, em Edição Bolso de Luxo, de 2020, traz o texto integral e capa dura. A tradução é de Santiago Nazarian, autor brasileiro, de São Paulo, que trabalha, em diversos livros, com o insólito e o estranho (A Morte sem Nome e Feriado de Mim Mesmo, por exemplo; Mastigando Humanos, de 2013, é tido como um romance psicodélico). É interessante reler Frankenstein traduzido por Nazarian: a narrativa adquire outra camada e ganha uma espécie de apadrinhamento simbólico. A tradução é uma operação radical na qual o tradutor se entranha nos detalhes e nas intenções, fabricando uma versão; é também um trabalho digno de Victor Frankenstein: costurar, experimentar pedaços e palavras, e soprar uma nova vida para dentro desse corpo.

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