Ladrões de Livros

Quando escolhi “Ladrões de Livros” de Anders Rydell (tradução: Rogério Galindo) pensei apenas que seria um livro com um tema interessante (roubos de livros na Segunda Guerra), já nas primeiras páginas percebi que é muito mais do que isso. É raro pegar um livro e ser surpreendida e totalmente cativada por um relato e foi isso que aconteceu.

Rydell começa falando sobre o trabalho de bibliotecários alemãs que estão revendo acervos de grandes bibliotecas em busca da origem dos livros que os compõe. Esse trabalho de garimpo vem mostrando que muitos dos livros vieram de acervos, privados ou não, que foram roubados durante a Segunda Guerra. Esses mesmo bibliotecários estão, dentro do possível, achando as famílias dos donos desses livros e os devolvendo. Se a história que Rydell fosse contar se limitasse a esse trabalho já seria um desses livros incríveis. Muitas pessoas que receberam seus livros de volta perderam absolutamente tudo na guerra e esse objeto, o livro, passa a ser o único elemento que os conecta a um passado pré-devastação.

Partindo das histórias de restituição de livros Rydell começa a contar a organização e as razões para os nazistas terem pilhado e, muitas vezes, destruído milhares de livros. Diferente do que se pode pensar os nazistas queriam os livros e bibliotecas para formar centros de estudo que funcionariam como a base filosófica do movimento. Alfred Roosenberg e Heinrich Himmler eram aos mesmo tempo os ideólogos e os executores das pilhagens e o que eles queriam eram os livros, não para destrui-los e sim para estuda-los. Sob o comando dos dois bibliotecas e arquivos foram roubados, encaixotados e enviados para a Alemanha. Rydell segue da parte ocidental para a oriental da Europa em seu relato das pilhagens.

Estamos acostumados a ver filmes e livros sobre os roubos de obras de arte durante a guerra e a batalha dos que tentaram reavê-las. Livros é uma questão muito mais complexa. Na maioria das vezes os livros não tem valor monetário algum, são livros que podem ser comprados em qualquer lugar e só tem valor para essas famílias. Existem livros e manuscritos raros mas mesmo eles não pode se comparar ao apelo midiático de uma viúva tentando reaver os Klimt que pertenciam a sua família e que o governo austríaco não queria entregar.

As histórias de bibliotecas destruídas e que nunca voltaram vão se seguindo, Amsterdã, Paris, Berlim, toda a Alemanha, na verdade, é quando Rydell chega em Roma que a pilhagem começou mesmo a me perturbar. Primeiro porque descobri sobre a história de segregação dos judeus ao longo dos séculos em Roma, segundo porque uma biblioteca inteira desapareceu sem deixar rastros, a Biblioteca della Comunità Israelitica. Foi desse momento em diante que comecei a realizar de verdade o que significa aniquilar um povo, matar sua historia, roubar suas raízes. Desse ponto em diante as histórias que se seguem são mais destruidoras sendo a pior delas a de Tessalônica onde nazistas e, principalmente, os gregos exterminaram a comunidade judaica e a alma da cidade, essa segunda afirmação é feita pela bibliotecária Erika Zemour. Na cidade além das bibliotecas um enorme cemitério judaico foi destruído a marretadas e o mármore das lapides foi usado em construções até os anos de 1960.

No front oriental da guerra as bibliotecas foram mesmo destruída, levadas para fornos ou fabricas de papel. Ali os nazistas queriam aniquilar e extinguir e foi o que quase conseguiram fazer.  O que foi salvo se deveu ao trabalho escravo de bibliófilos judeus que tiveram que selecionar o que existia de mais valioso em arquivos pilhados. A brigada do papel e a unidade Talmude trabalharam para os nazistas na triagem de livros e pilhados e ao mesmo tempo salvaram parte da história de seu povo. Nesse momento do livro temos histórias heroicas de pessoas salvando livros para tentar manter sua cultura e historia vivas apesar do que terror que os rodeavam. É ao mesmo tempo admirável e desesperador de ler.

Tenho que admitir que tive pesadelos com bibliotecas queimando, com meus livros sendo destruídos e me vi alisando as capas dos livros xodós da minha pequena biblioteca particular. “Ladrão de Livros” é um desses livros que me abriu novos horizontes. O que mais pode se esperar de um livro?

 

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